Na estrada sem fim
Na estrada sem fimGonzaga Rodrigues No dia da cidade para onde viemos e com a qual nos transfundimos, ambos no vigor da idade, agora, nesse 5 de agosto de 2023, sai Neiva, José Neiva Freire, de vida completada para o descanso eterno; e saio eu, passando do tempo, a vagar do meu tugúrio por ruas de pouca fala, frontais caídos iguais ao meu, e janelas sem amizades, bons-dias nem saudares. Tempo virá de muita casa e pouca fala. O sobrado mais invejado de entre os fins do século 19 para o 20 – o do jurista e presidente Gama e Melo – cercado de vizinhos tais como Floriano Peixoto é hoje um sepulcro sem coberta, sem cruz, sem defuntos nem orações, a rama parasita a cobrir-lhe varandas e ornatos com que os mestres italianos distinguiam a aristocracia assentada entre a Maciel Pinheiro e as ruas da colina. Uma vênia que seja, de índole histórica ou cultural dos que dizem se orgulhar da vila que já nasceu cidade. Cidade matriz fundada, quase sempre louvada, amada e construída pelos que vêm de fora e das suas antigas vilas, seja pela ode consagradora de um santa-luziense (o poeta Jomar Souto) ou pela louvação nacional ao Parque argemirista que a distingue e simboliza aos olhos do mundo. É o que me ocorre, a janela ou esquadria aberta para o final da mata ao redor da qual saíram a plantar o que restou do voluntarismo construtivo do meu grande amigo José Neiva. Vejo-o aqui chegando, quarenta anos atrás, depois de deixadas em salas e álbuns da vaidosa sociedade campinense o mais simpático e fiel acervo que um clique fotográfico podia fixar, revelar e gravar para os bons momentos da vida e da saudade. “Lindo, Lindo!” É o que se podia ouvir, retratinho na mão, da senhora mãe de Patricinho, Patrício Leal de Melo Filho, hoje sexagenário ou de quem visse a foto da filha de Dr. Queiroga, esposa do ex-deputado e empresário Manuel Alceu Gaudêncio. Eu já me dava com Neiva, através de Chiquinho Duarte, meu primo e seu amigo. E vejo, surpreso, o fotógrafo favorito largar o estúdio e converter todo esse prestígio mais que profissional no desconhecido ramo gráfico inovado pelo sistema off-set. Nova e temerosa ousadia: deixar esse mercado já conquistado de Campina para enfrentar o de João Pessoa, concorrendo com empresas de referência nacional como a Santa Marta. Instalou-se, situou-se, e em vez de esperar a encomenda passa de repente a fazer o mercado de impressos padronizados, este sim, a esperar pela Grafset, marca paraibana que se aventura a concorrer com indústrias de grande porte. Conquista o Nordeste. Acha que ainda falte o melhor, estranha que os estados federados soneguem a Geografia e a sua própria História dos filhos na escola, sobretudo os nordestinos, e faz da gráfica a editora cívica com seus atlas ou cartilhas com a Terra e a História merecedoras do orgulho provinciano. Assessora-se, convoca, e dá a Pernambuco, Rio G. do Norte, Bahia, Alagoas, Sergipe, todos, aquilo que o currículo oficial ditado pelo MEC deixa passar por cima. Ele o motorista, olhos na estrada e num horizonte que, a seu lado, indo a Recife, a Maceió, a Natal, a Fortaleza, eu estava longe de alcançar. E até mesmo de acreditar. Tanto que não acreditei na notícia, com a melhor foto, de que Neiva acabava de completar sua viagem. Participando de sua mesa, há um mês, ele numa cadeira de rodas, a expressão do rosto e toda a conversa era a de quem continuava na estrada.
