O pai, a bicicleta e o trem

O pai, a bicicleta e o trem Sob a Ponte do Trem, a caminho de Pombal, corriam as águas do Rio Piancó.A ponte foi construída no início dos anos 30, tempo de Getúlio na presidência, quando a Rede Ferroviária cortava as serras sertanejas, rochedos e matagais da caatinga para implantação da linha férrea. Naquele trecho do rio, foi preciso a construção de uma ponte para a passagem dos trens. Outro dia, de tardezinha, lá vinha ele sozinho – um homem montado em sua bicicleta… Seu Abílio, meu pai, tinha a sua rocinha no Sítio Bezerros, herdado de um cidadão chamado Antônio Pereira, meu avô paterno, o qual usava para plantação de batatas e outros insumos. Ia para roça uma vez por semana, geralmente às segundas-feiras. Saía cedo na bicicleta, um caixão de madeira amarrado atrás no bagageiro, carregando os frutos do seu plantio. Frequentemente me levava com ele. Eu ia sentado atrás, dentro do caixão, para ajudá-lo a desenterrar as batatas. Tinha lá os meus sete anos e, naquele dia, encontrei a sorte de não morrer nessa idade… Naquela manhã de segunda-feira, diferentemente das outras, o pai decidiu me deixar em casa. Hoje, superstição à parte, quero crer que a Providência Divina me evitou uma tragédia. Lá vinha ele sozinho – um homem montado em sua bicicleta… De repente, ali no meio da travessia da ponte, o trem apita bem próximo. Seu Abílio se desespera – olha para trás, para a frente, calcula o tempo que ainda lhe resta para retornar ou seguir, o trem apita de novo e ele conclui que a sua única saída é jogar a bicicleta, com aquele caixão repleto de batatas, para as águas do rio. Mas não joga ainda, está indeciso. O trem apita na terceira vez vindo das bandas de São Domingos, já se aproximando da curva que vai desembocar na entrada da ponte. Ele pensa na chance de salvar as batatas e a bicicleta, descendo para a pilastra de poucos metros à frente. Assim o faz e, entre os apitos cada vez mais próximos, lança para baixo a roda traseira, a qual se apoia com o peso do caixote sobre a pilastra de concreto. Reúne forças sobrenaturais para dar o seu salto também. Com a bicicleta empinada, uma roda na pilastra e outra sobre a ponte, algumas batatas caem do caixão e pinoteiam no rio. Agora, em pé abaixo dos trilhos, ele tenta puxar a roda de cima, e o trem apita de novo já na entrada da ponte. Conseguiu abaixar a bicicleta inteira, mas na pilastra não há espaço de sobra para as duas rodas. Meu pai decide que, sendo o caso, vai soltar a bicicleta de cima, pois ela está pendurada sob as suas mãos abaixo da pilastra, escorregando pelas pontas dos dedos. Em casa, na manhã seguinte, ele irá nos dizer isto: – Ainda não entendo como tive força para continuar segurando, acocorado na ponta do pilar, enquanto o trem passava acima da minha cabeça. Tudo para salvar as batatas, um dia de trabalho debaixo do sol, e a bicicleta também. Se olhava para baixo, era a imagem da água no trecho mais fundo do rio. Se olhava para o alto, eram as rodas dos vagões com toda a sua engrenagem em movimento. – O pior era o barulho da máquina, que não me sai dos ouvidos – lembraria ele na manhã seguinte. Quando o trem passou totalmente, ainda ficou na pilastra por alguns instantes, parado, tentando se acostumar com o alívio, e começou a trazer de volta a sua bicicleta. Nada fácil, o esforço de puxar uma roda e depois a outra… Em seguida desamarrou o caixote, saltou para os trilhos e arrastou a bicicleta também, depois de novo o caixote e o amarrou outra vez atrás. Se viesse outro trem, pensava, jamais repetiria o sacrifício. Empurrou a bicicleta a pé durante mais de um quilômetro, Seu Abílio estava tonto e não tinha força para pedalar. Lembro de minha mãe, pelas oito da noite, estranhando a demora, pois ele sempre chegava por volta das sete naqueles dias de roça. Quando entrou em casa, não disse nada. Foi para o banho, depois tomou um calmante, não quis jantar e partiu para a cama. Na manhã seguinte, à mesa do café, finalmente ele nos contou, com detalhes, todas as etapas da aventura. – Deus seja louvado – disse Dona Neomísia. E, pensativo, entre um gole e outro do café, Seu Abílio comia de boca fechada, mastigando a batata que conseguira salvar. Tarcísio Pereira.

