Eleito Rogério Fialho para a Cadeira 09 da Academia Paraibana de Letras

Eleito Rogério Fialho para a Cadeira 09 da Academia Paraibana de Letras O escritor Rogério Fialho, professor, doutor em Direito e magistrado acaba de se eleger para a cadeira n° 09 da Academia Paraibana de Letras (APL). Vai assumir a vaga antes ocupada pelo acadêmico e professor Manoel Batista de Medeiros, que também presidiu a instituição e faleceu aos 101 anos no último mês de maio. O novo membro foi escolhido pela maioria dos acadêmicos, num sufrágio de 22 votos, contra 15 da candidata Ana Paula Cavalcanti, que é romancista e psiquiatra. A eleição aconteceu na manhã desta sexta-feira (4/9), na sede da instituição. O novo imortal, Rogério de Meneses Fialho Moreira é professor, mestre e doutor em Direito, além de magistrado federal de carreira. Entre suas obras publicadas estão “O Vigário de Araruna: Deputado Padre Joel Fialho” e “O Esquecido Poeta Pereira da Silva – Primeiro Paraibano na Academia Brasileira de Letras”.
O menino e o carneiro
O menino e o carneiro Quando o menino conduzia o carneiro pelo cabresto para participar dos desfiles de escolha dos melhores da exposição, lembrei do carneiro Jasmim de José Lins do Rego. O manso carneiro que seguia para a glória de sua imponência, carregava semelhanças com o fogoso animal da montaria ao menino Carlinhos, que mais de cem anos atrás, passeava pela bagaceira e arredores do Santa Fé.O menino Carlos de Melo ganhou afeto pelo carneiro da bagaceira. Se apegou ao Jasmim, debulhando rosário de afeto porque o animal escutava sua voz, dava seu lombo para montaria e aos olhos da bagaceira, esquipava pelas estreitas estradas do Pilar. Aquele olhar tristinho do neto do senhor dos engenhos quando viu seu amigo sendo levando ao abate por ocasião do casamento da tia Maria, é dos mais revelador da angustia da literatura de José Lins do Rego.O Carlinhos do engenho, criado com o excesso de cuidados pelas tias e pela avó, a pele branca, as mãos finas e o olhar cansado, sendo visível o contraste com o menino de Ouro Velho que, construído no mormaço dos sertões do Cariri, conduzia o animal para a glória da raça, mais pela exibição do que pelo troféu disputado. Daí a pouco o menino sertanejo exibe seu troféu e o carneiro como prêmio maior, o animal que está mudando a economia da região porque seus pais assim acreditam. Ele certamente não conhece nada de economia, mas a alegria de puxar pelo cabresto seu animal é o que interessa.Certamente tanto ele, como seus pais e a grande maioria presente na exposição de animais, nunca ouviram falar do autor de Menino de Engenho porque a literatura e as artes não interessam. Mas se interessam pela criação de caprinos, a vocação redescoberta há poucas décadas, mas estes animais – ovinos e caprinos – povoaram os sertões desde quando a civilização chegou aos pés de serra. Olho para a cara do menino, talvez tenha pouco mais de uma década de vida, mas tem a mesma feição que tive quando criança nascida e crescida na roça, de pela queimada e olha fixo aos horizontes inabitáveis. Aquilo era um divertimento para ele, nunca uma necessidade. Para mim, uma necessidade. Para ele e eu, a escola da vida completou o ensino da Cartilha do ABC. O modo como acariciava, o abraço no pescoço do carneiro e os acenos davam a dimensão da alegria vendo seu animal de estimação, o reprodutor recebendo a condecoração de maior destaque entre os presentes. Talvez o troféu seja estimulo à sua família, como, ali perto, outras crianças e adolescentes, estendiam seus olhares para os saberes culturais, buscando manter vida a língua do passado de sua gente.Enquanto andava com seu carneiro pelo pátio, como a mostrar a imponência de seu troféu, em galho da baraúna no aceiro do terreiro, um sabiá entoava uma melodia. Ao redor e por toda extensão da caatinga, o calor era intenso. Era primavera, mas nessa região não há primavera. Mas o calor e o vento morno davam dimensão da estação quente no semiárido. No entardecer avermelhado sobre a caatinga esturricada escutava longe um chilrear de pássaros, junto com um vento morno que beijava a todos. Uma louvação ao carneiro do menino de Ouro Velho não se assemelhava a passarada de cem anos atrás, quando coleiros, bem-te-vis, galos-de-campina, tizius e papa-capim executavam sinfonia enquanto o menino de engenho passeava com seu Jasmin por entre os partidos de cana.Cada carneiro no seu tempo, com sua imponência. José Nunes.
Um cão
Um cão Estava jantando, quando ele chegou. Com certeza, fazia uns três dias que não comia. Claudicava. Quase não conseguira subir o batente, para chegar até mim. Os olhos eram pidões: implorava algum alimento, qualquer que fosse. Dei-lhe um bom pedaço de carne de sol. Comeu e pediu mais. Dei-lhe outro. Com certeza, era melhor do que os pedaços de osso que pinçava por entre os sacos de lixo, sobra dos sacos de supermercados. Um amigo que estava comigo afirmou: – Esse cachorro é jovem. Conheço-o. É de gente aqui da torre, que o abandonou. O pobre… só porque um carro o pegou. Entendi, então. O meu novo amigo fora vítima de atropelamento. Um carro o pegou. Só agora percebi que, além de claudicar, era empenado. Era curvada a espinha dorsal. Por isso caíra, por duas vezes, quando tentara alcançar a minha mesa. Olhei para o cão. Traços de um perdigueiro: as manchas denunciavam. De súbito, o cão deixa a nossa mesa. Caminha, resoluto, para outra, de um pessoal que chegara num Chevette. Foi incrível. O rabo balançava freneticamente, enquanto o pessoal da mesa tentava disfarçar. Mas o cão balançava, freneticamente, o rabo e foi, resoluto, em direção à mesa. Os ocupantes ainda quiseram enxotá-lo, mas o cão os olhava fixamente, com um olhar pidão; agora não mais carente de comida. Olhava como se pedisse um alento; um retorno ao lar antigo; um retorno ao aconchego do dono. O pessoal fez vista grossa, mas o amigo que estava comigo, não! Como bom interiorano, resolveu enfrentar a turma, que ignorava o pobre cão. – Oi, vem cá… Esse cachorro não é de vocês? – Esse? – Esse, sim. Não era o que vivia na casa de vocês? – Era. Caçava com a gente. – Pegava lambu? – Não. Pegava quati. Cachorro bom, viu? Veloz. Não deixava escapar um… E por que ele está assim? – Ah, um carro pegou. A gente até levou para o médico, mas ele disse que não tinha mais jeito. – Não tinha mais jeito, como? O cachorro não tá aí? – Tá. Não tinha mais jeito para caçar. Talvez envergonhada com nossas perguntas, a turma pede a conta. O Chevette sai. O cão cheira os pneus (por pouco não foi atropelado novamente). Os olhos estão dirigidos ao carro e o acompanham, até desaparecer da nossa visão. Os olhos estão fixos, brilhosos. E desta vez não é fome. É saudade. Os ocupantes do veículo nem olham para trás… O homem é, realmente, um animal. (Crônica do meu livro “O Estranho Professor de Violão”, editora Ideia, 2022. Publicada, originalmente, no jornal “O Norte”, em 28 de agosto de 1999). João Trindade.