Depois de se destacar como romancista e memorialista, e vencidas todas as etapas todas da vida pública, José Américo voltou seu olhar para a Poesia. No livro Quarto minguante, único que publicou, ele olhou para a infância, o mar e a natureza, ao que chamou de “tesouro de recordações”.
Em Antes que me esqueça, livro de memórias, ele deu pista para entender seu modo de pensar como poeta, depois do sucesso como romanista.
“Notava-se meu ar distante. Se não houvesse noite, seria preciso inventá-la e, mesmo de olhos abertos, eu sonhava. Inventava meu mundo e convocava meus mitos. Fugindo do meu ambiente para montar outros quadros. Nesses momentos de fuga ia ao ponto de plantar minha paisagem e gerar outras vidas, por obra da imaginação. Cultivava essa linda mentira e sentia-me realizado. A fantasia que transfigurava as coisas construía meu universo. Demorava-me nessa atmosfera fictícia e meus sonhos tomavam corpo. A imagem estava sempre presente e eu brincava com essa ilusão. Só me concediam criar, como um direito meu. E assim me fiz romancista”.
No início do livro Quarto minguante, que veio a público quando José Américo estava com 86 anos, ele considerou que os poemas tinham chegado ao “apagar das luzes”.
Observando o conteúdo do livro, percebe-se que nos versos a lua cheia espalha seu esplendor enquanto o velho poeta contempla a nesga da nuvem sobre o mar de Tambaú.
O poeta José Américo optou pelos versos líricos, com a junção de ritmos e musicalidade, que se percebe na leitura compassada. Como define Emil Straiger (1908-1987) em Conceitos Fundamentais da Poesia, os caminhos dos versos líricos estão com assento na calma de uma vida de recolhimento ao silêncio. “A poesia lírica manifesta-se como arte da solidão, que em estado puro é receptada apenas por pessoas que interiorizam essa solidão”, afirma o escritor suíço.
No poema “A única voz” é possível perceber, com pouco esforço, o clima de isolamento do poeta sobre “o eu lírico e representa os últimos anos de vida do escritor”, como revelou a professora Neide Medeiros, nossa confreira:
Eu só aqui, mais ninguém,
Nas noites de solidão.
E, se chamar, ninguém vem
E, se falar, falo em vão.
Penso.
E a voz intrometida
Vem cortar meu pensamento
Não é ninguém, não é vida,
É um vagabundo – o vento
Ele tem medo da hora,
Da noite e sua feiura.
Pede socorro de fora,
Sopra pela fechadura.
José Américo estava solitário com a passagem da mulher que considerou, durante muitos anos, “o anjo da guarda”, como escreveu. Nesse estado de espírito, então, sentiu profunda necessidade de escrever, de revelar os momentos de recolhimento para produzir poesia.
Restava-lhe, a partir da ausência física de sua esposa, a paisagem acolhedora de seu jardim por ela cultivado com esmero. O mar à sua frente, a lua, o vento revelador, as lembranças do passado, sobretudo do tempo de criança quando viveu no engenho, tudo compondo suas lembranças. Essas paisagens levaram José Américo compor versos, mesmo que não tenham a dimensão de alta poesia.
Menino de engenho criado com regalias e cuidados materno, e sob o rigor do tio padre que o educou durante a infância, mesmo assim curtiu o verde dos canaviais, o frescor das manhãs e inesquecíveis pôr-do-sol do Brejo de Areia. Somente na velhice se dispôs compor versos para falar de sua saudade.
José Nunes.