Após largar a Toga a contragosto, por imposição da idade, Marcos Cavalcanti ganhou mais tempo para mergulhar nas pesquisas, com o mesmo ímpeto e alegria com que, na infância, mergulhava nas águas do Rio Mamanguape, desprovido de quaisquer vestes talares. A exemplo dos potiguaras, donos dos vales verdes que beiravam o Mamanguape e o Camaratuba, tomou o destino da Serra da Copaóba onde encontrou Iratembé, a potiguara virgem dos lábios de mel, a exemplo da tabajara Iracema, criação literária de José Alencar e que virou a origem lendária do povo cearense.
É na chapada da Serra da Copaóba, um dos contrafortes da Borborema, que se estabelecem os potiguaras advindos da Baía da Traição e, na época em que viveu Iratembé, a aldeia chefiada pelo Cacique Iniguaçú, seu pai. O cacique tinha muitos filhos homens, mas apenas uma linda filha “meiga, simpática, lábios largos, olhos repuxados, nariz afilado e rosto alegre”. Essa era Iratembé, cujo nome em tupi-guarani significa ira-mel/tembé-beiço, lábio. Iratembé- lábios de mel. Há quem diga que essa potiguara inspirou a filha dos tabajaras – Iracema, criação de Alencar, que em tupi-guarani tem o mesmo significado: lábios de mel.
É nesse cenário brejeiro que um dia aporta um mameluco conhecido por Justino e batizado pelos índios de Tibal. Vivia a negociar com os indígenas e a trocar suas mercadorias de branco pelo artesanato dos povos originários. Era oriundo das paragens de Pernambuco, muito conhecido desde Tracunhaém, Goiana e Olinda, populações já assentadas daquela Capitania e de Itamaracá, a que pertencia Copaóba. E lá estava ela! Onde se banhavam as jovens indígenas Justino avistou Iratembé que “não era apenas uma mulher, parecia a própria síntese da mata. Tinha a pele da cor do urucum maduro e olhos que guardavam o silencio das lagoas profundas” descreve o autor. Tal qual Iracema, quando “banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica mais fresca que o orvalho da noite…saiu do banho…como a doce mangaba que corou em manhã de chuva.. Diante dela e todo a contempla-la surgiu um guerreiro estranho…Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas profundas” descreve Alencar o encantamento do português Martim pela virgem dos tabajara. A potiguara Iratembé, na nossa história, ao encontrar o seu guerreiro, é tomada “pelo feitiço do momento” e leva o mameluco à cabana do seu pai. Era preciso o consentimento do chefe para que florescesse esse amor à primeira vista.
“O amor de vocês é como a semente da Sumaúma: quer voar, mas precisa de terra firme para crescer. Você pode ter Iratembé, mas não a levará para o mundo onde os homens cercam o chão e vendem o tempo. Se seu coração é dela, o seu corpo pertencerá a esta terra”, sentenciou o cacique Iniguaçú. O pretendente à mão da virgem, de pronto aceita a imposição e dá adeus à civilização dos brancos. Foi difícil para quem vivera na fronteira de dois mundos: “calçava botas de couro e lidava com gado, mas sabia ouvir o segredo dos pássaros e respeitava o silencio da mata e o conselho dos anciãos. O mameluco e a índia deram-se as mãos”. Morreu o mameluco, nasceu o marido.
Mas a vida pregressa do mameluco o deixava inquieto ao conviver com novos costumes. Bastou uma ausência prolongada, para a caça, do Cacique Iniguaçú, para o casal se despedir da Copaóba e partir em direção aos pagos já palmilhados pelo marido. Deixaram a taba, desafiaram a lei da selva e traíram a palavra empenhada com a tribo. A decisão foi do mameluco mas a índia obedeceu. Partiram em direção a Olinda. Quando mais longe do cacique, mais seguro deveria se sentir o traidor. Para Iratembé restaria a saudade da mata. O progresso que a encantara na Vila de Goiana agora era sentido como uma prisão em Olinda. O coro dos pássaros fora substituído pelo som dos sinos das igrejas. “As igrejas de Olinda eram belas, mas para Iratembé, elas eram montanhas de pedra morta. Seu espirito, capturado mas não domado, começava a trilhar o caminho de volta em seus sonhos, buscando a trilha invisível que a levaria de volta ao abraço verde de sua aldeia”.