O patrimônio histórico-cultural
O patrimônio histórico-culturalRui LeitãoO patrimônio cultural tem o seu conceito relacionado ao compartilhamento de costumes, hábitos, arte, e outros aspectos de uma sociedade, transmitidos pelas gerações que se sucedem. Uma herança que define os elementos identitários de um povo. A Constituição de 1937 já reconhecia a importância da preservação dos monumentos históricos pela Nação, considerando os atos danosos a eles como atentados contra o patrimônio cultural. Podem ser materiais, como objetos e construções, ou imateriais, como rituais e costumes. De acordo com a Constituição Federal vigente, “os patrimônios são os modos de expressão, formas de criações científicas e tecnológicas, obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artísticas ou culturais, além de conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico e ecológico”.Hoje se comemora o Dia Nacional do Patrimônio Histórico, desde 1988, coincidindo com a data comemorativa do centenário de Rodrigo Melo de Andrade, responsável pela criação do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937, no governo Getúlio Vargas. Segundo a Unesco, o Brasil é o 13º país no ranking com maior número de patrimônios da humanidade. São 22 bens tombados, em 17 estados.Durante esta semana o IPHAEP – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba, em parceria com a Força Tarefa de Proteção do Patrimônio Cultural do Ministério Público da Paraíba, promoveu uma série de palestras com objetivo de celebrar a Semana do Patrimônio Cultural, debatendo a importância das políticas públicas de conservação, salvaguarda e monitoramento dos bens culturais paraibanos.O Governo João Azevedo tem demonstrado especial atenção para a preservação da nossa memória, destacando-se como o que mais instalou equipamentos museológicos no estado. A Empresa Paraibana de Comunicação, alinhada a essa orientação do Governo Estadual, criou o Museu do Rádio Paraibano, na sede da Rádio Tabajara, considerando o rico acervo que dispõe a mais antiga emissora radiofônica da Paraíba. Já se trabalha na elaboração de outro projeto com o mesmo propósito. Dessa vez resgatando e preservando a memória da imprensa escrita, representada pelo Jornal A União, que no próximo ano completará 130 anos de existência e é, atualmente, o único em circulação diariamente.É por meio da memória que nos orientamos para compreender o passado, o comportamento de um determinado grupo social, uma cidade ou mesmo uma nação, contribuindo para que se tenha um melhor entendimento a respeito da situação sociocultural de um povo. A preservação do patrimônio histórico cultural é, portanto, um ato de construção da cidadania, reagindo contra os processos de urbanização e industrialização que abrem portas para a remodelação dos espaços que concorrem para o desaparecimento e destruição da nossa riqueza histórica. Que se desperte a consciência coletiva de que os interesses econômicos não se sobreponham aos interesses de organização e preservação do nosso Patrimônio Histórico. A memória da arquitetura urbana cumpre o papel de reproduzir as experiências construídas por uma sociedade. Essa ideia de pertencimento precisa ser difundida nas escolas como uma disciplina de “educação patrimonial”, transmitindo valores sentimentais ou conhecimentos passados às novas gerações.
O besouro e a rosa
O besouro e a rosaJosé NunesNo dia em que aconteceu a mudança da estação do outono para o inverno, manhã cedinho, com o sol maneiro que iluminava o jardim de nossa casa, um jardim pequeno, onde há flores e plantas suculentas, quando observava de perto uma roseira, inesperadamente surge um besourinho por entre as pétalas úmidas pelo orvalho.Parei por um instante. Se não observei em longo tempo o visitante que agitava suas asinhas e pulava de uma pétala a outra, deixei que meu pensamento fosse até ao antigo jardim de nossa casa, em Tapuio, igualmente pequeno, cercado de vara para proteger de predadores e que também servia de suporte para as plantas que mamãe cultivava.O besouro, de cor preta, pequeno, mas ágil nas atividades de polinização, sequer notou a minha presença. Não me incomodei com isso. Estava a menos de meio metro da roseira. Fiquei quieto, tão estático que sequer respirava para evitar que o inofensivo inseto me percebesse e, incomodado, batesse asas e fugisse.Quando eu tinha o olhar infantil, olhava feito bocó os besourinhos nas plantações do sítio. Eu ficava escondido durante horas como um tolo a observar as flores e os besouros na beira dos riachos.Para alguns, olhar besouros é uma tolice, uma besteira, mas uns colecionam besouros, borboletas e objetos materiais em miniaturas. Outros borboleteiam como crianças inocentes.Há besouros que, percebendo algum perigo, fogem. Pensando nisso, naquela manhã, fiquei quieto para não espantar o besouro em seu bailado. Estava contente, mas calado diante da roseira e do besouro. Silencioso como tantas vezes ficava no meu tempo de criança quando, cabisbaixo, andava pelos caminhos com as ventas levantadas, enquanto o vento batia na cara. Retirava folhinhas de árvore e mastigava. Gostava de estar assim, esquecido, percorrendo as capoeiras, com toda a fortuna da natureza perto. Nessas ocasiões, observava a transformação da natureza. Nem me dava conta, mas gostava desses devaneios.Fico com Manoel de Barros, este poeta das pequenas insignificâncias, como costumava dizer, mas que na realidade carregam um conteúdo filosófico e poético revelador da alma humana: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado”. “Eu penso renovar o homem usando borboletas”. No meu caso de agora, naquela manhã ensolarada de mudanças das estações do ano, renovei-me quando olhava o besouro e a roseira.Existe poesia nas pequenas coisas que a Natureza cria. Mesmo que seja um besourinho preto insignificante que recolhe o néctar das flores. Penso que o homem poderia mudar seu modo de olhar as coisas, se soubesse observar as roseiras, as borboletas e os besouros.As flores que caem nos mostram sem alarde que somos frágeis. Às vezes não entendemos a nossa insignificância diante da exuberância de um inseto junto da flor. Não aprendemos a olhar, a sentir, a tocar e a admirar esses seres em seus silêncios e com eles, nos reconstruir.Sócrates, Platão, Aristóteles, Jesus, Mozart, Francisco de Assis e tantos outros filósofos, poetas e pensadores souberam escutar o silêncio das flores e dos insetos inofensivos que povoam a terra, e propagaram seu fascínio poético a cada estação do ano. Por isso nos deixaram grandes lições e ensinamentos.
