As rosas no chão
As rosas no chão Causou-me tristeza. Na calçadinha do Dede, um buquê de rosas estava no chão. Como estivesse ainda embrulhado, e numa esquina, veio-me logo um pensamento sinistro. Seria catimbó, trabalho de amante que queria “amarrar” alguém? Era improvável; fosse catimbó e as rosas estariam acompanhadas de outros apetrechos: galinha preta, garrafa de cachaça, velas… Vieram-me, então, à cabeça, algumas outras hipóteses. Que amante desalmado teria desprezado tal gesto de carinho e colocado aquelas rosas ali? Sim, porque elas foram colocadas; não foram jogadas. A natureza humana… As rosas eram rubras, em número de cinco; rosas rubras indicam paixão e o número ideal – diz a boa etiqueta do envio de rosas – é ímpar, para que o par seja completado com a pessoa que recebe as rosas. Comecei a imaginar: Seria um amante mais velho que teria mandado para a amada, uma menina bem mais jovem? Ou uma mulher mais velha que estava apaixonada por um garotão bem mais novo? Quem sabe aquelas rosas tivessem sido mandadas por alguém cuja paixão não fora correspondida. Ou seria um casal que estava brigado; um deles teria mandado, e o outro, por pirraça, tivesse jogado no chão? Acontece que as rosas não estavam jogadas; foram colocadas, adrede, junto a uma árvore. Uma coisa é certa: quem recebeu não estava apaixonado. Se estivesse, guardaria, com todo o carinho, aquela relíquia, num jarro; colocaria um pouco de água para que elas durassem mais. Tento esquecer as rosas e continuar a caminhada. Vou até uma casa próxima, para comprar o leite “in natura”, na casa de uma senhora muito simpática. Deu-me, porém, vontade de voltar e espiar, novamente, as rosas. Não me conformo: aquelas rosas falam (ou querem falar) alguma coisa. E não mais exalam o perfume que “roubaram” de alguém. Melhor esquecer. Volto para casa e sinto o aroma gostoso do café, feito, com muito carinho, pela minha esposa. Quando termino o café é que percebo: a toalha da mesa é decorada com rosas. E vermelhas. (Crônica do meu livro “O Estranho Professor de Violão” – Ideia, 2022 – publicada, originariamente, no Correio da Paraíba, em 1 de março de 2009). João Trindade.
As cigarras de Jaguaribe
As cigarras de Jaguaribe Nunca mais passarei ali, por detrás da Escola Técnica, próximo à Cagepa. A melancolia não me permite aceitar a ausência do canto das cigarras, que grassava, na década de 70. Que saudade delas, e… ai como era bom! Como era bom passar, logo cedo, bolsa a tiracolo, para o Estadual de Jaguaribe. Jaguaribe… esse nome tem todo um significado para mim. Foi lá que tudo começou… Jaguaribe é metonímia do meu grande amor por João Pessoa. Ah, “célebres” tardes de férias (quando ainda morava em Patos) na casa de “seu” Paulo Jerônimo. Companhias de Paulino, Pedro, Geraldo, Antônio, (esses, irmãos), Luís Carlos… Um pouco mais à frente, eu já morando aqui, Tiririca, Sérgio, Ricardo, Wálter, Manguito, Lincoln, Soutinho, Plínio e tantos outros… No colégio, Geraldo Gomes, Geraldo Pantera (grande enxadrista), Walberto (fanático torcedor do Botafogo do Rio), Wálter Galvão, Wálter Licínio… Tardes de times de botão; tardes em que conheci abacate. Tardes em que sonhei, fui artista, ao lado dos colegas, a quem mostrava minhas músicas, com as quais chorava meus pseudograndes amores. E as cigarras me acompanhavam, no bom dia, todas as manhãs; desde a Escola até o Estadual, numa sinfonia perfeita: – Zszszszszszszszszszszszszs… Onde estão todos agora? Onde está dona Judith, “carrasca”, professora de Matemática? Onde está dona Bernadete, a mulher da vaca mecânica, da sopa com pão, que todos abominavam (a sopa), mas era minha salvação? Não importavam as lagartas que, às vezes, apareciam no arroz. Lá estava eu, novamente, na fila; aquilo era minha grande alimentação. Onde estão todos, agora? Alguns desses, mas poucos, “dormindo profundamente”. Mas por que os ainda vivos não se encontram mais? Luís Carlos me pergunta: – João, cadê Toinho? Por que a gente jamais se encontra, mesmo morando na mesma cidade? Só a vida, essa correria, o “progresso” que levou minhas cigarras podem responder. Ao escrever esta crônica, fico pensando: interessam ao leitor essas minhas reminiscências? Creio que sim. O leitor, certamente, teve uma infância; povoada, ou não, de cigarras. (Crônica do meu livro “O Estranho Professor de Violão” – Ideia, 2022. Publicada, originalmente, no jornal O Norte, em 22 de julho de 2000). João Trindade.
