Academia Paraibana de Letras


A crônica é um gênero anfíbio da literatura; transida entre o factualismo jornalístico e a transcendência estética, ela é o hibridismo do hibridismo, o entrelugar da linguagem, a indomável arte que se recusa a caber dentro desta, daquela, ou de qualquer que seja a grade classificatória que a queira aprisionar. Malandra, enamora-se dos vários modos de transfiguração do real, mas não assina pactos de convivência duradoura com nenhum deles, a não ser consigo mesma e com o seu libertário e errático modo de ser e de estar na república das letras.

Do poema em prosa, ao roçar nas fímbrias da ficção; da meditação filosófica ao delicado incursionamento ensaístico, plural é a travessia da crônica, gênero cultivado pelo professor e acadêmico Damião Ramos Cavalcanti, em várias impressões textuais que ele tem, domingo após domingo, destilado nas páginas deste periódico. Ora o lirismo se evola de uma memorialística remembrança do mar em seus fascínios e mistérios, notadamente o que é, em sua aparição original, recuperado pela percepção da criança que ainda habita o homem em sua maturidade.

Ora, a tonalidade da crítica social se acentua, e a crônica, diria mestre Eduardo Portella, tanto celebra quanto denuncia a cidade moderna, palco de grandezas e misérias. Ora aciona as teclas do código afetivo, na cartografia exata de uma personalidade marcante com quem o cronista escreveu um bonito enredo chamado amizade. E tudo, acentue-se, por meio de uma estruturação retórica que, aparentemente, simula dispersão e desfocamento temático, mas, no final das contas, como diria José Nêumanne Pinto, vai direto ao assunto, ao indesviável cerne da matéria cotidiana de que se instrumentaliza em seu peculiar ato/processo de recriação da realidade.

José Mário da Silva Branco

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