A mística dos antigos templos
A mística dos antigos templosJosé NunesEntro na Igreja da Misericórdia como quem busca o recolhimento em um templo antigo para a renovação da alma que busca arrependimento e perdão.Os velhos templos religiosos, mais do que os de edificação recente, que são amparados na visão da modernidade, recolhem a mística da igreja reunida para a vivência da fé.A Misericórdia é uma das quatro igrejas mais antigas da Paraíba. Construída em pedra calcárea esculpida pela mão dos tabajaras e potiguaras, sob a inspiração de jesuítas que trouxeram a visão da fé para o mundo novo que se descortinava, ajuda a observar o Deus invisível, que se revela na alma e transforma a rudeza do homem e da mulher.Desde antes, como hoje, a presença do Divino no mundo povoado de gestos que transformam pessoas em fera, como canta o poeta, fera cada vez mais violenta em atitudes, chega como sinal fundamental de transformação dos corações. Então a pessoa, mesmo entupida pelas vozes agourentas e carnívoras circulantes ao redor, modelada pela brutalidade de bichos-do-mato, quando chega a um templo religioso, ainda mais nos antigos, pode ser transformada pela paisagem do seu ambiente.Eu sinto essa transformação interior quando entrou em uma igreja, sobretudo nas mais antigas, de grossas paredes esculpidas por mãos puras, como são as que foram erguidas pelos nossos irmãos indígenas e caboclos.Se Jesus falou de que o templo invisível de nossa alma seria edificado em três dias, antecipando a sua ressureição após a crucificação no madeiro, com o passar dos tempos a Igreja, iluminada pela força do Espírito Santo, percebeu que a imponência do visível aos olhos muito ajudaria na construção do templo da alma.Suponho que na antiguidade a construção de belas igrejas teve como intuito se tornar o lugar onde o povo pudesse se reunir para renovação espiritual de forma coletiva e, assim, aprender a conviver em sociedade baseada na caridade.Quando flutuamos pelas veredas da vida, semelhantes a barcos que flutuam em águas agitadas por ventos incertos, nas catedrais antigas encontramos ancoradouro para reflexão.Nas pedras calcáreas da Misericórdia está a presença do homem criado a semelhança de Deus. Lugar para onde convergem todos os necessitados, os que buscam um recanto para seu recolhimento, quando outras portas se fecham. Neste lugar santo se acalmam todas tempestades da alma. O Deus invisível apazigua as tormentas.Os conjuntos arquitetônicos, sobretudo os mais antigos, comovem com seus esplendores, e silenciosos, nos falam de Deus.Se foram construídos para ostentar o poder econômico-social, transformaram-se em lugares reservados para acolhida dos cansados e angustiados. É quando o belo da Arte se manifesta como alimento espiritual.Imagino quanto fervor sente o homem ou a mulher ao contemplar as abadias medievais e os mosteiros antigos onde há uma relação próxima destes lugares com Deus, terra e céu se unindo no mesmo olhar. Ambiente de silêncio, onde se busca e se encontra a unidade na oração.Estas Igrejas cristãs primitivas, bizantinas e medievais, foram construídas como verdadeiras obras de Arte, de doutrinação dos fiéis.Como não sou de muitas andanças, ao contrário do poeta Germano Romero que percorreu os mais destacados lugares do Velho Mundo para captar suas belezas e sua energia, caminho pelos arredores da paisagem que os europeus trouxeram há quinhentos anos, observo com irrevelável sentimento os conjuntos arquitetônicos São Francisco, São Bento e Igreja do Carmo, mas é na Misericórdia, a igreja mais humanizada da Paraíba, onde permaneço calado durante horas. Lugar de acolhimento dos degredados, dos esquecidos e dos esfomeados que a cidade abandonou, onde todos se aquecem na chama invisível que nunca se apaga.
