Academia Paraibana de Letras

            Muitas cédulas no ar, saindo da mala o dinheiro apurado do combustível; também bilhetes vendidos pela Lamia para uma viagem mais longa. O piloto, dono do avião, arrependido da avareza, abraçado com o co-piloto, num clamor de misericórdia, rogava: “Jesus!”; eles, à frente de todos, caíam primeiro, verticalmente, no avião sem gasolina, depois de cometer à Torre sua última trapaça: “Não! É apenas uma falha técnica”. Mesmo a pista mais plana também não receberia, sem estrondos e mortes, peso tão pesado das alturas além das nuvens.
          
Passavam, com rapidez de cometa, as pernas dos jogadores mais velozes, mesmo fora do gramado, sem o apito inicial; corriam sem adversários, apenas submissos à velocidade do desastre. A bola rolava parada no colo de quem iria chutá-la. Houve silêncio,e depois começaram os enormes gritos, bem maiores do que os da torcida de Chapecó. Nunca se rezou tão alto. Inevitavelmente a aeronave caía, ora como um pássaro infartado, sem vida, ora em pirueta misturando os corpos: Goleiro no ataque, centroavante na defesa, técnico no meio da peleja, e o juiz entre os reservas. Enfim, não era o jogo ao qual se ia; mas, a partida à qual não se foi; e sem presença, mas sem WO, ganhou-se o título…  Não houve sangue no ar, apenas camisas verdes lançadas a um gramado esparso.
         
Os não escalados, os torcedores, os sem passaporte ou os que perderam o voo não sofreram o desastre. Mas, estavam no avião, como dizem os apaixonados: “Onde estiver meu time, estará meu coração”.  Próximos e distantes ficaram em casa, aguardando pela TV jogadas imprevisíveis, lances de craque que, nunca vistos , garantiram-lhes a conquista do título de campeão. No velho inglês Avro RJ – 85, resta um sino esquecido pelo Vigário de Chapecó; na queda, ele, sozinho, repicou finados pelos mortos. Todos, mais rápidos do que o vento, saíram das nuvens e logo retornaram aos céus, onde a alegria da vitória é para sempre.

Damião Ramos Cavalcanti

 

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