Adoro velório

Adoro velórioHildeberto Barbosa FilhoNão se espante, respeitável leitor. Há um outro lado dos velórios. Um lado bom com sabor de vida, que a mim me faz bem e quero crer que a muitos outros que conseguem penetrar nos reinos cristalizados de seus ritos e formulações.Não o revelo para me exibir e não quero dizer com isto que gosto quando alguém morre ou que, muito menos, aprecie o sofrimento alheio. Quando morre alguém de quem se gosta, o que fica por aqui sofre muito pela dor da perda e pelo mistério que ultrapassa os limites da compreensão humana. Isto é perfeitamente compreensível e com isto devo (e devemos) ser solidário, irmãos que somos, de natureza e de destino.No entanto, parece haver um ângulo dialético dentro da experiência da morte. Seja a morte de um simples conhecido, parente distante, ilustre confrade, seja a morte mais íntima dos que compõem o raro ciclo daqueles que amamos. Já perdi pai e mãe, avós, tios, primos, irmãos e amigos do peito. Sei do que estou falando.Para mim, o velório não é só o dia do morto ou da morta. Nem é só o dia da morte. É, também, em certo sentido, o dia dos vivos! O dia em que, nem ouso entender as estranhas razões nem os critérios desta lógica indecifrável, posso reencontrar pessoas queridas, há muito tempo não vistas nem abraçadas. Pessoas que, estando ainda vivas, lembram a mim mesmo que também estou vivo, e que, se a “vida é uma agitação feroz e sem finalidade”, é também milagre, como ensina o poeta.De um lado revejo aquela tia muito amada a quem não via faz tempo; de outro, abraço o primo que mora distante ou aquele velho amigo de infância, hoje homem velho e vivido, que a exigência incontornável do morto ou da morta o coloca de novo diante de mim, na esfera renovável de minha vida.Dia de velório é, portanto, dia de vida. Dia da vida. Pelo menos, para mim e para meu jeito heterodoxo de apalpar as coisas do mundo. Não que o sofrimento sincero de alguns não me comova, porém, insisto, no âmago da comoção mais profunda, é ainda a a veia da vida que pulsa com vigor e vitalidade.O morto ou a morta que ali estão, no repouso e no silêncio eternos, parecem indiferentes a todos àqueles que a ele ou a ela vêm dar adeus no ato singelo da última homenagem. Indiferentes àqueles e a tudo. Quem sabe, exilados dentro de si mesmos no conforto que deve ser habitar paragens desconhecidas e sem nome.Quando cumpro com este dever humanitário e presto meu último preito a este ou àquele morto ou morta, mesmo que mui rápido, olhando o morto ou a morta pela derradeira vez, tenho quase sempre a sensação de que ele ou ela já não estão mais ali, apesar da presença material do corpo, inerte e mudo. Há mesmo, em alguns, um ar de ausência, certa distância inapreensível, ou, não raro, certa ironia pouco perceptível pela aura dos vivos que proseiam acerca de um tudo em derredor do esquife.Quando da morte de meu pai, tive este impacto de modo muito intenso, e assim o registrei numa das passagens de As horas mortas:“{…} Meu pai estava lá, como todo morto, num caixão, no centro da sala, exposto à curiosidade da visitação. Mas, para que isto? Pergunto-me e não tenho resposta. A morte é uma experiência pessoal, intransferível, misteriosa… Vejo nela a plena perfeição. A morte deve ser preservada, deve ser intocável. É algo que extrapola a órbita das nossas vivências ordinárias. A morte é sagrada!A sensação que tive é que o morto – meu pai – estava num deserto. Indescritível a sensação de que ele estava ali, mas também de que ele não estava ali. Ou seja, a morte a estabelecer fronteiras enigmáticas entre a ordem, o tempo e o espaço, agora pressentidos de maneira diferente. Depois, com os anos, o sentimento esquisóide da separação, do deslocamento, da lembrança. Da lembrança que é uma forma de ver e de não ver, de ter e de não ter, enfim, de procurar e não encontrar”.Sei: esta dor foi minha e o foi à minha maneira. Meu pai se foi. O que ficou, no entanto, foi a vida, já consagrada, por mais paradoxal que seja, nos pequeninos rituais do velório que a tantos juntou, para falarem dele e da sua existência. Porque velório não é só dia de morte. É também dia de vida. E se a morte é sagrada, a vida também o é.

