A bodega de Pita
A bodega de Pita O papel do cronista é refletir o dia a dia, tirando da realidade a atmosfera do seu sonho poético e tentando fazer poética essa estranha realidade em que vivemos. Pois se o papel do cronista é retratar o cotidiano, acho-me no direito de, nesta crônica, refletir sobre o mundo que é meu e da minha pequena comunidade, mas que deveria ser compartilhado, caso fosse possível, com a maioria da população pessoense. Dirá o querido leitor: “Ora, direis, fazer crônica sobre uma simples bodega?”. Fosse a bodega de Pita uma simples bodega (ou venda ou mercearia, conforme preferem os pessoenses) e eu não tomaria espaço tão precioso com ela. O que acontece é que temos lá um caso “sui generis” e muita coisa insólita, a começar pelo nome do dono da mercearia. Pois é; Pita não é apelido; é o nome mesmo do dono da venda, criatura absolutamente digna de todos os elogios. Pois bem; o que essa bodega tem de diferente? Primeiramente, a confiança. Qualquer pessoa que chegar à bodega de Pita e pedir fiado levará a mercadoria; certamente enrolará o dono da casa, se quiser; no entanto, fará isso apenas uma vez, porque, se voltar, será, com certeza, linchado pela população do bairro, que se aglomera de 7 horas da manhã da segunda-feira ao meio dia do domingo, num frequente jogo de damas, dominó e discussões, regadas a cerveja, cana, rum sem gelo, jogo do bicho, empregadas domésticas telefonando e outras coisas mais. Se, por acaso, o dono precisa sair, não tem problema; os jogadores de dominó tomam conta e, quando da chegada dele, prestam conta: “Pita, saiu um quilo de açúcar, duas fichas; o cara da esquina levou dois quilos de arroz, para botar na conta…”. – E uma carteira de Hollyood (Já é outra voz). Na bodega de Pita, não há tira-gosto; porém, os bares mais sofisticados da cidade perdem boa parte dos clientes, principalmente na sexta-feira à noite (até às nove) e, no domingo, pela manhã, onde se instala uma verdadeira praia, sem o mar, a areia e as “sereias” que passeiam por lá, de biquíni. Os marmanjos estão sem mulher, mas não reclamam; e vale salientar que a garotada também está por lá. Na bodega de Pita não há tira-gosto, mas este não falta. Roda a tecla do orelhão: “Alô? É Ceará? Chama esse safado! Olha, traz um tira-gosto aí que a galera está toda esperando, porque os pastéis do “cabo” Rocha já se acabaram todos”. E não faltam as famosas “histórias de pescador”: Seu Nuto exibe o gilete com o qual já fez 250 barbas. “Seu Nuto, porque o senhor não vai ao fantástico?” “Cabra safado, está me chamando de mentiroso?”. E as discussões rolam no sangue quente dos interlocutores; afinal, a bodega de Pita é um celeiro de gente do interior (principalmente do Vale do Piancó) e de funcionários públicos aposentados, ou protegidos na repartição. Mas a discussão rola e agora quem está com raiva é o “cabo” Rocha, inimigo nº 1 do sexo oral e motivo de mangação do pessoal por ter uma saliência na língua. O que mais me impressiona, porém, na bodega de Pita é a personalidade do dono. Sóbrio, amável, conciliador, José Pita traz uma lição de vida para os dois filhos que tem em casa e os demais que ganha todos os dias na bodega; um raro exemplar de pureza nesse mundo em que rareia o bom-caratismo e campeia, em proporção muito maior, o outro lado da moeda. Incapaz de fazer mal a qualquer cristão, Pita chega a surpreender pela falta daquele orgulho masculino excessivo, caracterizador, sobretudo, da personalidade passional de quase todo interiorano. Um rapaz a quem Pita havia pedido, anteriormente, para nunca mais ir lá na mercearia bebeu e foi afrontar o proprietário do estabelecimento. Pita pediu para que ele se retirasse; o rapaz não só não se retirou como disse que dali não sairia, porque fazia questão de brigar. Consciente das intenções do seu incômodo cliente e, tendo como princípio jamais brigar, mesmo que desacatado (coisa rara nos filhos de Itaporanga), Pita pediu licença ao moço e entregou-lhe a bodega: “Bem, eu vou-me embora e você fica aí. Você não quer ficar? A bodega é toda sua!”. (Crônica do meu livro “O Estranho Professor de Violão” – editora Ideia, pág. Publicada, originalmente no jornal em 29 de dezembro de 1985, no jornal “O Norte”). João Trindade.