Academia Paraibana de Letras

A palavra literária

Machado de Assis, Ascendino Leite, Gonzaga Rodrigues e Jean Paul Sartre. Quatro nomes, quatro personalidades do mundo literário. Pela ordem cronológica, nasceram, respectivamente, em 1839, 1915, 1933 e 1905. Todos num dia 21 de junho. São, portanto, cancerianos e, talvez por isso, dentro das circunstâncias zodiacais, tenham muita coisa em comum, apesar das visíveis e incontornáveis diferenças que os singularizam na vida. Decerto não reside nesta data específica o ponto de convergência que possa uni-los no andamento do destino e da sorte. Afinal, datas são apenas datas, sinais mais ou menos neutros na compassiva e inevitável clareira do tempo cronológico. Sim, porque sabemos existir um outro tempo, um tempo psicológico ou um tempo da emoção que, filtrando segundos, minutos e horas, fora do estreito das exatas aritméticas, promove o fluxo de novas sensações e de múltiplas percepções, simultâneas e inusitadas. Dos quatro, privei da amizade pessoal de dois, Ascendino e Gonzaga. Com os outros só convivi através da felicidade da leitura, usufruindo o privilégio e o prazer de ter, sempre à mão, o luminoso peso da palavra literária. A palavra literária, eis, quem sabe, o eixo nuclear que os aproxima, que os irmana, que os identifica, à parte quaisquer fatores de ordem astrológica ou transcendental. Claro, cada um é muito diferente do outro, se pensarmos na luta diária com os sortilégios da palavra. Não obstante, sinto, em cada um, e em cada um a seu modo, o gosto especial por este insubstituível meio de comunicação e de expressão. Machado, Ascendino, Gonzaga e Sartre deram as suas vidas ao reinado da palavra. Cuidaram da palavra com zelo, amor e veneração. Fizeram da palavra o elemento seminal de suas emoções e de seus sentimentos, atentos, no entanto, já em outra clave, aos vestígios de beleza que ela pode deixar em meio aos apelos do saber e da verdade. Machado a torna dúctil, flexível, oblíqua, ambivalente, carregada de sabor irônico e mesclada, aqui e ali, com as tintas turvas da melancolia. No conto, no romance, na crônica, e mesmo na crítica, a palavra não nega a elegância e a coloquialidade do estilo, sempre se perfazendo modelo da melhor lição estética. Ascendino, que leu Machado, embora o tenha lido de maneira meio enviesada, também me parece um estilista. Um estilista puro. Principalmente, se me debruço sobre as infinitas páginas do seu Jornal Literário. Contando com mais de 20 volumes ininterruptos, cheio de títulos insinuantes, essa obra contém impressões, comentários, testemunhos, memórias, dados e informações acerca dos bastidores da vida literária do país. A matéria é rica e variada, mas, ao fim, o que encanta o leitor, pelo menos o leitor que sou, é o brilho da frase, a contenção e a medida do estilo. Gonzaga, dos quatro, é o único que está vivo e em plena atividade. Gonzaga é o típico escritor-cronista ou cronista-escritor, à maneira de um Rubem Braga, por exemplo. Sem dúvida leu Machado, leu Ascendino, leu alguma coisa de Sartre, pois o autor de Notas do Meu Lugar, foi tocado, desde menino, pelo vírus benfazejo da leitura. Nas suas crônicas exige o melhor tratamento para a palavra. Seja a palavra afetada pela indignação social e pelo sentido humano de justiça, seja a palavra vestida com a sobriedade e a delicadeza da melhor poesia. Palavra lírica, por excelência. Vejo também, na singeleza do seu sítio idiomático e expressivo, a umidade da terra e o gosto brejeiro de uma saudade permanente. Sartre, o único de fora neste quarteto, fez da palavra o início e o fim de sua trajetória intelectual. Filósofo, romancista, dramaturgo, ensaísta, militante político, usou a palavra como instrumento de combate e como suporte indispensável à produção do pensamento e ao exercício da criação. Ao mesmo tempo em que se valeu da palavra na construção do estilo e na densidade da reflexão crítica, soube, como poucos, teorizar suas possibilidades e direções. Com ele aprendi, certa feita, que a palavra, no poema, é uma palavra com música. Portanto, uma palavra especial, dotada de arranjos e harmonias melódicas que ultrapassam as fronteiras convencionais da prosa. O 21 de junho, o dia, a data, possui, sem dúvida, sua nota simbólica. No entanto, creio estar no valor da palavra literária o elo de semelhança entre estes quatro autores, em meio às suas múltiplas diferenças. Ontem foi 21 de junho. Gonzaga completou 92 anos. Deixo-lhe, aqui, os meus parabéns! – Hildeberto Barbosa Filho, para o Jornal A União – João Pessoa, Paraíba – DOMINGO, 22 de junho de 2025; Ano CXXXII número 121.