Joaquim Silva
Joaquim SilvaGonzaga Rodrigues Retomo o livro de Sales Gaudêncio, em sua 2ª edição, “Joaquim da Silva: um empresário ilustrado do império”. No prefácio, o professor Joaquim Falcão, da Academia Brasileira, endossa de antemão a ressalva do autor de que “não pretende fazer a biografia de um ‘tipo representativo’ e sim, fazer uma ‘biografia contextual’ (…) atenta às especificidades individuais, sem deixar de valorizar a época, o meio e a ambiência”. Como não sou cursado, concluída a releitura, me indaguei: quem mais representativo de Areia do que esse latinista, empreendedor cultural, inovador empresarial, com nome e tradição que deu representatividade a toda uma família? A uma família ou mesmo a toda uma região com vinte léguas de comprimento e dez de largura? Menino de 10 ou 11 anos, estudando na escola particular do professor Clodomiro Leal, em Alagoa Nova, jactava-se ele de ter estudado o vernáculo que o latim de Joaquim Silva autorizava. Quem é esse? – perguntou um mais atrevido. E ouvimos uma aula que foi nos empolgando a ponto de esquecermos a cadeira especial em que, paraplégico, o velho Clodomiro se sentava. Exaltado, fora de si pareceu-nos elevar-se muito acima da sua condição física. Era mais uma gameleira que elevava Areia acima do nosso mirante mais alto, um majestoso pirauá plantado à porta do cemitério de nossa modesta cidade. Modesta diante das alturas de Areia, desde o Império com Pedro Américo, com Joaquim da Silva, liderando a política e a Igreja da Paraíba durante décadas da República. O que o livro de Sales mostra sobejamente, indo às fontes ou em sua riqueza documental, teria de resultar na grandeza do meio onde seu herói atuou. Uma grandeza que comecei a me acostumar, não pelo que vi depois nos livros, mas no que ouvia, menino, nas fornadas da nossa casa de farinha do lado de cá do Riachão, hoje seco. Sem ter companhias da mesma idade, vivendo e brincando só, o caboclinho que fui teve na casa de farinha, pegada com a casa de morada, o seu primeiro espetáculo. Quando o assunto era de fora reinava Areia, com as suas festas ou feiras bem mais ricas de novidades e de coronéis importantes que Alagoa Nova. Evidente que Joaquim da Silva ficava muito distante no tempo e mais ainda da classe social dos descalços fazedores de farinha. A farinha, seja no novo livro de Sales Gaudêncio ou nos relatos digamos clássicos da história econômica, se muito, merece alguma referência. Não entra na pauta de exportações, perde-se na subsistência dos mais pobres ou, como farinha do barco para matar a fome dos flagelados da seca. Mais antigamente, dos que não tinham fuba nem macarrão baratos como alimento. Mesmo assim, foi plantando mandioca manipeba e fazendo farinha que Manuel Avelino, meu pai, terminou senhor de engenho. Engenho de rapadura, ele mesmo virando o motor e emalando o produto nos garajaus que o Cariri e o Sertão vinham pela estrada de Pocinhos apanhar. A casa de farinha moía e torrava o produto do dono da terra e dos seus moradores. O morador, em meio à cana e a outros cultivos do patrão, tinha direito ao roçado em torno do casebre. Mas hoje o mundo é outro, não sei se melhor para todos como devia sonhar o empresário e latinista Joaquim da Silva.
Adoro velório
Adoro velórioHildeberto Barbosa FilhoNão se espante, respeitável leitor. Há um outro lado dos velórios. Um lado bom com sabor de vida, que a mim me faz bem e quero crer que a muitos outros que conseguem penetrar nos reinos cristalizados de seus ritos e formulações.Não o revelo para me exibir e não quero dizer com isto que gosto quando alguém morre ou que, muito menos, aprecie o sofrimento alheio. Quando morre alguém de quem se gosta, o que fica por aqui sofre muito pela dor da perda e pelo mistério que ultrapassa os limites da compreensão humana. Isto é perfeitamente compreensível e com isto devo (e devemos) ser solidário, irmãos que somos, de natureza e de destino.No entanto, parece haver um ângulo dialético dentro da experiência da morte. Seja a morte de um simples conhecido, parente distante, ilustre confrade, seja a morte mais íntima dos que compõem o raro ciclo daqueles que amamos. Já perdi pai e mãe, avós, tios, primos, irmãos e amigos do peito. Sei do que estou falando.Para mim, o velório não é só o dia do morto ou da morta. Nem é só o dia da morte. É, também, em certo sentido, o dia dos vivos! O dia em que, nem ouso entender as estranhas razões nem os critérios desta lógica indecifrável, posso reencontrar pessoas queridas, há muito tempo não vistas nem abraçadas. Pessoas que, estando ainda vivas, lembram a mim mesmo que também estou vivo, e que, se a “vida é uma agitação feroz e sem finalidade”, é também milagre, como ensina o poeta.De um lado revejo aquela tia muito amada a quem não via faz tempo; de outro, abraço o primo que mora distante ou aquele velho amigo de infância, hoje homem velho e vivido, que a exigência incontornável do morto ou da morta o coloca de novo diante de mim, na esfera renovável de minha vida.Dia de velório é, portanto, dia de vida. Dia da vida. Pelo menos, para mim e para meu jeito heterodoxo de apalpar as coisas do mundo. Não que o sofrimento sincero de alguns não me comova, porém, insisto, no âmago da comoção mais profunda, é ainda a a veia da vida que pulsa com vigor e vitalidade.O morto ou a morta que ali estão, no repouso e no silêncio eternos, parecem indiferentes a todos àqueles que a ele ou a ela vêm dar adeus no ato singelo da última homenagem. Indiferentes àqueles e a tudo. Quem sabe, exilados dentro de si mesmos no conforto que deve ser habitar paragens desconhecidas e sem nome.Quando cumpro com este dever humanitário e presto meu último preito a este ou àquele morto ou morta, mesmo que mui rápido, olhando o morto ou a morta pela derradeira vez, tenho quase sempre a sensação de que ele ou ela já não estão mais ali, apesar da presença material do corpo, inerte e mudo. Há mesmo, em alguns, um ar de ausência, certa distância inapreensível, ou, não raro, certa ironia pouco perceptível pela aura dos vivos que proseiam acerca de um tudo em derredor do esquife.Quando da morte de meu pai, tive este impacto de modo muito intenso, e assim o registrei numa das passagens de As horas mortas:“{…} Meu pai estava lá, como todo morto, num caixão, no centro da sala, exposto à curiosidade da visitação. Mas, para que isto? Pergunto-me e não tenho resposta. A morte é uma experiência pessoal, intransferível, misteriosa… Vejo nela a plena perfeição. A morte deve ser preservada, deve ser intocável. É algo que extrapola a órbita das nossas vivências ordinárias. A morte é sagrada!A sensação que tive é que o morto – meu pai – estava num deserto. Indescritível a sensação de que ele estava ali, mas também de que ele não estava ali. Ou seja, a morte a estabelecer fronteiras enigmáticas entre a ordem, o tempo e o espaço, agora pressentidos de maneira diferente. Depois, com os anos, o sentimento esquisóide da separação, do deslocamento, da lembrança. Da lembrança que é uma forma de ver e de não ver, de ter e de não ter, enfim, de procurar e não encontrar”.Sei: esta dor foi minha e o foi à minha maneira. Meu pai se foi. O que ficou, no entanto, foi a vida, já consagrada, por mais paradoxal que seja, nos pequeninos rituais do velório que a tantos juntou, para falarem dele e da sua existência. Porque velório não é só dia de morte. É também dia de vida. E se a morte é sagrada, a vida também o é.
