Academia Paraibana de Letras

A vida moldou em Fernando Aquino Freire um conjunto de ideias, competência, habilidades, estilo ou uma sóbria maneira de ver, julgar e, assim, escrever a realidade com facilidade e beleza. Tudo começou quando sua mãe Iolanda levou o seu berço, aos seus dois anos, da Capital ao então distrito de Cabedelo; comparando-se os tamanhos dos lugares, é como se fosse transferir a morada do mar para o porto. Roland Barthes, em Crítica e Verdade, ao se perguntar quem escreve, responde “que a palavra é um poder e que entre a corporação e a classe social, um grupo de homens se define razoavelmente bem pelo seguinte: ele detém, em diversos graus, a linguagem da nação”. A nação de Fernando Freire é sua vida em João Pessoa, Itabaiana e, sobretudo, em Cabedelo, lugar que ele adotou como sendo cidade da sua origem. Também, enquanto bancário, o autor percorreu o país do sul ao norte, informatizando as agências do histórico Banco do Brasil. Como ele próprio se diz passageiro, memorizou esses caminhos e agora resgata valores e costumes dessas cidades: “Em João Pessoa, inocente: Perdido nas ruas de sinais verdes; prisioneiro nas esquinas de sinais vermelhos. Veículos como carros e carros de guerra, convidando-me à paz de armas baixadas; no final do pesadelo, bandeiras hasteadas; choros , sorrisos e lágrimas. Em Cabedelo, irreverente: Nas sãs arruaças da praça, nas ruínas da Fortaleza, nas areias da praia; na corrente do rio, nos frios navios, nos cais do porto, porta de vai e vem de riquezas alheias e da caça à baleia; na estação de trem, vagões cheios de gente humilde, vazios de outros bens; no Grupo Escolar Pedro Américo, onde riscou na pedra as primeiras letras; no Colégio Imaculada Conceição, onde o discípulo se fez voluntário mestre; no telégrafo da ferrovia – onde foi, sem salário, aprendiz, depois escriturário” (…) E assim ele finaliza seu perfil: “Nomeado bancário, quando se viam nas ruas sinais verdes de odiento levante, mandou-se para as terras de Sivuca, onde aprendeu letras musicais, e mais: Abelardo, Jurema, José Lins do Rego, Damião Ramos Cavalcanti e tantos mais intelectuais de renome, que me convidaram a cantar das primeiras sílabas do bê-á-bá à literatura do Engenho Corredor de Pilar”. Verifiquei que falou sobre as cidades onde mais vivi e que tanto amei, falou de mim, tornou-se amigo; precisaria mais o que? Então comecei a me encontrar, procurando-me na sua palavra, na sua linguagem, com outras ressonâncias; uma delas foi a de encontrá-lo, um Fernando filho de ferroviário e de lavadeira; de irmãs costureiras, portuário, pescador, telegrafista, professor e bancário, e, enfim, até modestamente chamando-se de “escrevinhador”. Não, nas suas palavras há muito sentimento e, consequentemente, merecimento em seus poemas e em suas crônicas; ainda usando as definições de Barthes, ele assume todos os graus, de “escrevente”, de “escritor”.

Por onde passou, as circunstâncias formaram sua identidade: Um homem sensível, justo, paciente, mas revoltado diante de tantas injustiças acometidas contra nosso povo, contra sua gente; bondoso, ao ser sovina em economizar um tijolo, uma telha para, acometido pela generosidade, doar uma casa… Como em todos nós, alguns poucos e efêmeros defeitos demonstrou, mas observa-se, nos seus escritos e na sua fala, amadurecimento; com os anos, aparecem ressonâncias do que aprendeu com a vida, como é o caso de ter recebido também energia da força literária; sim, a literatura tem muitas funções e uma delas é ressonar, ressoar os que os outros tem e são de bom em comparação com as nossas possíveis benéficas semelhanças… É o que li neste livro em que ele me dá a honra de prefaciá-lo e no qual tudo isso se observa. Altimar Pimentel me ensinou existirem muitos valores culturais na nossa cidade portuária: Ciranda, Nau Catarineta, Lapinha, Pastoril, Coco de Roda, enfim, rico folclore e religiosidade pregada pelos sermões e catecismo do Padre Alfredo; tudo isso Fernando relembra como se estivesse ainda com isso convivendo. Nessa cidade, no meio da sua gente, dentro do povo se movimentando, dançando, cantando, o autor caminha como fosse uma câmara cinematográfica, recordando seus primeiros passos de criança, jovem e adulto, tendo sua vida como roteiro e escolhendo, com a ajuda da claquete, cenas bem encadeadas com lógica e arte. O autor nos induz à ideia de que o mito é como uma sereia negra, mas tem cauda prateada, numa adversativa que, sociologicamente, solta recriminações às discriminações sociais à pele brasileira. E continua que, também, a cidade, onde existem graças e desgraças, cantadas e recitadas pelos poetas, é abençoada pelos céus.

O ir e vir entre as cidades se fazia pelas estradas, pelo rio, pelo mar e até pelo ar, onde e quando Fernando também compreendeu as andanças da pobreza dentro desses transportes; do personagem “seu Marinho, homem solitário, que vivia em piores situações”. Tanto o apito do trem, como suas rodas nos trilhos, na sequência dos dormentes, estão simbolicamente presentes apresentando nas figuras dos passageiros, as injustiças sociais, enquanto consequências das violências materiais e simbólicas, existentes em qualquer cais, em qualquer porto. De tudo isso, observam-se grandezas, como o menino Leo admirando Dona Joaquina, “mulher forte e de coração brilhante que ajudava os que lhe estendiam a mão”. Percebe-se, na alma do escritor, usar outro nome e outros nomes para seus familiares e amigos, transferindo-se, ele próprio, às páginas do seu livro “Em Cabedelo, numa casquinha de noz”, em que escreve sua linguagem poética, como refletisse sentado na areia, à beira mar, deixando-se sujar pela areia e molhar-se pelas ondas: “O mar sereno é uma beleza ilusória; o tom maior de sua formosura são a força e a bravura que ele oculta”. Seu livro é uma bem construída obra, sobretudo, saliento, de e sobre si mesmo; mesmo considerando o verso de outro poeta com igual nome, Fernando Pessoa, in Cancioneiro: ” Dizem que finjo ou minto/ Tudo que escrevo./ Não./ Eu simplesmente sinto/ Com a imaginação./ Não uso o coração./ Tudo o que sonho ou passo,/ O que me falha ou finda,/ É como que um terraço/ Sobre outra coisa ainda./ Essa coisa é que é linda./ Por isso escrevo em meio/ Do que não está ao pé,/ Livre do meu enleio,/ Sério do que não é,/ Sentir, sinta quem lê! “.


Damião Ramos Cavalcanti

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