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Diário, tempo e leitura

Hildeberto Barbosa FilhoPenso que o diário pode ser, sim, uma espécie de forma literária. Não somente se vem vazado em estilo poético, dentro do rigor artístico da linguagem e com evidentes marcas de literariedade. Quero crer que também existe algo de ficcional na sua escrita fragmentada, atenta ao passar dos dias e quase sempre entregue ao gosto da expansão confessional, aos predicados da observação, à capacidade reflexiva diante dos fatos, das pessoas, das ideias, dos conceitos, enfim, de tudo que possa atrair o olhar e o pensamento de quem o escreve. Diário é literatura, sim. Como as memórias, as confissões, as cartas e a autobiografia.José Rodrigues de Paiva, professor aposentado da UFPE, português de origem e pernambucano por adoção, me faz meditar, a partir de As palavras e os dias: A memória do caminho 1 (Recife: Edições Dédalo, 2021), sobre os limites, os desvios, as finalidades e o sentido dessa escrita íntima, de sólida tradição na literatura francesa, com intensas ressonâncias nas letras de Portugal e do Brasil.Aqui, tanto quanto em As palavras e os dias: Vergílio Ferreira (2006), comparece a figura do professor, do ensaísta e do leitor na sequência contínua dos registros, o que me permite ver o esforço disciplinado de um estudioso inteiramente dedicado às múltiplas tarefas de seu ofício. Seja na organização de um seminário, na elaboração de um texto para um congresso qualquer, na redação de um prefácio para uma obra literária; seja no comentário crítico acerca de algum livro, na anotação de algo a escrever ou mesmo na evocação de experiências pessoais e subjetivas, o autor vai compondo o testemunho diário a respeito dos acontecimentos de sua vida.A família, as viagens, a universidade, os encontros, os natais e anos novos, assim como outras efemérides, preenchem os roteiros dessa aventura cotidiana, tanto a envolver o homem, na sua disposição psicológica diante dos ritos rotineiros da existência, quanto a figura do escritor, ficcionista, ensaísta e poeta, diante dos sortilégios da palavra literária. A propósito deste último aspecto, esclarece o autor, logo na anotação inicial, do dia 2 de janeiro de 2007: “{…} Felizmente passaram… o Natal e o ano velho. Sobrevivi à passagem, ao cinza intenso da melancolia, não muito estoicamente, como desejava, mas sobrevivi. Agora tento começar o ano novo, buscando repetir ou recuperar um vício antigo: o destas notas diarísticas, que talvez sejam a manifestação do oculto e inconfessado desejo de procurar inutilmente o tempo que a todos foge”.Certamente. O diário, como as memórias e outros gêneros afins, trai, sem dúvida, um curioso compromisso com o tempo. Compromisso que parece se cristalizar na ambivalência intrínseca da própria escrita, naquilo que ela prefigura de instantâneo ou de duradouro, de banal ou de relevante, de factual ou de imaginário.Aqui e ali, o professor José Rodrigues de Paiva, no quadro cronológico de 2007 a 2013, retoma os elementos ideativos desta reflexão filosófica como que a determinar a força do tempo, o físico e o metafísico, o da factualidade e o da duração, inscrevendo-se, por dentro, do discurso diarístico, enquanto voz substancial e perene. Perplexo face aos seus 62 anos, escreve, em 19 de novembro de 2007: “{…} Olho para trás e tudo o que vejo ou lembro parece ter acontecido ontem, anteontem, há uma semana, um mês, um ano e não há dez, ou quinze, ou vinte… A vertigem do tempo e o nada que somos nele. A vida que se vai concluindo (até quando?) e tão sem grandeza, tão sem realizações que realmente a justifiquem, tão sempre a mesma coisa, o ramerrão…”.Seduz-me, em especial, as recorrentes notas de leitura, sobretudo as notas de “leituras de intervalo”, com seu poder de sugestão, sua pertinência pedagógica, sua força crítica, descortinando, assim, a personalidade de um leitor que, sem negar o peso de sua formação acadêmica, não se deixa, contudo, dominar pelo canto de sereia das teorias. Ao contrário: o leitor, aqui, assume, sem titubeios, suas preferências, seus gostos, suas afinidades, sem o desconforto das assertivas metodológicas e dos marcos teóricos que alicercem a opinião emitida. Só para dar um exemplo, recorro ao registro de 2 de novembro de 2009: “Terminei hoje a leitura de Caim, de Saramago, livro desencadeador de grande polêmica e de muitas fúrias contra o autor. Livro frustrante sob todos os aspectos, particularmente no que diz respeito à literatura. Absolutamente dispensável à obra do escritor”.Só por momentos como este e por tantos outros que corporificam este diário, discordo do autor, quando, em nota introdutória, considera-o “Desnecessário, porque a ninguém aproveitará a sua leitura, a não ser a mim próprio”. Não. De maneira alguma. O gênero íntimo não se faz por exclusão. Balela esta história de que se escreve diário para si mesmo! Intimidade não quer dizer isolamento. Através do diário não só se conhece a pessoa que o escreve. Um mundo muito mais vasto se dá a conhecer, dando-se a conhecer, naturalmente, pelo filtro singular de um leitor especial. Sei que José Rodrigues de Paiva é um destes leitores.

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