Roberto Cavalcanti toma posse na APL

O empresário e ex-senador Roberto Cavalcanti tomou posse, na noite desta sexta-feira, na Academia Paraibana de Letras. Ele passar a ocupar a cadeira de número 27 na vaga do cronista Carlos Romero. A solenidade de posse reuniu autoridades, intelectuais, jornalistas e foi marcada pela emoção do empossado durante seu primeiro discurso. No seu pronunciamento, Cavalcanti começou citando o jornalista e empresário Assis Chatebriand, paraibano de Umbuzeiro, precursor da televisão no Brasil e fundados dos Diários Associados, um dos maiores conglomerados de comunicação da história do país. Roberto discorreu sobre sua migração de Recife (PE) para empreender na Paraíba, narrou fatos familiares, como a convivência com seu pai, Renê Ribeiro, médico e antropólogo, e contou parte de sua saga em terras paraibanas quando montou uma indústria de plástico e depois adquiriu o Jornal Correio da Paraíba, embrião do que é hoje o Sistema Correio de Comunicação. O novo ‘imortal’ se emocionou e foi às lágrimas em dois momentos: ao se referir a morte simultânea dos pais, vítimas de acidente automobilístico, e ao mencionar o nome do acadêmico Antônio Sobrinho, ex-reitor da Universidade Federal da Paraíba, falecido no último dia oito. Cavalcanti ressaltou a satisfação de passar a “fazer parte de um seleto grupo que tem a responsabilidade de proteger o legado de autores paraibanos e da cultura, além de repassar para as novas gerações”. Citou, entre um raciocínio e outro, nomes de aclamados escritores paraibanos, entre eles Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, José Lins do Rêgo, Ariano Suassuna e Celso Furtado. “Se não fosse o estímulo dos amigos eu jamais teria me candidato pois me questionava se estava à altura dos acadêmicos”, admitiu. Roberto Cavalcanti homenageou o seu antecessor na cadeira 27, o cronista Carlos Romero: “Carlos era um encantador de leitores. Não é imortal apenas pela herança que deixou, mas por quem era, pela forma como vivia”. O ex-senador também saudou, no discurso, o seu principal concorrente na eleição, Germano Romero, filho de Carlos: “Registro a postura aguerrida do seu filho, Germano Romero”. O mais recente integrante da APL foi saudado formalmente pelo acadêmico Astênio Fernandes, que proferiu um discurso intitulado de “Construtor de Sonhos”. “Concretiza-se a sua grande esperança onírica. Notável será o convívio. Achegue-se Roberto”, exortou Fernandes. Mais PB

Cineclube Verbo & Imagem apresenta: O anjo

A Academia Paraibana de Letras apresenta o em sessão gratuita o cineclube Verbo e Imagem, que exibirá “O anjo” com comentários de Damião Ramos Cavalcanti. Direção: Luis Ortega 25 de julho(última quinta-feira do mês) às 18 horas.

