Obra de Guimarães Rosa será matéria de curso do professor Milton Marques na APL

Obra de Guimarães Rosa será matéria de curso do professor Milton Marques na APL Para celebrar os 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, romance do escritor João Guimarães Rosa, o professor e membro da Academia Paraibana de Letras, Milton Marques Júnior, estará iniciando no próximo sábado (25/07), o curso “Uma Leitura de Grande Sertão: Veredas”, no auditório da APL, no horário das 09h até 12h. Após a aula inaugural, o ministrante divulgará o calendário das aulas seguintes, que acontecerão sempre aos sábados, pela manhã. O curso será gratuito para alunos e professores de toda a rede pública de ensino e, para os demais participantes, terá uma taxa de R$ 50,00. Ao final, será fornecido diploma de participação. O livro de Guimarães Rosa foi lançado no dia 16 de julho de 1956, logo se transformando em uma obra surpreendente da literatura brasileira. O romance revolucionou a prosa brasileira por sua linguagem inventiva, pela profundidade filosófica e pela forma como transforma o sertão em um espaço ao mesmo tempo geográfico e metafísico. O ministrante, Milton Marques, possui graduação em Licenciatura Plena em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1981); mestrado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1990); e doutorado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1995). Ele é aposentado da UFPB com experiência na área de Letras e em Literatura Brasileira, Portuguesa e Comparada. Ocupa a Cadeira n° 40 da Academia Paraibana de Letras. As inscrições podem ser realizadas presencialmente ou no link abaixo: https://forms.gle/TmrFdPZRcJ4vQ4yx6

Eudésia Vieira: uma vida dedicada ao próximo

Eudésia Vieira: uma vida dedicada ao próximo A medicina que pode curar o corpo do náufrago, é todavia,  impotente para lhe reparar as cicatrizes da alma, porque o náufrago é a síntese da desilusão, do desconforto, da dor incontida.  ( Eudésia Vieira. O torpedeamento do Afonso Pena)  Eudésia de Carvalho Vieira nasceu no povoado de Nossa Senhora do Livramento, município de Santa Rita (PB), no dia 08 de abril de 1894. Era filha de Pedro Celestino Vieira e de Rita Filomena de Carvalho Vieira. Desde pequena, revelou-se uma aluna exemplar. Fez o antigo curso primário na escola particular da professora Isabel Cavalcanti Monteiro, em João Pessoa. Prosseguiu seus estudos na mesma cidade. Em 15 de junho de 1911, diplomou-se professora pela Escola Normal, estava com dezessete anos. Como demonstrava facilidade para ler, declamar e escrever, foi escolhida oradora da turma. Iniciou as atividades de magistério dando aulas particulares na sua própria casa.  Filha de pais que pertenciam à Igreja Presbiteriana seguia a orientação religiosa da família. No relato autobiográfico A minha conversão, confessa que foi a primeira pessoa da família a se converter ao catolicismo, depois seus pais também se converteram. Nesse texto, ressalta a figura de Dom Ulrico Sonntag, um frade beneditino da origem alemã que morou cerca de oito anos em João Pessoa e desenvolveu trabalhos em favor das crianças e dos mais humildes. Admirado por católicos e protestantes, era conhecido como “O apóstolo da paz”.  A entrada para o magistério público se deu através de concurso e foi designada inicialmente para Serraria, cidade do brejo paraibano, depois se transferiu para Santa Rita e, posteriormente, para João Pessoa. Sua proposta pedagógica consistia em criar condições para que a criança pudesse “agir, trabalhar, experimentar, descobrir”.  Nesse ponto apresentava semelhanças com o poeta Augusto dos Anjos que também foi professor e descrito pelos alunos como “um mestre memorável”. A letra do hino da cidade  de Serraria é de  sua autoria  e o refrão é este:    Serraria, princesa do brejo,  Circundada de montes azuis,  Quer viver para sempre altaneira Sob o pálio bendito da luz.  Como professora, além de utilizar práticas inovadoras, preocupava-se com a qualidade do livro didático adotado nas escolas primárias do Estado da Paraíba. Com muito esforço e dedicação, conseguiu publicar dois livros que foram adotados nas escolas públicas: Pontos de História do Brasil e Terra dos Tabajaras. A respeito desses dois livros, o escritor e memorialista Joacil de Brito Pereira, aluno do Liceu Paraibano, assim se expressou:  Aprendi a amar a Paraíba estudando nos livros Pontos de História do Brasil e Terra dos Tabajaras, de autoria de Eudésia Vieira, os grandes feitos dos valorosos filhos que plasmaram a alma da pátria, lançaram os fundamentos da nacionalidade e forjaram a fibra do homem paraibano.   Eudésia Vieira escreveu para jornais e revistas de João Pessoa. Foi colaboradora do jornal da Festa das Neves, Nonevar, na sua segunda fase. (Nonevar era um jornalzinho que circulava durante a Festa de Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade de João Pessoa). O poeta Augusto dos Anjos foi colaborador assíduo desse jornalzinho na  primeira fase (1908-1910).  Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP), sendo a fundadora da cadeira No. 4. Escreveu artigos para a Revista do IHGP, alguns em defesa da emancipação feminina e em favor do voto da mulher.  Em 1917, casou-se com José Taciano da Fonseca Jardim. Dessa união de muitos anos, nasceram e se criaram cinco filhos: Tarcísio Mário Jardim, João Batista Jardim, Leôncio Mário Jardim, Marcília Celeste Fernandes e Maria do Brasil Jardim. Embora tenha tido quatorze gestações, apenas cinco filhos alcançaram a idade adulta. Maria do Brasil mora atualmente em Brasília, os outros filhos já faleceram.  Casada e professora reconhecida por sua prática pedagógica, resolveu fazer o curso de medicina em Recife. Naquela época, anos 1930, não havia curso de medicina na capital paraibana. Toda segunda-feira se deslocava para o Recife, só regressando para João Pessoa no fim de semana. Os filhos eram pequenos e ficaram sob o cuidado do marido que não aprovou a atitude da mulher e se queixava: “Deixar marido e filhos pequenos para estudar!” Mas Eudésia estava determinada a realizar seu grande sonho – ser médica – e viajou para o Recife até concluir o curso. Diplomou-se pela Faculdade de Medicina do Recife e defendeu tese de doutorado com o trabalho “Síndrome de Schiklelé”. Convém frisar que só o diploma já lhe garantia o direito de clinicar, mas ela quis ir mais além e defendeu tese. Além de professora, diplomada pela Escola Normal,  tornou-se médica e abriu um consultório na sua residência, situada na Rua Duque de Caxias, centro de João Pessoa.  Na nova profissão, destacou-se por um trabalho voltado para os mais pobres e para os discriminados pela sociedade.  Em 1940, foi designada pelo Governo do Estado da Paraíba para ser Coordenadora do Setor de Assistência Social da Penitenciária Modelo da cidade de João Pessoa. Atuando  na penitenciária, criou um grupo de alfabetização para os presos, inaugurou uma biblioteca (a primeira biblioteca a funcionar em presídio na Paraíba), uma oficina-escola com curso de marcenaria. Por seu espírito humanitário, era muito querida pelos detentos. Organizava saraus poéticos com os presos, declamava seus poemas e incentivava a leitura e a escrita entre os detentos.   Para revelar seu apreço por aqueles que recebiam pouca atenção da sociedade, escreveu o longo e bonito texto Poema do Sentenciado. Um pequeno excerto deste poema denota sua dedicação aos apenados: Olhai! É um nosso irmão aquele criminoso Que nos fita através dessas grades escuras… Sem alguém que lhe enxugue o pranto angustioso, Padece do remorso as mais vivas torturas.  […] Eudésia Vieira era também poeta e revelou tendências literárias desde muito cedo. Publicou livros de poesia, entre eles destacam-se: Cirrus e Nimbos, Cerne Contorcido. O livro Mistérios de Fátima é um misto de poesia e prosa.  Gostava de ler e valorizava muito os livros.  No poema Meus filhos, duas estrofes comprovam seu amor aos livros:  O livro fez-me heroína  Nos momentos mais sombrios.  Dá-me