Guilherme permanecerá
Guilherme permaneceráMilton Marques Junior Mesmo quando é o elogio fácil, nunca é fácil o elogio. O que procuro apresentar aqui é o elogio justo e honesto, digno do pesquisador e do escritor que Guilherme Gomes da Silveira d’Avila Lins era, longe do encômio pelo encômio, que, costumeiramente, se faz aos que se vão. Muito triste com a sua partida, solidarizo-me com a dor da família enlutada, buscando conforto no fato de que Guilherme permanecerá, porque não só a Alma é imortal, mas também pela obra que ele deixou. Desse modo, ele estará em cada um de nós que com ele partilhou a amizade, a boa conversa, o gosto do conhecimento.Quando me candidatei à Academia Paraibana de Letras, de todos os seus integrantes Guilherme era o que me inspirava um certo receio, obrigando-me a ser ainda mais reservado do que sou. Sua aparente sisudez não me animava a telefonar para ele a fim de participar que estava candidato, na vaga aberta com a partida de Antônio de Souza Sobrinho. Já não gosto de telefone, preferindo as conversas cara a cara, porque as incompreensões, que ainda persistirem, serão menores. Guilherme, ainda que involuntariamente, contribuía para que eu ficasse distante dos contatos telefônicos. A oportunidade de uma conversa cara a cara veio-me em um dos habituais sábados da Livraria do Luiz. Vi dois acadêmicos presentes ao lançamento que, então acontecia, e resolvi conversar com eles, sobre a minha candidatura. O primeiro mal olhou para mim e me tratou como se eu não existisse, embora eu tivesse deixado bem claro que não estava pedindo o comprometimento do seu voto, mas participando-lhe a minha já efetivada candidatura. Aproximei-me, com certo receio, do segundo, que era Guilherme. Começamos a conversar e, com meia hora, parecíamos velhos amigos. A sintonia foi imediata. No dia da eleição, boa parte da manhã transcorreu em conversa com Guilherme, sempre preocupado com o quorum. Após a eleição e a posse, não deixamos de conversar por telefone, nos encontros na APL ou num almoço que se estendeu até bem próximo do jantar, com a promessa de outros semelhantes, que não pudemos ter, por causa da pandemia e problemas de ordem pessoal. O fato é que mantivemos permanente contato, principalmente por telefone. A genialidade de Guilherme me encantava, o seu humor, muitas vezes cortante e irônico, sintonizava com o meu, a conversa agradável sobre literatura e história nos unia e perdíamos a noção do tempo, conversando sobre as manifestações culturais do período colonial, seja da parte da Literatura, seja da História. Na sua generosidade, Guilherme me presenteou com vários de seus livros, em cujos textos, desde as primeiras leituras, encontrei o rigor e a seriedade do pesquisador, que sabia unir o latim, cujo desaparecimento do currículo escolar achava um absurdo, à filologia; partia da paleografia à edótica, sempre em busca da exatidão da informação e da construção do conhecimento que deve retornar ao público. Não li toda a sua obra, volumosa e substancial, mas do que li assoma a seriedade na investigação do tema, seriedade própria de quem sabe não só o que está fazendo, mas sabe como e por que está fazendo. O seu livro sobre a primeira rua da cidade (A primeira rua da capital paraibana: uma contribuição para a história do alvorecer da Capitania da Paraíba, João Pessoa: Edições Fotograf, 2007), não foge à polêmica, quase sempre inflamada, quando se trata de nossas origens, mas vai além dela, com uma argumentação bem fundamentada, mostrando que a diferença entre rua e caminho consiste, sobretudo, na consciência de um projeto urbanístico que daria, a partir da Rua Nova, atual Duque de Caxias, a capilaridade das artérias, que cortam o centro histórico de nossa cidade. Guilherme traça, ainda, um roteiro sedutor, principalmente, para aqueles que, como eu, nasceram nesta bela e aprazível cidade de Nossa Senhora das Neves, rara oportunidade de itinerário a ser seguido, dando ao transeunte o prazer de poder usufruir a história viva, a partir de sua didática orientação geográfica, interessando a historiadores, àqueles que se inclinam à apreciação da história, mesmo que não sejam da área, e aos que se deleitam com a apreciação de um método argumentativo, decisivo para a construção do saber. O historiador também se debruça sobre a obra de Pero Magalhães de Gândavo (Pero de Magalhães de Gândavo, autor da primeira obra sobre a ortografia da língua portuguesa e da primeira história do Brasil, Editora Universitária da UFPE, 2009), desfazendo as confusões em torno de seu nome – Gandavo ou Gândavo? – e revelando a quem só o conhecia como o primeiro de nossos historiadores, um estudioso do idioma, com livro sobre a ortografia da língua, ainda compreensivamente etimológica para a época, dada a proximidade com a língua latina. Outra obra essencial é Uma contribuição para os