Mazureik Miguel de Morais

Ele andava pelo mundo afora criando diretórios para seu partido, mesmo assim, nunca foi agraciado nem lembrado pelos dirigentes em cargos públicos, como merecia, por ser inteligentemente competente; exceção feita pelo Governador Tarcísio Burity que o nomeou para ser Chefe da Casa Civil. Fazia, pelo interior, muitas amizades; os interioranos e matutos que o conheceram teciam-lhe qualidades e poderes maiores do que os seus correligionários na sua agremiação, no entanto achavam seu nome um pouco estrambólico, uns chegavam até chamá-lo de Doutor Miguel, mas a maioria, carinhosamente, de Doutor Mazú. Ele achava isso bom e dava, naquele tom grave que lhe era peculiar, uma gargalhada, agradecendo. Nesse meio político, nunca arranjava coisas para si; pedia favores para os outros, e quando aos mais humildes necessitados, ele tirava do próprio bolso feijão, arroz, farinha e até algumas latas de sardinha, mas, sem qualquer ranço de demagogia, apenas gostava de fazer o bem, assim ele se beneficiava pela sua própria bondade; também vítima, porque destacar-se com essas virtudes e com essas ações, no território da guerra dos invejosos, sempre é muito invejado e perseguido. Diante das injustiças, das perseguições e das bajulações desses invejosos, irritava-se com facilidade, num tom de voz acima do normal, chegava até a perder o fôlego. Sobretudo, quando fumava, mas definitivamente consciente de que o cigarro é mortífero, parou de fumar. Quem ele achava que alguém não prestava, não o perdia de vista, tampouco do seu árduo espírito crítico. Contudo, muitas vezes, objetivamente, elogiou quem estava do outro lado partidário, se tratava-se de gente “correta, trabalhadora e honesta”, repetindo, seguidas vezes: “É competente, é competente”. Ao contrário, não media esforço, a criticar “cabra ruim, que sabe nada do que quer fazer”. Certa vez, fui-lhe também sincero: – Andam dizendo que você está inconveniente, que você fala quando e onde não deve falar”; riu e respondeu: – Há inconveniências necessárias e não falo pelas costas. Era de uma sinceridade peremptória… E de bondade também, com afinco, assim sempre viveu a finalidade da sua profissão: médico tem como primeiro dever curar e não se preocupar primeiramente com compensações e vantagens. E isso fazia espontânea e gratuitamente, conheço vários casos da sua atenciosa prática da medicina. Estava eu fazendo companhia à minha irmã Marilene, em 7 de setembro de 1970, na Maternidade Roberto Granville, quando o marido dela, Fernando, passeava a passos largos, prá cima e prá baixo, sem achar um médico de plantão e então, pelo corredor, surgiu Mazureik que não nos era conhecido: – Por que você está aperreado? Dito o que ocorria, de pronto, o ginecologista Mazureik deixou outros afazeres, lavou as mãos, visitou a parturiente, colocou as luvas e fez a cirurgia cesariana para nascer Raissa. Isso até hoje é objeto da minha memória, início da minha amizade com ele e fator da gratidão, que a irmã, cunhado, sobrinhas, filhos e filhas nutrem por esse exímio obstetra. Nesse sentido, revelo como é gratificante vivenciar a prática da gratidão. Iniciava sua bondade entre os seus, como pai, pois, em várias ocasiões, demonstrou essa afetuosidade para com os filhos e as filhas; mesmo sem tempo, nunca deixou de ir comprar pão e levá-lo à casa de cada filho. Isso para mim era muito simbólico. Quem é solidário em família, em casa, é solidário também na rua, entre os desconhecidos, permitindo, pelo princípio de alteridade, que os outros sejam e consequentemente tenham; isso também faz enriquecer a consciência de si mesmo. Mazureik lia semanalmente essas minhas crônicas, agora, longe de qualquer miopia, com visão infinita, está lendo tudo isso, lá de cima… Damião Ramos Cavalcanti