O padre e a borboleta

O padre e a borboleta Certa vez, quando concelebrava missa com um padre, justamente no dia em que tinha como texto para reflexão o Sermão da Montanha. De repente uma borboleta amarela pousou no alto da cruz de madeira posta ao lado do altar, executou sua típica coreografia. Depois de algum tempo, saiu borboleteando pela nave da igreja, encontrou janela aberta e foi embora. Todos, calados, contemplaram a visitante. Terminada a leitura da passagem bíblica, o padre ficou silencioso. Não comentou a passagem das boas aventuranças. Apenas disse: “Reflitam sobre a cena que acabamos de presenciar”. Prosseguiu com o rito da celebração. O sermão dele se resumiu na contemplação à borboleta. O bailado de borboletas me deslumbrou. Uma fascinação alimentada pelas lembranças de quando perambulava pelas capoeiras de Tapuio, sítio onde nasci, em Serraria. Encontrava borboletas e quando as pegava, colocando-as na palma da mão, observava içar voo. Somente agora me dou conta do deslumbramento desses momentos profundamente poético e humano.          As borboletas se comunicam sem usar palavras. Geram em nós uma mensagem de liberdade e paz. Como viver no silêncio? Penso até que trazem mensagens de deuses até nós e protagonizam lances que nos levam à reflexão sobre o modo de viver.          No jardim em nossa casa, na primavera do ano passado, apareceu um pequeno grupo de borboletas, entre as quais uma amarela que bailava lentamente. Em suas asas, as borboletas trazem energias cósmicas. As borboletas do meu jardim trouxeram lembranças de quando morava no sítio. Na década de 1960, depois de minhas obrigações de agricultor, zanzava a esmo pelas capoeiras. Quando encontrava borboletas com infindáveis bailados, as observava em seus voos, até perderem-se no mato, quando nãos as pegavas.          A Primavera chegou com suas borboletas. Espero que apapariquem as flores de nosso jardim. Balancem as asinhas em volta da roseira para aspergir o local com perfume; depois, silenciosas, sigam para outros lugares e retornem no entardecer.          No alvorecer da vida contemplava-as como agricultor solitário, agora, no crepúsculo, as borboletas trazem recordações. É quando percebo que elas nunca se afastaram de mim.          As borboletas tão asas à imaginação, contribuem para que poetas e escritores produzem textos e poesias de beleza estética. Escritores como Roseana Murray, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles, somente paras citar estes, fizeram poemas tendo como tema borboletas. O compositor João de Barros cantou:          Voa, pois a vida é tão boa.          Quando se tem Um amor no coração.         O japonês Akira Kurosawa, no bonito e emocionante filme Sonhos, utilizou paisagens cobertas por revoadas de borboletas que parecem povoar o mundo, com mensagem do Cosmos.          Rubens Braga registrou sua perseguição à caça de uma borboleta amarela pelas ruas do Rio de Janeiro. A sua narrativa, tantas décadas depois, emociona.          Espero que na Primavera outras borboletas visitem a roseira da minha casa e façam lembrar do tempo quando era agricultor em Serraria, e nunca esquecer da borboleta que nos visitou durante a missa. José Nunes.