Academia, Mário Hélio, Augusto e telurismo
Academia, Mário Hélio, Augusto e telurismo Da esquerda para a direita: vereador David Matias, presidente da Câmara Municipal; João Trindade, Acadêmico representante da APL; jornalista Giovanni Meireles e Genival Júnior, assessor especial do gabinete do prefeito Sidney de Paiva O homem verdadeiro é telúrico! O amor à terra natal é próprio dos grandes, porque amar a terra em que nasceu é o fundamento da lembrança dos pais, da própria origem e da formação da personalidade; ainda que o desenrolar do restante da vida e do desenvolvimento dela se dê noutro lugar. Prova desse telurismo exemplar foi dado agora pelo mais recente membro da Academia Paraibana de Letras – eleito por unanimidade de votos – o renomado escritor, jornalista e editor Mário Hélio, que, embora milite, profissionalmente, em Pernambuco, sendo, inclusive membro da Academia Pernambucana de Letras, nunca esqueceu – e nem deixou – a Paraíba, uma vez que tem, também, domicílio em João Pessoa, e faz questão de divulgar nossos valores nas revistas Pernambuco e Continente, que edita; sendo que não é apenas editor: é superintendente de periódicos e projetos especiais. Nascido em Sapé, “a terra de Augusto dos Anjos”, fez pedido veemente à Academia para que na posse dele, dia 31 de julho, a Instituição viabilizasse uma representação marcante da cidade onde nasceu. Desse pedido enfático, surgiu, então, a ideia de se fazer um convênio entre a Academia Paraibana de Letras e a Prefeitura Municipal de Sapé, para trazer a Banda Marcial da cidade (na modalidade sinfônica) que executará, além do Hino Nacional, músicas do forró legítimo, com arranjos clássicos; sem perder, evidentemente, a característica do ritmo popular, como tão bem é feito, ultimamente, pelas bandas marciais. Fui designado pelo vice-presidente Sales Gaudêncio (que recepcionará o recém-eleito na posse), evidentemente com a anuência do presidente Ramalho Leite, para representar, oficialmente, a Instituição, ao lado do membro da diretoria executiva José Nunes. Toda essa logística foi intermediada pelo grande homem de mídia e renomado jornalista – com quem já tive a honra de atuar na Rádio CBN João Pessoa – Giovanni Meireles: homem de fino trato, comunicador por vocação, verdadeiro gentleman, que tem um dos blogs mais respeitados e acessados da Paraíba. Após o almoço, visitamos as dependências da hoje inativa Usina Santa Helena, que foi outrora o engenho Pau D’arco onde nasceu o poeta do EU, tão cantado e decantado nos poemas dele e – claro! – visitamos o famoso tamarindo do poema, que, infelizmente, está na iminência de morrer. Dá pena o estado da centenária árvore! Em volta do tronco e corroendo as raízes, há formigueiros e outros insetos e enormes buracos, sinais da presença de animais silvestres. Acharam pouco e ainda cometeram a insânia de, para tentar segurar a árvore, colocar cimento numa grande fenda que há no centro do próprio tronco. Meu sentimento foi de revolta, indignação e surpresa. João Trindade.