A PEÇA DO PAPA

A PEÇA DO PAPA Está lá, no fascículo 125 da coleção Cadernos de Teatro, editado em abril de 1991, a publicação de uma peça teatral sobre conflitos conjugais… O autor, um certo polonês chamado Karol Wojtila – que não era outro senão um dos ocupantes do Trono de São Pedro no Vaticano, o saudoso Papa João Paulo II.   Em algumas passagens de sua biografia, várias vezes foi dito que João Paulo II tivera, em sua juventude, uma experiência com o teatro. Chegara a ser ator e, também, uma espécie de “Mobilizador”, ou “Agente Cultural”, já que organizava encontros de teatro em sua terra natal. Poucas vezes, no entanto, tem sido revelada uma outra faceta de Karol Wojtila: a de dramaturgo! Publicada originalmente sob o título de “La Boutique de L’Orfevre”, a peça “A Loja do Ourives”, traduzida no Brasil por Dom Marcos Barbosa, não é nenhuma peça “religiosa”, como se poderia esperar. Mais curioso ainda é o fato de não ser um texto de cunho moralizante, na medida em que se aprofunda em angústias e conflitos de casais atrelados aos mais diversos destinos. Neste sentido, chega a ser uma peça “mundana”, sem nenhuma acepção pejorativa, pois é “mundana” por se colocar em pé de igualdade a tantos outros dramas que refletem, e analisam, os altos e baixos de um casamento. A diferença está na linguagem – que é terna, lírica e… romântica, o que acaba confirmando o dedo de um autor que está contextualizado na peculiaridade do sacerdócio. “A Loja do Ourives” foi publicada pela primeira vez em 1960, numa revista polonesa. Karol Wojtila tinha menos de 40 anos e assinou-a sob o pseudônimo de Andrzej Jawien. Naquela ocasião, era bispo auxiliar de Cracóvia e, à sombra de um pseudônimo, definiu sua peça como “uma meditação, passando em certos momentos para o drama”. Essa “meditação”, de fato, confirma-se nos inúmeros monólogos de seis personagens que, à frente da loja onde foram compradas as suas alianças de casamento, refletem sobre passado, presente e futuro de relacionamentos amorosos que tiveram destinos diferentes. Karol Wojtila conta três histórias de amor para, no final, de maneira surpreendente, redundá-las numa só história, apresentando o encontro desses casais para dar-lhes uma unidade que seria a unidade do amor, ou o núcleo de uma trama que se recheou de tragédias humanas como a separação, a guerra, a angústia e a incerteza dos sentimentos. Como vemos, são temas bem recorrentes, normalmente visitados pelos autores mais modernos. O casal André/Tereza simboliza o amor perfeito, que se ama e se entrega sob o compromisso de tornar-se um único ser, e está diante da loja do ourives para adquirir o seu par de alianças. Na segunda parte, vamos conhecer outra história, a de Ana e Estêvan, já numa fase bem avançada de um casamento desgastado. Ana também se encontra na frente da mesma loja onde, anos antes, fora adquirido o seu par de alianças. Ali, reflete sobre o desgaste de seu relacionamento, e deseja ardentemente encontrar um novo parceiro enquanto Estêvan passeia entre as “moças da noite”. Temos então, numa terceira parte, o casal Cristóvão/Mônica, que será o resumo dos anteriores. Estão também diante da loja do ourives e vivem um impasse para o casamento previsto. Quando acompanhamos o seu drama, em nenhum momento suspeitamos que cada um dos dois jovens é filho daqueles casais que já passaram. Mônica não está segura quanto à felicidade do seu futuro, pois vive traumatizada pelo péssimo exemplo dos pais. Já Cristóvão projeta sua segurança com base na felicidade dos seus, revelando que seus pais se amaram intensamente, embora esse amor tenha sido interrompido pela tragédia da guerra, onde ele perdera seu genitor. A surpresa se revela no momento em que o autor, através de seus personagens, informa que o jovem casal é filho dos anteriores. É quando temos o ponto mais alto da trama, pois novamente localizamos aquelas duas histórias que vêm se juntar ao drama do momento para o clímax final. Fica a mensagem de que o mais jovem casal é a continuação dos outros dois, e que haverá enfim a felicidade que faltara nos outros. Com essa peça, João Paulo II, anos antes de seu pontificado, escreveu uma espécie de “evangelho do amor” – e o amor com suas tristezas e alegrias, sonhos, esperanças, desejos. “A Loja do Ourives” pode ser lida como obra literária totalmente isenta da condição religiosa de quem a escreveu, pois não possui um princípio de dogma e sim uma expressão de problemas humanos tão presentes. A linguagem, da mais fina literatura, alterna-se entre o diálogo dramático e narrativas intimistas que lembram bem um romance moderno. Não conhecemos as razões do autor em ter adotado um pseudônimo – mas, em que pese o mérito artístico da obra, e não vendo nela qualquer imprudência sacerdotal, a Igreja Católica só teria a ganhar com a divulgação desse texto para a humanidade. Tarcísio Pereira.