A PARAÍBA COMO GRANDEZA DO BRASIL: A PRESENÇA DO CRISTÃO-NOVO AMBRÓSIO FERNANDES BRANDÃO

A PARAÍBA COMO GRANDEZA DO BRASIL: A PRESENÇA DO CRISTÃO-NOVO AMBRÓSIO FERNANDES BRANDÃO Diálogo das Grandezas do Brasil é uma obra escrita em 1618 por Ambrósio Fernandes Brandão (1555-1618), cristão-novo, que se estabeleceu na Paraíba, após enfrentar perseguições da Inquisição em Portugal. Ele se tornou senhor de engenho. A sua autoria dos Diálogos foi confirmada pelo historiador Capistrano de Abreu, no início do século XX. A obra está estruturada como uma conversação entre dois portugueses: um, recém-chegado ao Brasil; outro, residente de longa data. Através dessa conversa, Brandão oferece uma descrição detalhada da colônia portuguesa na América, abordando aspectos como geografia, fauna, flora, economia açucareira, comércio com a Coroa, sistema de governo, órgãos judiciários, além dos costumes e condições de vida dos indígenas e escravos africanos. Além de destacar a riqueza e o potencial econômico do Brasil colonial, especialmente das capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, Brandão também manifesta preocupação com a situação precária dos povos indígenas e dos escravos, evidenciando uma sensibilidade incomum para um senhor de engenho da época.  Em Os judeus na história do Brasil, diz Afrânio Peixoto: “Uma figura singular naquela sociedade foi Ambrósio Fernandes Brandão, sem cousa que duvida faça o Brandônio dos magníficos Diálogos das Grandezas do Brasil, que é um dos mais substanciosos escritos sobre o Brasil no primeiro século. Custa a crer que um simples colono dispusesse daquela formidável cornucópia de admiráveis conhecimentos, que prodigamente derramou nas páginas de seu livro, de informação tão segura, de observação tão justa. Brandônio não era médico, como Garcia da Orta; dele nenhum depoimento existe de que tenha passado, como o outro, por Coimbra ou Salamanca; por isso mesmo é que maravilha como possuísse tamanho cabedal científico, de tão extensa erudição em matérias que por seu ofício ou profissão não estava obrigado a versar, quanto mais a ensinar.” (PEIXOTO, 1936: 19-20) Ambrósio descreve a Paraíba como “tão fértil e aparelhada de cousas necessárias à vida humana, que, se se tivera em muita estima, pudesse porventura competir com qualquer das outras capitanias” (BRANDÃO, 1618, cap. IX). A Capitania da Paraíba, criada oficialmente em 1574, teve sua colonização consolidada apenas no final da década de 1580, com a fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), em 1585. Esse processo foi marcado por conflitos com os franceses, que buscavam alianças com os povos indígenas da região, e com os próprios indígenas potiguaras, que resistiram à colonização portuguesa. Quando Ambrósio Fernandes Brandão chega à Paraíba, por volta do início do século XVII, a região vivia um momento de estabilização política e crescimento econômico, graças à implantação do sistema de engenhos e ao cultivo da cana-de-açúcar. Nesse cenário, ele se estabelece como senhor de engenho, participando ativamente da elite local e sendo testemunha privilegiada da consolidação da economia colonial na região. Na Paraíba, aquele cristão-novo encontrou condições propícias para reconstruir sua vida, tanto social quanto economicamente. Embora aborde em Diálogo todo o território colonial, é evidente sua predileção pela região Nordeste, pelas referências elogiosas aos engenhos, à qualidade das terras e à produtividade. Sua vivência direta na capitania lhe confere um olhar minucioso e realista sobre a vida local, incluindo os aspectos positivos e as contradições da sociedade escravocrata. No que diz respeito à Paraíba, observamos seu entusiasmo pelas riquezas naturais, fertilidade do solo e possibilidades comerciais. Ele descreve com admiração a paisagem, o rio que dá nome à capitania e a abundância de recursos — todos aspectos que justificavam, na visão de um colonizador, o investimento e a permanência na região. A importância da obra Diálogo das Grandezas do Brasil para a história da Paraíba está no fato de ser uma das primeiras descrições literárias e quase etnográficas da região nordestina, feita por alguém que viveu e participou diretamente da formação da colônia. Para os estudiosos da história paraibana, o texto de Ambrósio Fernandes Brandão constitui uma fonte fundamental para compreender o papel da capitania no sistema colonial, a dinâmica dos engenhos e da produção açucareira, a convivência — muitas vezes conflituosa — entre indígenas, colonos e africanos escravizados, bem como a formação de uma elite local estruturada a partir da posse da terra e do controle da economia açucareira. Como reconhecimento por seus esforços, Brandão recebeu diversas sesmarias, incluindo terras ao longo do rio Gargaú, onde estabeleceu o Engenho Gargaú. Este engenho tornou-se um centro de resistência contra as invasões holandesas no século XVII. Durante as tentativas de invasão em 1631, o engenho serviu de refúgio para forças luso-brasileiras e, após a ocupação holandesa em 1634, foi confiscado e vendido a Isaac de La Rasière, um dos homens mais ricos a serviço da Companhia das Índias Ocidentais na Paraíba. Além do Engenho Gargaú, Ambrósio possuía outros empreendimentos, como o Engenho Santos Cosme e Damião, fundado em 1605, que também contribuíram para a consolidação econômica da capitania, então voltada à monocultura da cana-de-açúcar e à estruturação do sistema escravocrata. Nesse contexto, Ambrósio não se destacou apenas como figura política e econômica, mas também como intelectual que deixou importante testemunho sobre a realidade do Brasil colonial. Essa valorização da terra paraibana, bem como a crítica sutil ao abandono administrativo da capitania por parte da Coroa Portuguesa, revelam a preocupação de Brandão com o fortalecimento da região. A obra Diálogo das Grandezas do Brasil ocupa posição de destaque entre os textos fundacionais da historiografia brasileira, a ponto de José Honório Rodrigues, notável historiador, tê-la incluído entre os doze livros mais importantes já escritos sobre o Brasil durante o período colonial. Desde suas primeiras aparições, a autoria da obra foi objeto de intensos debates críticos, mas hoje ela é, de forma quase consensual, atribuída a Ambrósio Fernandes Brandão — salvo eventual prova em contrário. Evidências de crítica interna indicam que o texto começou a ser redigido no final da segunda década do século XVI, informação que já se encontra devidamente demonstrada e que será retomada adiante. Atualmente, conhecem-se dois códices manuscritos da obra, ambos datados do século XVII (portanto, apógrafos): um está sob custódia da Biblioteca da Universidade