Eudésia Vieira: uma vida dedicada ao próximo

A medicina que pode curar o corpo do náufrago, é todavia,  impotente para lhe reparar as cicatrizes da alma, porque o náufrago é a síntese da desilusão, do desconforto, da dor incontida. 

( Eudésia Vieira. O torpedeamento do Afonso Pena) 

Eudésia de Carvalho Vieira nasceu no povoado de Nossa Senhora do Livramento, município de Santa Rita (PB), no dia 08 de abril de 1894. Era filha de Pedro Celestino Vieira e de Rita Filomena de Carvalho Vieira. Desde pequena, revelou-se uma aluna exemplar. Fez o antigo curso primário na escola particular da professora Isabel Cavalcanti Monteiro, em João Pessoa. Prosseguiu seus estudos na mesma cidade. Em 15 de junho de 1911, diplomou-se professora pela Escola Normal, estava com dezessete anos. Como demonstrava facilidade para ler, declamar e escrever, foi escolhida oradora da turma. Iniciou as atividades de magistério dando aulas particulares na sua própria casa. 

Filha de pais que pertenciam à Igreja Presbiteriana seguia a orientação religiosa da família. No relato autobiográfico A minha conversão, confessa que foi a primeira pessoa da família a se converter ao catolicismo, depois seus pais também se converteram. Nesse texto, ressalta a figura de Dom Ulrico Sonntag, um frade beneditino da origem alemã que morou cerca de oito anos em João Pessoa e desenvolveu trabalhos em favor das crianças e dos mais humildes. Admirado por católicos e protestantes, era conhecido como “O apóstolo da paz”. 

A entrada para o magistério público se deu através de concurso e foi designada inicialmente para Serraria, cidade do brejo paraibano, depois se transferiu para Santa Rita e, posteriormente, para João Pessoa. Sua proposta pedagógica consistia em criar condições para que a criança pudesse “agir, trabalhar, experimentar, descobrir”.  Nesse ponto apresentava semelhanças com o poeta Augusto dos Anjos que também foi professor e descrito pelos alunos como “um mestre memorável”. A letra do hino da cidade  de Serraria é de  sua autoria  e o refrão é este: 

 

Serraria, princesa do brejo, 

Circundada de montes azuis, 

Quer viver para sempre altaneira

Sob o pálio bendito da luz. 

Como professora, além de utilizar práticas inovadoras, preocupava-se com a qualidade do livro didático adotado nas escolas primárias do Estado da Paraíba. Com muito esforço e dedicação, conseguiu publicar dois livros que foram adotados nas escolas públicas: Pontos de História do Brasil e Terra dos Tabajaras. A respeito desses dois livros, o escritor e memorialista Joacil de Brito Pereira, aluno do Liceu Paraibano, assim se expressou: 

Aprendi a amar a Paraíba estudando nos livros Pontos de História do Brasil e Terra dos Tabajaras, de autoria de Eudésia Vieira, os grandes feitos dos valorosos filhos que plasmaram a alma da pátria, lançaram os fundamentos da nacionalidade e forjaram a fibra do homem paraibano.

 

Eudésia Vieira escreveu para jornais e revistas de João Pessoa. Foi colaboradora do jornal da Festa das Neves, Nonevar, na sua segunda fase. (Nonevar era um jornalzinho que circulava durante a Festa de Nossa Senhora das Neves, padroeira da cidade de João Pessoa). O poeta Augusto dos Anjos foi colaborador assíduo desse jornalzinho na  primeira fase (1908-1910). 

Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP), sendo a fundadora da cadeira No. 4. Escreveu artigos para a Revista do IHGP, alguns em defesa da emancipação feminina e em favor do voto da mulher. 

Em 1917, casou-se com José Taciano da Fonseca Jardim. Dessa união de muitos anos, nasceram e se criaram cinco filhos: Tarcísio Mário Jardim, João Batista Jardim, Leôncio Mário Jardim, Marcília Celeste Fernandes e Maria do Brasil Jardim. Embora tenha tido quatorze gestações, apenas cinco filhos alcançaram a idade adulta. Maria do Brasil mora atualmente em Brasília, os outros filhos já faleceram. 

Casada e professora reconhecida por sua prática pedagógica, resolveu fazer o curso de medicina em Recife. Naquela época, anos 1930, não havia curso de medicina na capital paraibana. Toda segunda-feira se deslocava para o Recife, só regressando para João Pessoa no fim de semana. Os filhos eram pequenos e ficaram sob o cuidado do marido que não aprovou a atitude da mulher e se queixava: “Deixar marido e filhos pequenos para estudar!” Mas Eudésia estava determinada a realizar seu grande sonho – ser médica – e viajou para o Recife até concluir o curso. Diplomou-se pela Faculdade de Medicina do Recife e defendeu tese de doutorado com o trabalho “Síndrome de Schiklelé”. Convém frisar que só o diploma já lhe garantia o direito de clinicar, mas ela quis ir mais além e defendeu tese. Além de professora, diplomada pela Escola Normal,  tornou-se médica e abriu um consultório na sua residência, situada na Rua Duque de Caxias, centro de João Pessoa. 

