Sessão Solene de Homenagem ao escritor e acadêmico Ivan Bichara Sobreira

O Conselho Diretor e os sócios efetivos da APL convidam V. Exa. E família para a Sessão Solene de Homenagem ao escritor e acadêmico Ivan Bichara Sobreira pelo transcurso do centenário de seu nascimento. Na oportunidade, será preferido discurso (in memoriam) pelo acadêmico Hildeberto Barbosa Filho e, em nome da família, agradecerá as reverências da APL ao seu imortal acadêmico, Anna Maria Monteiro Bichara, neta do homenageado.

Um Rômulo sem Remo

Há sete dias, falam as entrevistas, reconfirmam as notícias e dizem as crônicas que “a Paraíba perdeu um grande homem”. Logo se conclui que não se referem à sua estatura física; compreende-se que a grandeza referida não é a do corpo, mas, da alma, do seu espírito de generosidade, de uma afabilidade que não cabia no seu corpo. Agora, Rômulo, livre dessa dimensão corpórea, é espírito leve, homem lépido, muito mais ligeiro do que um cometa; mais rápido do que o pensamento que conceitua e que conduz à bondade. E se assim ele caminhava, agora voa, num céu sem defeitos, sem motivos para deixar de ser bom. O Governador Ricardo Coutinho, desejando enaltecer a sua obra, no Eixo das Nações, e querendo homenagear o seu então companheiro de governo, chamará essa “maior obra rodoviária em Campina Grande”, de Deputado Rômulo Gouveia. A exemplo do cardeal Roncalli e posteriormente do Papa João XXIII, chamado pelos italianos de il Papa buono, nem a bariátrica transformou, em Rômulo, sua natureza “agapetônica”, continuando tal caráter de bonachão, que, na sua simplicidade, superava possíveis desavenças, rancores ou aversões. Sobrelevava facilmente os defeitos ditados pelo errare humanum est, provérbio cantado por Jorge Ben Jor, para sorrir e abraçar aqueles que poderiam ser considerados eventuais sujeitos ou objetos da desafeição. Não obstante nossas diferenças políticas e ideológicas, quando a minha inesquecível mãe faleceu, estando ele em Brasília, Rômulo subiu à tribuna e, do alto daquele parlamento, esclareceu que as boas qualidades em mim, em meus irmãos e em minhas irmãs, foram moldadas pela nossa bondosa mãe; pronunciamento que ele fez registrar em Ata e enviá-lo ao seu grato amigo. Seu afável comportamento ou suas atenciosas atitudes serão sempre lembradas por aqueles que exercitam a virtude da gratidão. Parodiando a mitologia dos irmãos Rômulo e Remo, dos fundadores de Roma, por onde passou Rômulo de Campina Grande e aonde caminhou, poucos lhe foram Remo, contudo o batalhador Rômulo criou e construiu. E sem ser amamentada pela Loba Capitolina, sua existência nos leciona que a bondade tudo corrige, tudo limpa, e, quando apenas lava, na ressurreição, ela purifica. Damião Ramos Cavalcanti

