Carta ao filho

Meu filho:

Você não diz, mas sei que está sofrendo; afinal, o fim do primeiro namoro é uma marca e um marco.

Também já passei por isso, filho; a diferença é que, na sua idade – 14 anos – só me eram permitidos amores platônicos; dores imaginárias, para amores também imaginários.

Chore, filho; chore abertamente; não esconda seu pranto. Quem disse que homem não chora? Homem chora, sim. Os mais belos homens são os que choram (e as mais belas mulheres também!).

Chore, filho. Escute Arnaldo Antunes, até à exaustão. Assim como eu chorei ouvindo Paulo Sérgio, Leno e Zé Roberto.

Eu sei, filho; sei que é difícil… Claro que contam o primeiro encontro, o shopping, as orientações que lhe dei; a ida à casa dela, o percurso, de ônibus…  os olhos claros dela, aquele jeitinho diferente (o diferente a gente cria quando está apaixonado).

Mas é isso, filho: acabou. “Não corra atrás de uma sombra que fugirá com o vento”. E, sobretudo, não se humilhe; não há amor sem amor próprio. Não a procure; mulher não gosta de homem mole.

Mas… (mais uma vez, mas) se ela o procurar, pese, pense e, se for o caso, aceite-a; a não ser que você descubra que ela está brincado com você. Com amor não se brinca.

Eu falei amor? Ah, filho, na sua idade – 14 anos! – não existe amor. Existe paixão, brincadeira, entretenimento… menos amor. Você é muito jovem, ela também; não dava para ter “coisa séria”. Ao contrário: quanto mais corpos e almas os dois conhecerem, melhor.

Agora, cuidado, filho. Vocês estudam no mesmo colégio. Prepare-se para quando – e se – a vir com outro. Cuidado com a síndrome de Lupicínio, com o egocentrismo, próprio dos românticos. Coração é fogo!…

Filho, quisera ser racional como sua mãe, que disse, friamente: “não vai ser a primeira mulher pela qual você vai chorar”. Eu, ao contrário, peguei-me, ontem, na BR, enquanto dirigia, enchendo os olhos de lágrima, por sua dor. Dor de filho dói duas vezes no coração do pai.

Vá ao shopping, filho. Ria, sorria, paquere; se possível, com a melhor amiga dela. Ouça Arnaldo Antunes, Titãs, Vinícius de Moraes, Chico Buarque; leia todas as obras românticas do mundo, mas não faça dela seu mundo.

E, sobretudo, filho, pense numa coisa: está caindo uma lágrima, neste momento, dos meus olhos; lágrima fundamental, porque nascida de amor verdadeiro.

(Crônica do meu livro “O Estranho Professor de Violão, editora Ideia, 2022, páginas 21 e 22. Publicada, originalmente, em O Norte, de 04 de dezembro de 1999).

 

João Trindade.