Confusões e confusões construtivas

Ontem, um deputado me disse: “Não aguento mais, na política desse país, tudo é muita confusão pro meu gosto”. Ri, mas disse a ele que haver confusões na política é muito normal, que quem quiser agir ou militar no mundo político terá sempre de conviver com muitas confusões; ou seja: a política “ordeira”, sem discussões e debates, arbitrariamente, seria aquela em que não se exercitam a liberdade de expressão e a aceitação da diversidade de ideias, o que, posteriormente, gera também confusos conflitos; ou quando se dá um sumiço ao espírito crítico: tudo é bom, tudo é ótimo ou tudo é errado, tudo é ruim, o que também nos joga num mundo muito tumultuado, irreal, de generalizações. Contudo, se for política, logo aparecem confusões, do que não se pode fugir, tampouco escapar, caso se viva na polis, na sociedade. Esses “aperreios” diminuem, se o interessado optar em ser eremita, isolado da sociedade, nos ermos de uma montanha inabitada, mas com a resignação a desprezar os benefícios da tecnologia e o conforto vendido pelo mercado da sociedade industrializada; com certeza, teria tão somente a natureza e as primícias do mundo meditativo. Há quem, aqui e acolá, “passa uns dias escondido no mato”, “sem rádio e sem documento das terras civilizadas”. Mas, sem vocação para asceta, logo depois corre atrás das preocupações, pega o caminho de volta pra cidade à procura de compromissos e “responsabilidades”, onde sempre há confusão; sobretudo porque, no campo, não suporta as reclamações dos filhos, das filhas que não se contentam sem os celulares… Por isso, os eremitas de sucesso eram solteiros, solitários e com muito tempo ao sábio discernimento. Também, por outros motivos, essa “espécie” está em fase de extinção. A diversidade, que geralmente provoca confusão, está no fato de que, na política, surgem vários caminhos para um só objetivo; ou, por analogia, idealizam-se várias estradas para um mesmo lugar. Embora esse mesmo lugar seja comum a todos, sempre existem alguns que discordam sobre o qual caminho a tomar: “O meu atalho é o melhor”. Essa é uma das explicações e das razões do imenso pluripartidarismo, ou seja, existe “partidinho” que não vem a ser um caminho, trata-se de apenas um desvio, um pequeno atalho, contudo diferenciando-se dos outros caminhos. É bom que se esclareça o que seja confusão: num primeiro sentido, seria ato ou feito de confundir, de misturar, também tumulto, barafunda; mas, indo às raízes da palavra, lá vem um significado de resultado bem positivo: “fundir com” (fusão com), ou seja, quando se fundem diferentes ligas metálicas numa só, tornando-as uma peça fundida mais forte, como se fosse o mais aperfeiçoado momento dialético da síntese, consequente da confusão de ideias divergentes e fruto de um caloroso debate. A água gelada nessa fervura conturbadora seria o convencimento de que todos os caminhos nos levam para um mesmo lugar, se desejado por todos, o que é muito conciliador; e que esse lugar, mesmo sendo um pouco utópico, a estilo de Thomas Morus (autor da Utopia, juiz imparcial decapitado por Henrique VIII ), seria o Bem Comum, o que, para ser conseguido, causa muita confusão entre os individualistas, egoístas, aqueles que querem o mundo só para si. Mesmo conseguido o Bem Comum, criar-se-ia, consequentemente, outro caminho: o dos inconformados, o dos que querem o melhor e o maior apenas para si. Confesso: fazer o Bem Comum faz parte da política, então a dita confusão continuaria, mas suficientemente diminuída… Há políticas públicas, como saúde, segurança e educação, cuja importância teoricamente goza de maior aceitação consensual; contudo, na prática, não acontece o que prometem ou o que se espera. Pode-se afirmar que, um dia, havendo mais educação, quando nossa consciência política evoluir, os políticos não farão tanta “confusão” em torno de uma política pública que considere que a educação do povo deve ser a missão mais importante dos políticos. Damião Ramos Cavalcanti