Na nova profissão, destacou-se por um trabalho voltado para os mais pobres e para os discriminados pela sociedade.  Em 1940, foi designada pelo Governo do Estado da Paraíba para ser Coordenadora do Setor de Assistência Social da Penitenciária Modelo da cidade de João Pessoa. Atuando  na penitenciária, criou um grupo de alfabetização para os presos, inaugurou uma biblioteca (a primeira biblioteca a funcionar em presídio na Paraíba), uma oficina-escola com curso de marcenaria. Por seu espírito humanitário, era muito querida pelos detentos. Organizava saraus poéticos com os presos, declamava seus poemas e incentivava a leitura e a escrita entre os detentos.   Para revelar seu apreço por aqueles que recebiam pouca atenção da sociedade, escreveu o longo e bonito texto Poema do Sentenciado. Um pequeno excerto deste poema denota sua dedicação aos apenados:

Olhai! É um nosso irmão aquele criminoso

Que nos fita através dessas grades escuras…

Sem alguém que lhe enxugue o pranto angustioso,

Padece do remorso as mais vivas torturas. 

[…]

Eudésia Vieira era também poeta e revelou tendências literárias desde muito cedo. Publicou livros de poesia, entre eles destacam-se: Cirrus e Nimbos, Cerne Contorcido. O livro Mistérios de Fátima é um misto de poesia e prosa.  Gostava de ler e valorizava muito os livros.  No poema Meus filhos, duas estrofes comprovam seu amor aos livros: 

O livro fez-me heroína 

Nos momentos mais sombrios. 

Dá-me luz, amor e vida 

Enche os espaços vazios. 

[…] 

Na alegria ou na tristeza

O livro é minha cobiça 

Dormindo, ele me está perto:

Acordada, me enfeitiça.

 

Na tarde de 26 de fevereiro de 1943, período da 2ª. Guerra Mundial, fez uma viagem ao Rio de Janeiro, partindo do porto de Recife. A viagem transcorria normal até a Bahia. No dia 2 de março, quando o navio se aproximava do arquipélago dos Abrolhos, a duzentas milhas da costa, ouviu-se um “estrondo seco, forte e violento”. O navio fora torpedeado por um submarino italiano. Muitas pessoas morreram. A médica sofreu graves ferimentos na cabeça, implorou socorro e foi atendida. Sobre esse fato, ela escreveu o livro O torpedeamento do navio Afonso Pena. Duas cenas são descritas nesse relato de teor memorialista que deixou profundas lembranças: a do cabo Fausto que pedia a um médico para cortar a sua perna porque não estava aguentando as dores e a de uma senhora que foi salva, ela sentia um grande peso na perna como se tivesse sido abocanhada por um peixe. Ao subir para a embarcação, viu que era uma criança de cerca de cinco anos que não largava a perna que a protegia. A mulher e a criança se salvaram. O veio poético de Eudésia Vieira se revela, mais uma vez,  nas palavras finais desse texto em prosa: 

A medicina que  pode curar o corpo do náufrago, é, todavia, impotente para lhe reparar as cicatrizes da alma, porque o náufrago é a síntese da desilusão, do desconforto, da dor incontida. 

Sobrevivente desse naufrágio viveu ainda alguns anos, voltou a clinicar e faleceu em João Pessoa, no dia 16 de julho de 1981, foi sepultada no cemitério Nossa Senhora da Boa Sentença. Na lápide de seu túmulo se encontra essa inscrição poética: 

A vida me foi severa 

Desilusão que floresceu 

Sob o sacrifício supremo do meu sorriso.

Eudésia Vieira teve uma vida de múltiplas atividades, foi professora, médica, historiadora, jornalista, poeta e memorialista. Em 18 de novembro de 1974, recebeu o título de Cidadã Benemérita da Paraíba, um reconhecimento por seu trabalho incansável em prol dos mais humildes. 

Escrevi o roteiro para o livro Eudésia Vieira em quadrinhos, com ilustrações de Megaron Xavier (João Pessoa: Editora Patmos, 2017).  Este livro integra a coleção Primeira Leitura e se destina aos alunos do ensino fundamental. Procurei apresentar de modo simples e com linguagem acessível para crianças e adolescentes passagens da vida da professora e médica que não mediu esforços para atingir seus ideais. 

 Em 2019, a família de Eudésia Vieira compareceu ao Senado Federal para receber a Medalha Bertha Lutz como reconhecimento por sua luta em favor das mulheres, dos mais humildes e por seus trabalhos prestados à comunidade paraibana. É uma figura feminina de grande importância na área da educação e da medicina na Paraíba. 

 

Fonte de pesquisa: 

COUTINHO, Ana Maria e SANTOS, Evanice. Eudésia Vieira: rompendo o silêncio. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2008.

SANTOS, Neide Medeiros. Eudésia Vieira em quadrinhos. Ilustrações de Megaron Xavier. João Pessoa: Patmos Editora, 2017.