2º Sucessor: Carlos Antônio Aranha de Macêdo (1946-2024)
Ocupação: Compositor e escritor
Eleito: 07/12/2008
Posse: 02/03/2009
Saudação: Antônio Juarez Farias
CARLOS ANTÔNIO ARANHA DE MACÊDO: Nasceu na cidade de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, em 18 de março de 1946, e faleceu nesta mesma cidade, no dia 11 de novembro de 2024. Era filho de Sebastião Ferreira de Macedo e de Antonieta Aranha de Macedo. Foi casado com a professora universitária Cléa de Macedo, união da qual nasceu a filha Alessandra, atuante na área de Nutrição.
Espírito indomável e multiartista de vanguarda, iniciou os cursos superiores de Psicologia e de Direito na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), mas optou por não os concluir, encontrando sua verdadeira formação na vivência prática das artes e na intensa militância cultural que o consagraram como uma das maiores referências intelectuais de seu estado. Durante os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, atuou nos movimentos estudantis de contestação ao regime autoritário e, devido à perseguição política, foi compelido a viver na clandestinidade. Na maturidade, presidiu a Associação Paraibana de Imprensa (API) — gestão na qual coordenou localmente o histórico Movimento das Diretas Já — e exerceu o papel de editor de cultura em influentes periódicos, como O Momento, O Norte, Correio da Paraíba (onde também integrou o Conselho Editorial) e o oficial A União, veículo no qual esteve à frente do renomado suplemento Caderno das Artes.
Nas artes cênicas, destacou-se como ator e encenador de raro tirocínio. Conquistou o prêmio de Melhor Espetáculo na Semana de Teatro da Paraíba de 1967 ao dirigir a peça Despertar do Medo, de Marcos Tavares, e o de Melhor Direção no ano seguinte, com a montagem de Diário de um Louco, do autor russo Nikolai Gógol. Ainda em 1968, fundou o vanguardista Grupo de Teatro Bigorna, em histórica parceria com Fernando Teixeira e Jurandir Moura. No cinema, imprimiu sua marca autoral ao dirigir o curta-metragem de ficção Libertação e integrou os quadros da Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba e da Academia Paraibana de Cinema.
Na cena musical, Carlos Aranha assumiu uma posição de pioneirismo ao figurar como um dos articuladores da Tropicália na Paraíba. Ao lado do cantor potiguar Gustavo Magno, compôs e lançou o icônico disco Sociedade dos Poetas Putos (em alusão ao filme de Peter Weir), que imortalizou canções como “Voltaire, Voltarei”, “Barcelona, Borborema” (baseada na obra de José Nêumanne Pinto) e “Versos Íntimos” (releitura do célebre poema de Augusto dos Anjos). À frente das produtoras Safira e Jaguaribe Produções, impulsionou a carreira de grandes nomes da música nordestina. Foi também um dos subscritores do histórico manifesto Inventário do Feudalismo Cultural Nordestino, dividindo a autoria com intelectuais e artistas do porte de Jomard Muniz de Britto, Marcus Vinícius de Andrade, Raul Córdula, Dailor Varela, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Sua trajetória nos festivais de música da década de 1960 é lendária por sua irreverência e ousadia performática. No II Festival Paraibano de MPB (1968), conquistou o segundo lugar sob intensas vaias do público — que exigia sua vitória — ao defender as canções “Canção do Ter” (de José Nêumanne Pinto) e “Giramulher” (parceria com seu irmão, o pianista Fernando Aranha), esta última executada ao lado do grupo Os Quatro Loucos, que contava com Zé Ramalho, Golinha e Floriano Miranda introduzindo o som inovador das guitarras elétricas no festival. No ano seguinte, protagonizou a performance mais emblemática da história do evento ao cantar “Ivone Pelo Telefone” trajando um bustiê roxo, calça de veludo verde, colar hippie e maquiagem com batom, atitude contestadora que chocou o corpo de jurados e o posicionou em décimo lugar. Em 1970, obteve a quarta colocação no IV Festival com “Objeto de Utilidade Pública” e, em 1971, no Festival Campinense da Canção, arrebatou os prêmios de Melhor Letra por “Caminheiro” (com Gilvan de Brito) e Melhor Intérprete por “Por Qualquer Cem Mil Réis” (com Cleodato Porto).
Escritor de pena visceral e rigoroso com a própria produção, produziu cerca de dez livros de variados gêneros, mas optou por publicar em vida uma única e densa obra: Nós – An Insight, lançada em 2011. O volume, concebido como um diálogo expressionista e uma extensão poética do universo de Augusto dos Anjos, une a linguagem clássica à moderna para traçar uma viagem mística e crítica pelos sobreviventes dos anos 1960 em pleno século XXI, tencionando temas como a repressão política, a afetividade sexual, o amor por João Pessoa e homenagens a amigos fraternos, como Cátia de França e José Nêumanne Pinto.
Em reconhecimento ao seu inestimável protagonismo e à sua disruptiva contribuição às artes paraibanas, foi eleito membro efetivo da Academia Paraibana de Letras (APL). Sua posse solene ocorreu no ano de 2009, nos palcos do histórico Teatro Santa Roza, em João Pessoa, ocasião em que o jornalista e confrade José Nêumanne Pinto celebrou sua trajetória ao declarar que Carlos Aranha era o intelectual que mais havia contribuído para a cultura paraibana e que, ao ingressar no sodalício, passava finalmente a ocupar o lugar que lhe era devidamente de direito.