Ivan Bichara Sobreira

O “Antes que me esqueça”, de José Américo, serve a quem não quer perder a memória dos seus valiosos acontecimentos, fatos, ocorrências ou preciosas circunstâncias da vida e dos vultos e das pessoas ilustres que conviveram conosco ou que fazem parte da nossa remota ou da mais recente história. É a caminhada de quem disse, poeticamente, o dever cumprido, em Quarto Minguante: “Já escrevi minha história / Já fui trunfo, já fui astro / E hoje minha trajetória / É simplesmente esse rastro.” Refere-se, sobretudo e também, ao confrade na APL, político e escritor, Ivan Bichara Sobreira. É dele que a Academia Paraibana de Letras e a Fundação Casa de José Casa de José Américo, associando-se ao povo paraibano e cajazeirense, sob a liderança do seu admirador e conterrâneo Professor Francelino Soares, comemoram o seu primeiro centenário. Faz cem anos que viveu entre nós Ivan Bichara, brilhante, mas com sua edificante discrição no demonstrado discernimento do seu “saber saber”, o que se sinomiza não só com a sabedoria no campo do saber; mas também com a decência, no da ética e, finalmente, com a sensatez, em ações equilibradas, no do “saber fazer”. Foi um paraibano que nasceu com a anima intellectualis, da qual nos fala o filósofo Platão, na sua obra, A República. Duplamente “alma intelectual”: a de poeta escritor e a de dirigente e homem público, no desempenho da arte de governar. Ivan Bichara nada tinha da anima irascibilis ou da concupiscibilis; era sereno e desinteressado no mundo dos negócios… Daí dignamente feliz, sem acúmulo de riquezas. Por princípio, sempre desejou mais ser do que ter … Escreveu o suficiente para se constatarem a suavidade dos seus textos, a beleza das suas imagens e a adequada proporcionalidade das suas comparações, chegando a produzir crônicas, ensaios, dos quais se destaca “O romance de José Lins do Rego” (1971); e quanto os romances: Carcará (1984), Tempo de servidão (1988) e Joana dos Santos (1995). Como se verifica, as datas das suas obras são muito próximas à da sua morte, em 11 de junho de 1998, no Rio de Janeiro. Seu casamento com Dona Mirtes de Almeida muito o aproximou do exemplo de José Américo de Almeida. E ambos lamentavam o tempo que dedicaram às atividades políticas e ao serviço público, que lhes diminuíram horas e dias às suas ricas potencialidades literárias. Mas ganhamos nós por termos tido, no cenário legislativo e executivo, homens políticos como eles: competentes, probos e eticamente inatacáveis. Ainda muito se haverá de falar sobre Ivan Bichara. Damião Ramos Cavalcanti

Sabugo, quase um sabugo

Um sabugo é apenas uma espiga de milho nua e sem grãos. Se muitos, coisa, lixo para os adultos; aos meninos já crescidos, sinal das festas juninas. Mas para as crianças de então, um precioso brinquedo: se quadrado, toras de madeira para se brincar de curral, onde ficavam, como bois, caroços de milho, lagartas verdes ou marrons; se roliços, com as pernas de palito, compridos cavalos para pastorearem o gado. Brinquedos eram assim, sem comercialização das coisas de plástico, nem das invencionices tecnológicas, movimentadas pela energia das pilhas; brincava-se com a natureza, como se fosse bichos, gente, costumes, com as coisas mais simples. Os senhores de terra contemplavam, no milharal, as centenas de mãos de milho que levariam às feiras, aos cuidados dos matutos que plantavam, colhiam, ensacavam e vendiam para entregar o dinheiro ao patrão, cuja mulher, ao lado, dizia: “Esse ano, vai ter muita pamonha, canjica e milho assado na fogueira”. A fantasia das crianças estava no que estava escondido dentro do milho, debaixo de cada palha, por trás dos verdes grãos: o sabugo. Já as meninas imaginavam, nos já pendurados cabelos da espiga, suas bonecas. Eram brincadeiras sazonais, como as plantações de milho e as festas juninas, repetindo suas tradições: novenas, fogueiras, quadrilhas e bailes animados pelo “verdadeiro” forró. “Quando eu era menino” é belo livro, do cronista Rubem Alves. Também com esses termos, o leitor poderá resgatar a memória dessa feliz fase da sua vida. Lembro Zilda cortando com a peixeira o milho e entregando-nos o sabugo e minha mãe costurando a saudável palha para cozinhar o coado milho moído. Hoje, usam-se saquinhos cancerígenos de plástico. Recordo: o sabugo era o querido sabugo… Era o centro das nossas atenções, nesse mundo que o arrodeava, também cheio de folclore. Na maravilhosa simplicidade das crianças, havia poésis, comparada pelo poeta Fernando Pessoa: “Grande é a poesia, a bondade e as danças, mas a coisa melhor do mundo são as crianças”. Damião Ramos Cavalcanti