A coruja
A coruja No flamboyant de um dos meus vizinhos, vive uma coruja. Alterna a moradia entre aquela árvore e o telhado da minha casa. Muitas vezes, de madrugada, eu e minha esposa paramos para ouvir o cantar melancólico dela ou o riso estridente e um tanto quanto soturno. Mete medo. Mas nunca fez a “rasga mortalha”. Se o fizer, vou embora da casa, porque acredito, piamente, na tradição: Se uma “rasga mortalha” sobrevoa a casa é porque alguém ali vai morrer. Semana passada, estávamos, à noite, eu, minha esposa e meu filho mais novo (o mais velho mora em Brasília), escutando boa música, na mesa da sala, quando um pássaro grande dá um rasante na cabeça de minha mulher, assustando-a. Seria um gavião? (os gaviões rondam minha casa, à espreita dos inúmeros pássaros que, frequentemente, visitam nosso quintal). Passado o susto, resolvemos ver onde estava o pássaro e de que espécie era. Era uma coruja. Entrara no quarto do meu filho e se alojara – vejam que interessante! – justamente em cima de uma estante. Pousara num dos volumes daquele móvel. Pois é; cena inigualável, antológica: uma coruja – ela, conhecida como o símbolo da sabedoria – pousada justamente onde? Numa estante. E na casa de um professor. Fiquei regozijado; afinal, era a natureza reconhecendo meu talento. Não resistimos. Meu filho tirou, com o celular, a foto da bichinha; linda, os olhos fixos nos nossos, como se a perguntar: “O que vão fazer comigo?” Agora, a angústia. O que fazer com ela? Sugeri criarmos, mas minha esposa disse que não aceitaria que bicho livre ficasse preso dentro da nossa casa; ademais, havia os óbices legais. E agora? Ela muda de lugar e vai se fixar em cima de um móvel, agora já na sala em que estávamos. Estava mais próximo da origem, já que entrara por uma janela da sala principal. Apagamos todas as luzes e, dali a poucos instantes, ela vai embora pela janela, deixando uma imensa saudade. Mas há a foto para lembrarmos. Enfim, o celular serviu para uma aventura sentimental. (Crônica do meu livro de crônicas “O Estranho Professor de Violão”, editora Ideia, 2022. Publicada, originalmente, no Correio da Paraíba, em 17 de abril de 2011).
Regras e língua portuguesa
REGRAS E LÍNGUA PORTUGUESA Ao contrário do que muitos pensam, não se aprende Português decorando regras. A regra é, apenas, um ponto de partida; não é o fundamento da língua. Aliás, não se deve esquecer que a língua não é só gramática; existem outros elementos fundamentais; sobretudo, a semântica. Para exemplificar o que estamos afirmando, observemos o seguinte exemplo: O pai doou um rim ao filho. Na frase citada, temos o verbo doar como transitivo direto e indireto. Já na frase: “Operário doa rim, em João Pessoa”, o mesmo verbo já é transitivo direto, sendo João Pessoa (expressão de lugar) adjunto adverbial. Outro exemplo: A turma da “decoreba” elegeu como verbos de ligação: ser, estar, parecer… Pura bobagem. Observe: O homem está triste (o verbo da frase é de ligação). O homem está na praia (o verbo da frase é intransitivo, sendo “na praia” adjunto adverbial de lugar). Outra perda de tempo é querer aprender ortografia por meio de regras; ortografia se aprende lendo, escrevendo e consultando dicionários. Vamos a um exemplo que reforça nosso argumento: Sobre o uso da letra X, a “regra” diz: Usa-se o X: – Em geral, depois de ditongo: Faixa, ameixa. EXCEÇÃO: a palavra caucho e derivados: Recauchutar; recauchutagem. – Em geral, depois da sílaba inicial EN Ex.: Enxame; enxó; enxurrada; enxugar. EXCEÇÕES: Encharcar (de charco); encher, enchente (de cheio); enchumaçar (de chumaço); enchova (nome de um peixe). Adianta, então, “decorar” “regras” de ortografia? Outro elemento da língua para o qual a regra não é infalível é a pontuação. Os sinais de pontuação (sobretudo vírgula e ponto e vírgula) não são apenas gramaticais, mas, principalmente, sinais de harmonia, em que a semântica é fundamental. Observe o leitor este exemplo, extraído de jornal: “Segundo o presidente, no ano de 2023, o clube registrou seu nome na história (…)”. As vírgulas isolando o adjunto adverbial “no ano de 2023” estão gramaticalmente corretas, já que a gramática normativa diz que os adjuntos adverbiais deslocados devem ser isolados por vírgula. Só que, no caso, dever-se-ia sacrificar a gramática, tirando-se a segunda vírgula (após 2023), para se obter a clareza do texto. Embora escrito, do ponto de vista gramatical, corretamente, o texto está dando uma ideia diferente da que o redator quis. O que o redator quis dizer é que o clube registrou seu nome na história, no ano de 2023, segundo afirmou o presidente. Da maneira como foi redigido, o texto está, graças às vírgulas (“exigidas” pela gramática), dizendo que o presidente exerceu o cargo no ano de 2023. Não se aprende Português decorando regras; e saber regras de cor não é saber Português.