A Biografia do Biógrafo Berilo

Sobre os seres, duas categorias abrangem todo o nosso universo, elas têm limites quase infinitos: os não viventes ou os que não têm vida, como a pedra; e os que a têm, como os minúsculos organismos nas profundezas do mar, ainda desconhecidos nas cavernas dos oceanos, demonstrando essa biológica vinculação entre a água e a vida (do grego, bios). Refiro-me assim até aos gigantescos dinossauros, que já se foram deixando pegadas em Sousa; também às enormes baleias que ainda sobrevivem, trocando de mar, fugindo dos caçadores, obcecados pelo lucro, que querem vender sua carne e seus ossos. Esses muito grandes animais tiveram ou têm vida (bios), mas nunca tiveram biografia, como esta deste livro, mesmo considerando os volumosos compêndios de zootecnia. Porque bios não significa vida intelectiva, tampouco espiritual; também porque a biografia, como gênero literário, não é sobre uma coisa qualquer, sobre algum indivíduo, mas sobre a pessoa em si, com “persona” própria que lhe é peculiar, o que caracteriza uma determinada personalidade. Ainda no intuitus personae para definir o que seja uma biografia, faria uma analogia, comparando escrever uma biografia com a arte de fotografar. Pois, quem desenha ou fotografa alguém já inicia uma biografia que se completará mais claramente com a explicação discursiva. Nesse sentido, uma autobiografia é o biografado escrevendo a sua biografia, como é o caso de Berilo, fazendo, como se usa comumente hoje, uma self, fotografando a si mesmo e também os circunstantes, nas circunstâncias da sua vida. Aliás, nesse aspecto, stricto sensu, este livro é muito rico em ilustrações que vinham sendo guardadas no fundo do baú, com carinho, fruto do amor que ele sempre dedicou à natureza, às pessoas, aos fatos e às coisas da sua vida, tudo com cheiro e cores do passado. São tais sentimentos que geram um biófilo… Eu sou um dos seus circunstantes, não me encontrei nos retratos, mas nos fatos que se referem a Berilo enquanto estudante, professor, dirigente escolar, homem público, até atingir as funções, que também desempenhou, de Reitor da Universidade Federal da Paraíba e de Secretário de Estado da Administração, na sua Paraíba; ainda, enquanto menino e adolescente cultivador da roça, nos arredores de Serra Branca, sua terra natal; e até ao cargo de “suplente da primeira divisão”, que era uma espécie de substituto do padre superior, “disciplinário”, sempre estudioso, para tomar conta de umas cinco dezenas de pré-adolescentes, entre os quais lá estava eu aprendendo e também conhecendo Berilo. Desde então, sua rica personalidade já retratava generosidade, responsabilidade, inteligência e grande entusiasmo pelo trabalho. Tudo isso sempre se enriqueceu pelos seus talentos e bons sentimentos. Depois de tantos caminhos andados, Berilo Ramos Borba, ao escrever esta biografia, satisfaz o desejo de deixar seus passos para a memória sua, dos seus e dos amigos e para sua posteridade, contando-nos marcos da sua vida, pegadas das suas estradas por Campina Grande, onde conheceu Dôra, até vir morar entre nós em João Pessoa; e, da mesma forma, de pessoas que, com ele, subiram as ladeiras da vida e removeram, quando necessário, as pedras do caminho. Seu relato é simples como ele, sempre cheio de simplicidade que é fator de sucesso a qualquer bom escritor. Jamais se imaginaria sair de Berilo uma obra que não fosse simples, porque ele é simples. Sua indumentária engravatada de jurista e de requisitado advogado é somente costume dos fóruns, toga dos tribunais, o que não modificou seu modus essendi, culto e modesto, sabendo das coisas, todavia com ares e aparências da sabedoria socrática: “Só sei que nada sei”. Damião Ramos Cavalcanti

Cineclube Verbo & Imagem apresenta: O gênio e o louco

A Academia Paraibana de Letras apresenta o em sessão gratuita o cineclube Verbo e Imagem, que exibirá “O gênio e o louco” com comentários de Milton Marques. Direção: Farhad Safinia 27 de junho(última quinta-feira do mês) às 18 horas.