primórdios da História dos Beneditinos na Paraíba (João Pessoa, MVC Editora, 2019), que é muito mais do que uma contribuição, conforme se encontra no título.Trata-se de obra fundamentada em sólida documentação, que requer do pesquisador um trabalho árduo, tendo, inclusive, que recorrer “ao penoso labor da leitura paleográfica”, (p. 54), de modo a organizar os dados e transformá-los em informação. Trabalho mais árduo ainda, quando vemos que o autor se desdobra na pesquisa, abrindo duas veredas permitidas pela documentação existente: a da construção do Mosteiro e a da aquisição de bens materiais da ordem, na Paraíba. Por fim, para não nos alongarmos, Guilherme nos brinda com a obra de referência Bibliografia das obras impressas em Portugal pelo tipógrafo Jorge Rodrigues entre 1598 e 1642 (Editora da UFPE, 2009), de onde saiu “uma obra de extrema raridade e de inestimável valor para a História da Paraíba e do Brasil durante o período holandês” (p. 25), para a qual ele preparava uma reedição, acompanhada do devido aparato crítico. Diga-se, a título de esclarecimento, que este livro, como toda a bibliografia citada por Guilherme, não era apenas um rol de livros lidos e consultados, tratava-se, no fundo, de uma bibliografia crítica, comentada por quem a conhecia em profundidade. Diante do
Diário, tempo e leitura
Hildeberto Barbosa FilhoPenso que o diário pode ser, sim, uma espécie de forma literária. Não somente se vem vazado em estilo poético, dentro do rigor artístico da linguagem e com evidentes marcas de literariedade. Quero crer que também existe algo de ficcional na sua escrita fragmentada, atenta ao passar dos dias e quase sempre entregue ao gosto da expansão confessional, aos predicados da observação, à capacidade reflexiva diante dos fatos, das pessoas, das ideias, dos conceitos, enfim, de tudo que possa atrair o olhar e o pensamento de quem o escreve. Diário é literatura, sim. Como as memórias, as confissões, as cartas e a autobiografia.José Rodrigues de Paiva, professor aposentado da UFPE, português de origem e pernambucano por adoção, me faz meditar, a partir de As palavras e os dias: A memória do caminho 1 (Recife: Edições Dédalo, 2021), sobre os limites, os desvios, as finalidades e o sentido dessa escrita íntima, de sólida tradição na literatura francesa, com intensas ressonâncias nas letras de Portugal e do Brasil.Aqui, tanto quanto em As palavras e os dias: Vergílio Ferreira (2006), comparece a figura do professor, do ensaísta e do leitor na sequência contínua dos registros, o que me permite ver o esforço disciplinado de um estudioso inteiramente dedicado às múltiplas tarefas de seu ofício. Seja na organização de um seminário, na elaboração de um texto para um congresso qualquer, na redação de um prefácio para uma obra literária; seja no comentário crítico acerca de algum livro, na anotação de algo a escrever ou mesmo na evocação de experiências pessoais e subjetivas, o autor vai compondo o testemunho diário a respeito dos acontecimentos de sua vida.A família, as viagens, a universidade, os encontros, os natais e anos novos, assim como outras efemérides, preenchem os roteiros dessa aventura cotidiana, tanto a envolver o homem, na sua disposição psicológica diante dos ritos rotineiros da existência, quanto a figura do escritor, ficcionista, ensaísta e poeta, diante dos sortilégios da palavra literária. A propósito deste último aspecto, esclarece o autor, logo na anotação inicial, do dia 2 de janeiro de 2007: “{…} Felizmente passaram… o Natal e o ano velho. Sobrevivi à passagem, ao cinza intenso da melancolia, não muito estoicamente, como desejava, mas sobrevivi. Agora tento começar o ano novo, buscando repetir ou recuperar um vício antigo: o destas notas diarísticas, que talvez sejam a manifestação do oculto e inconfessado desejo de procurar inutilmente o tempo que a todos foge”.Certamente. O diário, como as memórias e outros gêneros afins, trai, sem dúvida, um curioso compromisso com o tempo. Compromisso que parece se cristalizar na ambivalência intrínseca da própria escrita, naquilo que ela prefigura de instantâneo ou de duradouro, de banal ou de relevante, de factual ou de imaginário.Aqui e ali, o professor José Rodrigues de Paiva, no quadro cronológico de 2007 a 2013, retoma os elementos ideativos desta reflexão filosófica como que a determinar a força do tempo, o físico e o metafísico, o da factualidade e o da duração, inscrevendo-se, por dentro, do discurso diarístico, enquanto voz substancial e perene. Perplexo face aos seus 62 anos, escreve, em 19 de novembro de 2007: “{…} Olho para trás e tudo o que vejo ou lembro parece ter acontecido ontem, anteontem, há uma semana, um mês, um ano e não há dez, ou quinze, ou vinte… A vertigem do tempo e o nada que somos nele. A vida que se vai concluindo (até quando?) e tão sem grandeza, tão sem realizações que