Marcos Valério, uma saudade que está doendo em mim

Confessava-se, transido entre a generosidade e o encorajamento ao outro, leitor contumaz dos inúmeros textos que escrevi e publiquei na imprensa campinense, dos quais dizia gostar sobremaneira, notadamente dos que se cingiam ao mágico e fascinante mundo da literatura. Literatura, paixão comum de nós dois, afinidade eletiva que compartilhávamos; e que era mais uma sólida ponte a fortalecer, mais que a nossa dialogicidade quase semanal, os laços afetivos que nos uniram no tempo, mas que sempre exibiram os deleitosos sabores da eternidade. Poeta e jornalista, Marcos Valério era um homem da palavra e do rádio, no qual atuou em programas de natureza musical, nos quais se evidenciavam tanto a sua desenvolta competência no trato com o microfone quanto o seu sobrante conhecimento dos caminhos e descaminhos percorridos pela Música Popular Brasileira. Mas, para além do código musical acendradamente apreciado, Marcos Valério também era um exímio observador das cenas e cenários do universo político brasileiro, o que o fazia com aguçado senso crítico, não raro descambante para o terreno da sátira mais aguda, para cujo atingimento seminal Brasília e os seus satélites espalhados por variadas geografias nacionais se constituíam, iniquamente falando, em matéria prima do mais baixo quilate. Ancorado no porto das desventuras políticas de um país vergonhosamente sucateado, Marcos Valério erigiu uma série de aforismos que, conforme me confidenciou em vários diálogos que mantivemos, integrariam o seu novo livro, para cuja elaboração do prefácio, ele me havia convidado com a gentileza que lhe era peculiar. Homem da palavra criadora em estado de estesia, Marcos Valério foi produtor de uma lírica timbrada por uma mundividência inescondivelmente romântica, alicerçada nos pilares de temáticas que fizeram do amor, da solidão, da angústia existencial, da morte, dos desencontros entre os seres, dentre outros, o ponto de partida e de chegada dos seus voos subjetivos mais visceralmente intimistas. Autor de uma poética mais da expressão que da construção, como diria o mestre Hildeberto Barbosa Filho, Marcos Valério também cultivou, aqui e acolá, sobretudo na seara de um explícito apelo transcendentalista, uma lírica eivada de sotaques simbolistas, sobretudo quando incursionava por um território impregnado de cogitações religiosas. Marcos Valério foi, no final das contas, um espontâneo e autêntico cantor das realidades emergentes do coração humano. Do jardim da sua casa, onde, recorrentemente, postava-se como um emérito observador do cotidiano e da vida como ela é, ou talvez como poderia ou não deveria ser, Marcos Valério fez-se o cronista do olhar-viajor, visionário, onírico, libertário; e que jamais capitulou diante das numerosas e multiplicadas limitações que o cercaram, ao longo da sua existência tecida e destecida pelos fios de cinquenta e seis primaveras. Existência que foi interrompida pelos imperscrutáveis desígnios da Providência divina no último dia vinte e quatro do recém-findo mês de abril. Consumido e consumado pela palavra, signo estético com o qual recriou e transfigurou o vivido, Marcos Valério, em nenhum momento, permitiu, mercê de Deus, que a sua vida se transformasse num muro das lamentações; antes, com as adversidades com as quais se defrontou fez pontes de comunicação com a estação esperança, com a qual sintonizou o seu viver até o instante final. A saudade de Marcos Valério está doendo em mim. A Rua Afonso Campos está vazia do vulto de Marcos Valério, personagem central da sua paisagem humana e afetiva. O telefone de minha casa não mais tocará trazendo-me o inconfundível timbre da voz de Marcos Valério dizendo: “Professor José Mário”. Tudo agora é saudade, silêncio e surpresa pela inesperada partida do querido amigo. Marcos Valério, um marco de ternura em minha existência, agora, definitivamente, desfalcada de sua calorosa presença. José Mário da Silva