Juiz que é juiz não persegue…

Porque perseguir ou proteger não é próprio de quem julga; a isenção é substancialmente o que define ser um homem juiz ou uma mulher, juíza. O juiz não pode ser amigo do réu, tampouco inimigo; ele, quando se mostra imparcial, logo, torna-se também réu. Seria como se fosse um jogo de “cartas marcadas”, entre o julgador e o julgado. Sendo assim, o juiz tendencioso terá sempre maior poder de “vencer”, da distribuição do baralho até o fim do jogo; quando sua função não tem a finalidade de perder, tampouco de vencer. Ao juiz cabe tão somente buscar a evidência contida ou demonstrada e comprovada nos autos; se essa evidência não for clara e convincente, ele não vê o objeto a ser apreciado pelo juízo; contudo não pode opinar, porque juiz não opina, julga; e para isso há de procurar prova ou provas contundentes. Infeliz do juiz que condena, quando a acusação é desprovida de prova, de fundamento. E é escandaloso quando ele sugere instruir os autos de modo a favorecer o julgamento que ele, subjetivamente, pretende fazer; ou quem o ajuda nessa empreitada assegura que dirá que uma denúncia inexistente foi anônima ou “apócrifa”. Nesse caso, como se verificar a veracidade da denúncia? Pode um juiz ter amigo ou inimigo? Pode, mas, enquanto juiz, não deve; porque “seus amigos” ou “seus inimigos” não devem ser julgados por ele, o Juiz. Um dos momentos mais felizes do Código de Processo Civil trata da imparcialidade da Justiça nas mãos de quem julga. Nesse sentido, o princípio ético é radical: determina que o juiz entregue o caso a outro julgador que seja capaz de isenção. O impedimento se dá quando sua conduta pode ser interpretada estar motivada ou movida por razões ideológicas, partidárias, religiosas ou pior: por preconceito. Quando o juiz tem simpatia ou antipatia que desequilibre o ato de julgar, deve ele, eticamente e de sã consciência, declarar-se incompetente “ratione personae” para julgar, a fim de que se evite qualquer desconfiança de que ele tenha tido algum interesse em atender às pretensões de alguém, de outrem, ou, quem sabe, dele próprio… Jamais deve ele encomendar ao Promotor que se faça o Processo de modo que se facilite sua vontade atingir seus objetivos… Há um ditado popular que revela a sabedoria do povo sobre esse assunto: “Nada se pode antecipar o que vai sair da barriga de mulher buchuda ou da cabeça de um juiz”. Em outras palavras, “cabeça de juiz é uma caixa de surpresa”. E ao exprimir o contrário, o que dá no mesmo, sobre o jogador de futebol que, pelo sapateado e pelo seu olhar, canta aonde vai chutar o pênalti: “Quanta ladainha, quanta embromação para tentar esconder o que todo o mundo já sabia” … Enfim , dentro de um maracujá nunca espere encontrar caroços de feijão… Também não é crime você descobrir e espalhar, aos demais passageiros e à tripulação, o plano cochichado, privado, porém nefasto, entre dois passageiros que planejem a queda do avião, mesmo que eles sejam suicidas. Console-se quem é “bucho furado” ou boateiro, ainda se reconheça que nada deve ser mantido em segredo e considerado de “caráter privado” o que causará mal coletivo. Toda tal filosofia provém do bom senso que existe porque foi adquirido pela experiência popular; o bom senso ou o conhecimento vulgar é uma sabedoria que nos protege. Diz René Descartes, no seu Discurso do Método, e graças a Deus: “O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo”. Finalmente, de tudo isso, conclui-se que devemos evitar o incêndio, mas, quando ele acontece, leva-nos positivamente a pensarmos sobre a prudência ou a solidariedade, dentre tantos benefícios que o fogo nos propicia; mas também sobre o perigo que nos pode causar o fogo… Damião Ramos Cavalcanti