realmente a justifiquem, tão sempre a mesma coisa, o ramerrão…”.Seduz-me, em especial, as recorrentes notas de leitura, sobretudo as notas de “leituras de intervalo”, com seu poder de sugestão, sua pertinência pedagógica, sua força crítica, descortinando, assim, a personalidade de um leitor que, sem negar o peso de sua formação acadêmica, não se deixa, contudo, dominar pelo canto de sereia das teorias. Ao contrário: o leitor, aqui, assume, sem titubeios, suas preferências, seus gostos, suas afinidades, sem o desconforto das assertivas metodológicas e dos marcos teóricos que alicercem a opinião emitida. Só para dar um exemplo, recorro ao registro de 2 de novembro de 2009: “Terminei hoje a leitura de Caim, de Saramago, livro desencadeador de grande polêmica e de muitas fúrias contra o autor. Livro frustrante sob todos os aspectos, particularmente no que diz respeito à literatura. Absolutamente dispensável à obra do escritor”.Só por momentos como este e por tantos outros que corporificam este diário, discordo do autor, quando, em nota introdutória, considera-o “Desnecessário, porque a ninguém aproveitará a sua leitura, a não ser a mim próprio”. Não. De maneira alguma. O gênero íntimo não se faz por exclusão. Balela esta história de que se escreve diário para si mesmo! Intimidade não quer dizer isolamento. Através do diário não só se conhece a pessoa que o escreve. Um mundo muito mais vasto se dá a conhecer, dando-se a conhecer, naturalmente, pelo filtro singular de um leitor especial. Sei que José Rodrigues de Paiva é um destes leitores.
Uma escritora esquecida
José NunesA literatura feminina paraibana é composta de poetisas, contistas, romancistas, cronistas, ensaístas, críticas literárias e historiadoras que produzem em alto nível, e ocupam relevante espaço no mundo das letras na Paraíba e País afora, mesmo que algumas não tenham o reconhecimento merecido.Para não deixar de fora involuntariamente nomes, desejo neste breve texto lembrar apenas a jornalista, romancista e crítica literária Nevinha Pinheiro, e dela fazer memória porque, nos tempos atuais, poucos a conhecem e quase não é lembrada.Natural da cidade de Serra da Redonda, quando jovem era dedicada aos estudos; estando com 17 anos buscou os espaços na Universidade, cursou Letras e Jornalismo. Ganhou o mundo das redações e dos livros, se fazia presente em eventos culturais relevantes no Rio de Janeiro.Foi como jornalista, atuando na Imprensa carioca, que Nevinha conheceu ícones da literatura brasileira. Basta mencionar escritores de seu relacionamento como Carlos Drummond de Andrade, Josué Montello, Érico Veríssimo e outros nomes festejados no mundo dos livros, como Clarice Lispector, como alguns de seu relacionamento. Entrevistou e produziu análise de obras de alguns escritores e poetas que conquistaram espaço na história da literatura brasileira. Mas foi com Drummond que teve maior aproximação, mesmo que somente tenha sido com a troca de cartas.Em abril de 1979, quando dava meus primeiros passos pelas redações, publiquei em O Norte um artigo que fazia referência ao seu romance A Crucificação do Diabo, em cuja leitura, hoje, tento rever as personagens esquecidas. O livro havia sido lançado na Livraria Leia naquele mês, com relativa aceitação.Quando a entrevistei para o Caderno de Cultura de O Norte, ela falou de sua infância em Serra Redonda, de seu relacionamento com a Imprensa no Rio de Janeiro e das amizades com escritores, seus amigos diletos. Sobre a elaboração do romance em foco, disse que durante anos trabalhou na preparação do texto, e procedeu várias modificações do original, até sua publicação.O enredo do romance gira em torno de um velho Deus e um velho Diabo que decidem, sem combinação prévia, entregar a direção do mundo aos seus herdeiros. Começam pelo Nordeste brasileiro e mostram tudo o que possuem.Tendo como temas centrais tipos de crianças despachadas, como chamamos no interior, mas que pode ser de qualquer parte do mundo, Nevinha inventou histórias sempre entrelaçadas com a vida cotidiana, com fanatismo e superstição. Abordou situações do mundo moderno, da sociedade contemporânea, o drama do consumo exagerado, o preconceito marcante e as tradições enraizadas na mentalidade de um povo tradicionalista por natureza. Ela usa a linguagem do cordel e situações de cantorias nas feiras nordestinas. “Tem muita curtição ao lado telúrico, verdadeiro, belo, puro e eterno do Nordeste brasileiro”, comentou na época.Naquele texto de 1979, escrevi que Nevinha Pinheiro chegou de repente, deu um pinote no meio da turma que estava cochilando, acordou a província para observar a produção literária feminina. Era um tempo em que Maria José Limeira reinava absoluta.A Crucificação do Diabo foi um desafio para a autora escrevê-lo, é um livro profundo, desafia os leitores. É um livro em busca de novos leitores.