Descoberta a traição e a fuga, o Cacique encarrega dois de seus filhos para partirem em busca de Iratembé e não regressarem sem trazê-la para o convívio dos seus irmãos. “Onde está Iratembé? Onde está a luz dos meus olhos?” Indagava o Iniguaçú. O longo trajeto da Serra da Copaóba até Olinda, passando pela Vila de Goiana, é narrada com detalhes. Os irmãos de Itarambé buscavam o mameluco menos por vingança e mais pelo resgate de um amor filial ferido. O cacique instruiu seus filhos: “as águas levam, mas as aguas também trazem! O mameluco conhece a mata, mas nós somos a mata!”. A Justiça tinha que ser feita e seus filhos não seguiriam pelas estradas, mas “seguiriam o faro da traição”.
Os irmãos Timbira e Japiaçú percorreram engenhos e senzalas, vilas e arruados perguntando pelo conhecido mameluco e sua companheira de viagem. Encontraram rastos de sua passagem na Vila de Goiana e partiram em direção a Olinda. Era o mesmo percurso dos mercadores do açúcar refinado que se produzia nos engenhos da região. “O destino agora tinha o nome de colina e cheiro de mar aberto”. Em Olinda, os irmãos conseguiram sensibilizar a autoridade do Capitão-mor e este deu ordem a Justino/Tibal que devolvesse a índia potiguara a seus familiares. Sem alternativa digna, o mameluco preferiu partir e, depois de atravessar o Velho Chico, perdeu-se para as bandas do sul.
Com a autoridade a seu favor, os irmãos tabajaras conseguiram reaver Itarambé. Mas as dificuldades deles não acabaram em Olinda. Desgraça maior foi procurarem refugio no Engenho Tracunhaém, do coronel Diogo Dias. Este, impressionado com a beleza da índia, resolveu apropriar-se dela, o que comunicou a seus irmãos que reagiram com palavras mas evitaram usar suas armas, uma vez que estavam em visível desvantagem perante a capangagem do engenho. Os irmãos voltaram de mãos vazias. Itarambé ficara prisioneira de Diogo Dias. A tragédia se avizinhava.
O Cacique Iniguaçú, diante do fracasso da missão dos filhos, preparou-se para a vingança. Agora, contra o Engenho de Diogo Dias. Reuniu várias tribos e até algumas tabajaras se juntaram. Cerca de dois mil indígenas partiram em direção a Tracunhaém. A estratégia do embate e os detalhes do massacre estão narrados com precisão e amparados nos escritos da época que o registraram como o Massacre de Tracunhaém ou Batalha de Tracunhaém onde cerca de seiscentos mortos, entre bancos, pretos e mestiços foram contados entre os quais o senhor do engenho e sua família. Das cinzas, o Cacique Iniguaçú resgatou a sua filha e voltou com ela nos braços para sua aldeia.
O massacre de Tracunhaém teve repercussão na sede da Coroa Portuguesa. Marcos Cavalcanti não resiste ao seu viés de historiador e conclui demonstrando que esse trágico evento terminou por resultar a fundação da Capitania da Parahyba. O livro é baseado em fatos históricos, mas aproveita lendas, superstições e costumes indígenas, enveredando por uma narrativa romanceada que agrada ao leitor de qualquer idade. Daí porque, entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato e o senhor Rei mandou dizer que quem quiser que conte quatro.
Boa leitura!
Severino RAMALHO LEITE
Da Academia Paraibana de Letras,
Instituto Histórico e Geográfico Paraibano
Associação Paraibana de Imprensa