GONZAGA RODRIGUES SEMPRE

Vamos ficando outros, tendo saudades do que fomos ( Gonzaga Rodrigues. As paredes do homem) 

 

Os textos de José Nunes Gonzaga Rodrigues: uma vida bem escrita ( A União, 21 de junho de 2026) e o de Vitória Lima  Gonzaga Rodrigues, 93  ( A União, 1º. de julho de 2026) me incentivaram a escrever sobre mais um cronista de escol da Paraíba. Para usar um lugar comum, um cronista que dispensa apresentações. 

 Com mais de setenta  anos na labuta dos jornais, é um assíduo colaborador do jornal A União. Sua terra natal, Alagoa Nova, Campina Grande e João Pessoa estão sempre presentes em seus escritos. O que escreveu vai se eternizar como se eternizaram as crônicas de Machado de Assis e Lima Barreto. 

Já é rotina, todo domingo quando recebo o jornal A União vou para a página 2 e lá está o nosso cronista, digo nosso porque ele pertence à Paraíba, a paraibanidade está presente em tudo que escreve – às vezes é a descrição da mata brejeira, outras vezes é a aridez das terras sertanejas e do cariri, tudo é Paraíba, não faltando referências aos personagens que habitam essas plagas. 

Gonzaga Rodrigues completou 93 anos e continua ativo, lendo e escrevendo sempre. Sua ânsia de saber é inesgotável, em seus textos revela preferências literárias, entre outros, por Lima Barreto e Graciliano Ramos, nisso tenho afinidades com o cronista, sou leitora recorrente de (crônicas, contos e romances) dos dois escritores. 

No livro Com os olhos no chão (Ed. MVC Forma, 2023), duas crônicas me chamaram a atenção – a primeira foi A morte perdeu o seu tempo e a outra é A Qunu de Mandela. Justifico a escolha. A primeira transcreve trecho de uma carta que Graciliano enviou à irmã, uma resposta à consulta sobre um conto que escrevera, era    uma avaliação crítica. Exigente como era, e pouco afeito a elogios, Mestre Graça foi sincero com Marili e deu essa resposta: 

As caboclas da nossa terra são meio selvagens, irmã Marili. Como você pode adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupa. Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne (…) Só podemos expor o que somos (…) fique na sua classe, apresente-se como você é, nua, sem ocultar nada. Arte é isso”. 

Conselho mais claro, impossível. A sinceridade era a tônica do escritor alagoano, não contemporizava com ninguém nem mesmo com as pessoas de sua estimação. 

Qunu é a aldeia onde Nelson Mandela, o líder sul-africano, passou parte da infância e Gonzaga discorre sobre as aldeias de outros países, como Portugal, Brasil, África, elas guardam afinidades. Mas o que me despertou o interesse foram os versos do poema de Castro Alves: “A cruz da Estrada”. Este poema constava nas seletas ou crestomatias do início do século XX e era lido, declamado e exaltado pelos alunos das antigas escolas primárias, principalmente aqueles que estavam se preparando para voos mais altos. Segue o fragmento destacado pelo cronista: 

Caminheiro que passas pela estrada, 

Seguindo pelo rumo do sertão, 

Quando vires a cruz abandonada, 

Deixa-a dormir em paz na solidão (…) 

Vai espantar o bando buliçoso 

Das borboletas que lá vão passar. 

O excerto desse poema me fez retornar ao tempo em que estava descobrindo a poesia e meus irmãos mais velhos tinham uma antologia escolar com esse belo poema de Castro Alves. Folheava aquela antologia e me deliciava com os poemas românticos de poetas brasileiros e portugueses.  

A leitura de Com os olhos no chão foi um mergulho no passado. É um  livro muito bem editado, contou com a colaboração do eficiente editor Juca Pontes e com ilustrações sugestivas de Flávio Tavares. É para ser lido e relido como os romances de Graciliano Ramos e as crônicas de Lima Barreto. 

 

Neide Medeiros Santos

Acadêmica da APL

neidemed@gmail.com