Antes e depois de Lima Barreto
Antes e depois de Lima BarretoGonzaga RodriguesNão é todo dia que se diz uma coisa destas: “Só o que nos comove e sacode aumenta a nossa cultura. Há pessoas, por exemplo, e eu me encontro entre elas, que depois de lerem Franz Kafka nunca mais são as mesmas.” Assim escreve Ernesto Sábato, para quem, o principal problema do escritor talvez seja o de evitar a tentação de juntar palavras para fazer uma obra. E citando Claudel: “Não foram as palavras que fizeram a Odisseia, mas o contrário ”. Isso me faz lembrar a sacudidela que recebi, há setenta anos, de Afonso Henriques de Lima Barreto, quando travei relações de profundas consequências (para mim) com a sua obra. Nesse tempo eu ia ser doutor, como tantos outros, mas por ingrato infortúnio, a obra de Lima Barreto cortou-me a carreira. Talvez estivesse hoje desfrutando o privilégio da bacharelice, ou das ofertas prodigiosas do mestrado ou do doutorado, mas a obra do escritor produziu-me o primeiro e grande cataclisma, para usar a expressão do próprio Sábato. Na verdade, ninguém pode passar ileso pela obra de Kafka, como nenhuma donzela do século XVIII pôde sair-se incólume e inviolada da leitura de Voltaire ou febrilmente contagiada pelo drama de Werther. Foram obras que fizeram cabeças, comoveram, sacudiram, deflagraram revoluções e até suicídios. Examinando bem, talvez fosse Lima Barreto (o menos difundido dos nossos grandes escritores) um dos poucos em condições de produzir no leitor brasileiro da minha juventude, isto é, da década de 1950, esses cataclismas. Basta lembrar o Floriano Peixoto das escolas, o Marechal de Ferro da apologia oficial, e o Floriano retratado na obra de Lima Barreto, um personagem inteiramente diferente. O Coelho Neto das antologias, de quatro adjetivos para cada substantivo, e o Coelho Neto que aparece redigindo o seu próprio elogio nas redações do “Escrivão Isaías Caminha”. Havia, portanto, um Coelho Neto institucional, que era o que o país venerava, e havia um outro Coelho Neto, que era o visto por Lima Barreto. Ao ufanismo do Conde Afonso Celso, para quem o nosso céu tornou-se mais azul, contrapôs-se o velho Policarpo Quaresma, que aprendeu tupi para não falar importado. Era um nacionalista ingênuo, sem patriotadas. Pode-se dizer que todos os grandes escritores brasileiros, antes, durante e depois de Lima Barreto, encarnaram uma realidade, sentiram e sofreram o seu mundo, foram capazes de nos transmitir esse sentimento, mas poucos chegaram a nos transformar tão radicalmente. Eles todos nos dão uma experiência de humanidade, mas Lima Barreto nos faz mais humanos porque mais reais.Portanto, de uma coisa estou certo: na falta de autores maiores, o leitor que entrei no “Isaías Caminha” e “Gonzaga de Sá”, antes crédulo e reverente, não saiu o mesmo do outro lado. Não digo, como Sábato, que Lima Barreto me tenha aumentado a cultura, mas foi o que me revolveu e me sacudiu. Não posso dizer que, depois de Lima, eu nunca mais tenha sido o mesmo, mas o mundo, este sim, passou a ser visto com outros olhos. A propósito, vale a pena o depoimento de Jackson de Figueiredo: “Lima Barreto é, entre nós, na verdade, o tipo perfeito do analista social. Um analista que combate, que não ficou como Machado de Assis, por exemplo, no círculo de uma timidez intelectual esquiva ao julgamento…não tem as delicadezas, as intenções filosóficas de Machado, veladas pelo sorriso do cético. Antes de tudo é um forte, arremete, chicoteia os vendilhões da dignidade nacional.”