Entre o celular e a argamassa

O trânsito parou o meu carro bem ao lado de uma parede pela metade. Na calçada, um caixote de argamassa, duas colheres de pedreiro, um prumo; e, um sentado no chão e o outro de cócoras, dois pedreiros, cada um olhando, digitando o celular na mão esquerda. Não era uma espiada, mas uma conversa longa que parecia ser bate-papo de WhatsApp, com vídeo, foto e tudo. Nada sobre a parede que construíam, que paravam de construir, e que construíam e paravam. Um parecia ser reciprocamente chefe do outro, que simultaneamente se autorizavam, de dez em dez tijolos, uma espiada no WhatsApp, como “pausas” para o descanso, ao cansaço que não havia. E nenhum mestre de obra para encorajá-los: “Vamos, gente, temos de acabar a parede”. Os carros avançaram, contudo pouco eles perceberam que estavam sendo olhados, naquela atual “normalidade” de trabalho. Então, lembrei-me de O Operário em Construção, de Vinicius de Moraes, quando declamava aos meus dezenove anos. Poesia longa, sobre a árdua jornada daqueles pedreiros que não tinham outro tempo, senão o de trabalhar, “como se fossem máquinas”. Talvez desconhecessem que “eles desconheciam esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário” … O celular, com certeza e naquele momento, repetia-se dessa maneira noutras construções e em muitos restaurantes, igrejas, ônibus, metrôs, e até em cinemas. No próprio tráfego, enquanto o carro para ou mesmo quando ele anda, porque também já existe whatsapp em viva voz, não precisa o motorista escrever, dita e a comunicação está feita, pouco tirando a visão do carro da frente que freou; mas, vez ou outra, uma batida. Aí vem a briga: – “Você estava no celular”. Ao que se responde: – “Eu? Estava desligando e dizendo que não podia atender”. E assim “la nave va”, em direção ao naufrágio… Nessa mídia, o pior de tudo são os assuntos: frivolidades, fuxicos e perniciosas mentiras que receberam o nome estrangeiro de “fake news”, úteis até para golpe de estado, campanhas políticas, fins de namoro, se é que ainda existe o namoro; e a rompimentos conjugais, com separações facilitadas por aplicativos. Os assuntos para aquilo só estão faltando um grau… E desgastam-se na circulação da mesmice, o que é comparável à nutrição dos que comem apenas o que conseguem no mangue. Josué de Castro, o famoso autor do “O Livro Negro da Fome”, fala-nos dessa “endogenia”: come-se somente caranguejo; depois de digerido, devolve-se esse bicho ao mangue em forma de fezes que são comidas pelos caranguejos; e a seguir, tais caranguejos, assim alimentados, voltam a ser comidos, fazendo perfeito círculo vicioso: caranguejo, nutrição, fezes e essas, novamente, mais uma vez na caranguejada à água e sal. Acontece o retorno: o digerido volta a ser comido… Tal costume, isto é, de se ficar pregado no celular, já é patológico e existem consultórios para tratarem dessa patologia. Nesses ambientes, proíbe-se o uso de celular, o que é ostensivamente desobedecido pelos clientes… Há escolas que também proíbem o uso do celular na hora da aula, quando persistentes professores explicam o que ensinam, parando apenas para o celular… Mas, alguns pais, por pressão dos filhos, protestam: “Isso é uma falta de liberdade!” E muitos casos são levados à Justiça. Quem pensa e reflete constata que estamos num titanic velozmente correndo para se chocar contra um grande iceberg, em profundo oceano. Dizem até que se teria previsto tal tragicidade, o contrário do proverbial Chacrinha: quem não se comunica se trumbica. O celular vem invertendo, tornando muita gente “trumbicada”. Enfim, o genial físico e filósofo Albert Einstein nos admoestou que esses aparelhinhos, sendo um dos inseparáveis dedos da mão, caracterizam-nos com anatomia de tolo, apaixonados por tal idiotice ou indivíduos da futura humanidade sem pensar, sem se comunicar, sem interagir, sem evolução do pensamento: “Eu temo o dia em que a tecnologia vai ultrapassar a interatividade humana, o mundo terá uma geração de idiotas”. Damião Ramos Cavalcanti

Cineclube Verbo & Imagem apresenta: Minha obra prima

A Academia Paraibana de Letras apresenta o em sessão gratuita o cineclube Verbo e Imagem, que exibirá “Minha obra prima” com comentários de Flávio Tavares. Direção: Gastón Duprat 30 de maio (última quinta-feira do mês) às 18 horas.

Edital Cadeira 27 – Carlos Romero

O Presidente da ACADEMIA PARAIBANA DE LETRAS – APL, no uso de suas atribuições e de acordo com o Art. 7º do Estatuto Social, combinado com o Art. 16 e 17 do Regimento, da APL, declara: 1º. Vaga a Cadeira 27, anteriormente ocupada pela acadêmico Carlos Augusto Romero; 2º. Aberto o período de inscrições, para preenchimento da cadeira nº 27, que deverão ser realizadas na Secretaria da APL, das 8 às 12 horas, dos dias úteis, obedecendo as exigências regimentais e o prazo estabelecido, a partir do dia 21de março de 2019. 3º Ouvido o Conselho Diretor em conformidade com o Art. 19 do Regimento Interno designa o dia 07 de junho de dois mil e dezenove (07.06.2019), de 8:00 às 12:00, na Sede da APL, Rua Duque de Caxias, 25/37 – Centro – João Pessoa, PB, para a Eleição do futuro ocupante da Cadeira 27. Participarão do processo eleitoral os candidatos regularmente inscritos, sob aprovação do Conselho Diretor da APL. João Pessoa, 21 de março de 2019 Damião Ramos Cavalcanti