Quando se alcança o grau de celebridade, é comum surgirem mitos e versões fantasiosas acerca daquela pessoa.
No caso de Augustos dos Anjos, criou-se uma versão de que ele saiu magoado da Paraíba porque o governador (denominava-se, na época, presidente) fora injusto com ele, por não conceder uma licença, pois pretendia ir tentar a sorte no Rio de Janeiro.
A afirmativa é verdadeira; o governador realmente negou a licença, mas a negativa não foi injusta, conforme explicarei ao longo deste texto.
Já há muito tinha vontade de falar sobre o caso. Tanto que, recentemente, num programa de que participei na Rádio Parahyba FM (irá ao ar em outubro) fiz as afirmações que vou reafirmar aqui.
O “gancho” para que eu fizesse isso agora veio ao ler, recentemente, no jornal A União, um artigo da excelente jornalista e amiga Rosa Aguiar em que ela assinala:
“Augusto deixou a Paraíba em 1910 e seguiu então para a capital do país, o Rio, magoado com a Paraíba. Pesquisadores afirmam que ele pediu licença sem vencimentos do cargo de professor do Lyceu Paraibano e de colaborador de A União (grifo dela) para seguir o projeto de publicar o primeiro livro em terras cariocas, onde poderia ter projeção, e o pedido foi negado pelo então governador João Machado.”.
Não sei quais são os pesquisadores a que a articulista se refere, porque ela não citou os nomes, mas quaisquer que sejam eles omitiram (o que aliás sói acontecer aqui na Paraíba) um ponto fundamental:
O governador João Machado realmente negou, porque a lei não permitia licença para professor temporário, que era o caso de Augusto dos Anjos.
Tal fato está bem documentado na melhor e insuperável biografia do poeta: o livro Poesia e Vida de Augusto dos Anjos, de R. Magalhães Júnior.
Transcrevamos Magalhães:
“(…) Augusto dos Anjos foi procurar o governante paraibano a fim de lhe expor a sua pretensão. Isso se deu numa manhã de sábado, a 27 de agosto de 1910. Após ouvi-lo, o Dr. João Machado lhe declarou ser impossível atendê-lo. Augusto explicou, fora nomeado interinamente, para a cadeira regida em caráter efetivo pelo então deputado federal Manuel Tavares Cavalcanti. E, pela legislação em vigor, um professor interino não poderia ser licenciado, a fim de que outro ocupasse, também interinamente, a sua vaga. Sem compreender isso, Augusto dos Anjos insistiu. O governante reiterou as mesmas razões. Mas o poeta, insistindo ainda uma vez, disse que, com um pouco de boa vontade, seria dado um jeito. Ante essa insistência, impacientou-se o Dr. João Machado. E acabou por dizer, num rompante: “Sabe de uma coisa, Seu Augusto? Não me amole mais!”. O poeta, indignado, teria retrucado no mesmo tom, abrindo mão do cargo.
(R. Magalhães Júnior: Poesia e Vida de Augusto dos Anjos. 2ª edição, pág. 229, Editora Civilização Brasileira/MEC, 1978).
Já é hora de vermos as coisas com critério, rigor histórico e sem paixões exacerbadas!
João Trindade.