Nunca consegui compreender como o abate de baleias pôde se transformar em um espetáculo de atração turística. Na Paraíba, essa prática chegou a ser incentivada pelo governo do Estado, que a divulgava em âmbito nacional por meio de folhetos coloridos, nos quais era equivocadamente chamada de “pesca da baleia”. Como a baleia não é um peixe, mas um mamífero marinho, a denominação correta é “caça à baleia”.
A exploração de cetáceos no litoral paraibano teve início em 1911, introduzida pelo cônsul holandês Julius von Söhsten. A base instalada em Costinha, no município de Lucena, aproveitava a passagem das baleias-jubarte e das baleias-sei durante sua migração pelo litoral nordestino.
A partir de 1958, a atividade adquiriu dimensão internacional com a instalação da Companhia de Pesca Norte do Brasil (COPESBRA), uma empresa nipo-brasileira que empregava centenas de trabalhadores na região e exportava carne e óleo de baleia. Os navios baleeiros, entre eles o famoso Cabo Branco, deixavam o Porto de Cabedelo por volta das quatro horas da manhã e retornavam ao fim da tarde.
Em 10 de julho de 1972, o Governo da Paraíba, por intermédio do secretário de Divulgação e Turismo, Noaldo Dantas, promoveu solenemente a abertura da temporada de caça na praia de Costinha, em Lucena. O evento reuniu cerca de duas mil pessoas, entre autoridades e convidados, incluindo o governador da Bahia e sua comitiva. A temporada estendia-se de julho a dezembro, justamente o período em que os cetáceos migravam da Antártida em busca das águas mais quentes do litoral nordestino brasileiro.
O apoio oficial justificava-se pela importância econômica da atividade para Lucena, que dependia da geração de empregos e renda proporcionada pela COPESBRA. Essa forte dependência econômica e social levou a caça às baleias a integrar, durante algum tempo, o calendário turístico da Paraíba. Em 1974 a Copesbra havia pescado um total de 793 baleias, das quais 761 foram da espécie minke, 3 espadarte e 29 cachalote, das quais foram retirados o óleo, a carne (que também servia para fazer charque e toucinho), a farinha de osso e as barbatanas
Impulsionados pela propaganda oficial, os visitantes deslocavam-se de Cabedelo para Lucena por via marítima. No local, uma arquibancada permitia que acompanhassem a chegada da baleia capturada e, em seguida, assistissem ao seu retalhamento, um espetáculo que hoje parece cruel e inconcebível. Ao lado da área de desembarque funcionava o restaurante “Minke”, cuja especialidade era a carne de baleia. Na abertura da temporada de 1972, foi abatida uma baleia-minke com aproximadamente sete toneladas.
Após intensa mobilização de ambientalistas em diversas partes do mundo, o presidente José Sarney sancionou, em 18 de dezembro de 1987, a Lei nº 7.643, que proibiu definitivamente a pesca de cetáceos em águas jurisdicionais brasileiras. A medida encerrou um ciclo que, embora tivesse contribuído para a economia de Lucena, representava uma grave ameaça à sobrevivência de espécies como a baleia-minke e o cachalote, entre as mais perseguidas no litoral paraibano. A proibição permitiu, nas décadas seguintes, a expressiva recuperação das populações de baleias-jubarte na costa da Paraíba.
Hoje, o litoral paraibano tornou-se um importante santuário de conservação e observação de baleias. Entre os meses de junho e novembro, esses gigantes do mar retornam às águas da Paraíba para reproduzir-se e cuidar dos filhotes, oferecendo um espetáculo que celebra a vida, e não mais a morte.
Rui Leitão.