Vandré retorna ao solo natal

Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, filho de José Vandregíselo e de Maria Martha Pedrosa Dias, é Vandré, um dos nossos conterrâneos, ilustre vulto paraibano. Mesmo distante da sua terra, em outras paragens, querendo ou não querendo, andinas ou brasileiras, ele não conseguiu desaparecer, vivia sendo balbuciado como se fosse um hino proibido; depois, alto e livremente cantado como canção da memória de multidões que o acompanhavam, caminhando e cantando. Se ele pretendeu ser escondido ou se esconder, a cortina, o pano ou o lençol foram curtos para cobri-lo. Primeiramente porque um cidadão da sua estatura não se encobre; depois, um artista da sua dimensão não se pertence… Foi então que ele se reencontrou com seu dileto amigo Ricardo Coutinho que o convidou, como se fosse irmão ou a voz do pai ou da mãe: “volte pra casa”. E ele voltou cantando, até no palco, para acordar emoções e retroalimentar o eco de “Para não dizer que não falei das flores”. Eu vi, eram gritos abafados ou presos sentimentos que se tornaram poésis que nos canta e que nos encanta. Já tinha visto, em 1968, em Roma, estudantes brasileiros, italianos e jovens de outras nações, de mãos dadas, emblematicamente como se fosse um estandarte, caminhando e cantando, em uníssono com outras vozes que vinham dos nossos rincões, das bocas de fogo ou dos carinhosos corações. Nas ruas, nas marchas, parecia a canção hino como se fosse a pintura de Delacroix, “la liberté en guidant son peuple” ou “a liberdade guiando o seu povo”. Nesses dias, quando Vandré faz reaparecer Vandré, ele retorna à sua terra, vai à Academia Paraibana de Letras e declama um livro de poesia, antes só recitada do alto das montanhas chilenas. O que faz também lembrar Giuseppe Verdi, na ópera Nabuco, descrevendo acorrentados escravos hebreus, cantando a ideia de liberdade que, à solta das correntes, poderia voar além dos montes: Va pensiero! “Vá, pensamento, em asas douradas, / Vá e pousa sobre as encostas e as colinas / Onde os ares são tépidos e macios / Com a fragrância do solo natal!”. Aqui e agora, depois de cinquenta anos, cantando, recitando, Vandré sente a fragrância ou o cheiro da sua terra em cio, dizendo poesias que, como foram apresentadas por Hildeberto Barbosa na APL, poderão ser canções. Damião Ramos Cavalcanti

Cineclube Verbo & Imagem apresenta: Memórias do Cárcere

A Academia Paraibana de Letras apresenta em sessão gratuita o cineclube Verbo e Imagem, que exibirá “Memórias do Cárcere” com comentários de Fernando Trevas. Direção: Nelson Pereira dos Santos 29 de abril (última quinta-feira do mês) às 18 horas.

Merecidos direitos dos mortos

Há um ano atrás, no Cemitério Senhor da Boa Sentença, o túmulo dos meus pais foi violado e levaram-lhe a cobertura de granito para se fazer, verificavelmente, tampa de sepultura, na parede lateral daquela “casa da paz”. O túmulo ficou desnudo, exposto à censura de que seus responsáveis, talvez, não lhe dedicassem cuidados à memória dos seus antepassados, no caso, dos mais próximos. Também por tais razões, dia seguinte, eu e meu irmão Ivan fomos recolocar a pedra que faltava. E ficou “tudo como dantes no quartel de Abrantes”; ninguém viu, à luz do dia, os fantasmas furtando, mas os circunstantes “zeladores” sabiam o “mestre” que negociou o alheio ao alheio. Já trabalhei, como estudante, nos jardins e no crematório, do cemitério de Krefeld, na Alemanha, durante o terceiro trimestre de 1968. Naqueles costumes, os cemitérios públicos recebem esmerado zelo por parte daquela gente e dos seus governantes, ambos conscientes da “sacralidade” daquele venerável “campo santo”, onde alguns estão e aonde todos irão… Tal experiência cultivou em mim um gosto esquisito: o de conhecer os cemitérios das cidades que visito, sobretudo se são moradas de admirados cidadãos ou de vultos ilustres. Em todos esses países, o prefeito acumula as duas prefeituras: a da cidade dos vivos e a da “cidade dos mortos”. O jornal A União, desse 18 de abril, estampou, na primeira página: “Cemitérios de João Pessoa são usados como motel” e detalhou, na página 5, a continuada ação dos larápios e dos vândalos, furtando argolas, crucifixos, molduras e placas de bronze, santos, joias e até anéis dos dedos dos recém-sepultados; fazendo daquela “terra sagrada” uma alcova de ladrões, de traficantes de droga e de quem queira comerciar atos libidinosos. As almas não fazem medo a esses praticantes do sexo por trás das tumbas, nem tampouco elas me deram procuração para reclamar seus merecidos direitos. Contudo, “que os mortos enterrem seus mortos” (Lc, 9, 59 – 60), porém cuidem dos cemitérios os que têm o dever e a responsabilidade de cuidar… Damião Ramos Cavalcanti

Amado rio

Quem nasce às margens Carrega consigo o rio no peito; Sangue e água, no coração, Ela não se derrama do leito. Damião Ramos Cavalcanti