A velocidade da linguagem troglodita
Chegar a Marte, longe planeta análogo à Terra, demanda sobretudo velocidade que ora traz seus bens, ora, seus males. Prefiro o movimento, a ação, a animação, a energia à inércia, praticando uma vida ativa e dinâmica. O contrário seria propício à preguiça, à inatividade, à paralisia, ao torpor, ao acúmulo de energia ou progressivamente ao seu fim: A morte. Contudo, é preciso escapar do açodado frisson do “time is money” e procurar compreensão e equilíbrio ao relativismo dos contrários, sabendo dosar a vida segundo a movimentação e a inércia. Trabalhar nos dá sobrevivência construtiva, mas escravizar-nos, sem descanso, em vez de ganharmos tempo, sujeitar-nos-emos a perdê-lo para o resto da vida… Considere-se também que o bom e o mais perfeito são frutos de tudo no seu devido tempo. Estranho que se fabrique moto ou carro para correr além da necessária velocidade para chegarmos aonde vamos, industrializando-se excessos que provocam desastres e mortes. Se a lei, em placas ostensivas, exige que o automóvel não ultrapasse 120 km por hora, por que ou para que venderem carros que correm muito mais acima de 240 km? Irracionalidades… Irracional também seria, na minha idade, enfrentar a velocidade para ir a Marte e suportar impactos, catabis e buracos espaciais; só a duração dessa viagem me amedronta. Mesmo assim, estão vendendo excursão, sem retorno, a essas distâncias… Uma pressa coletiva ideologicamente ronda o mundo, nesse afã, os humanos andam se substituindo pela máquina; substituem pés, pernas, braços, boca, estômago, virilha e até a própria cabeça para lucrar comodismo e usufruir, ao mesmo tempo, o imiscível: Inércia e alterável velocidade. Também se substitui o coração: Amor, afeto, carinho, quando amizade requer dedicação e sua linguagem falando palavras de arte e poesia. Comunicações despretensiosas que não conjugam mais o verbo amar, com esmeros do sentimento, mínguam na velocidade da internet ou na linguagem da velocidade, escrevem-se palavras truncadas, abreviadas ou minúsculos desenhos chamados de “emoji”. Estamos voltando aos símbolos da escrita rupestre, aos desenhos primitivos das cavernas, à linguagem troglodita ou, quem sabe, à morte da literatura. Damião Ramos Cavalcanti
Das paternidades de Virginius
A Academia Paraibana de Letras, antes de completar seus 76 anos no dia 14 de setembro de 2017, arruma mais ainda sua bela casa “em taipa real” e já festeja outros motivos que aconteceram em torno da sua existência. Tornou-se um desses motivos Virgínius da Gama e Melo, ao liderar amor e dedicação às letras e à arte literária, em salas de aula, nos salões bordeleiros e no boêmio peripatetismo pelos bares da cidade. Virginius , sem ser formalmente da APL, faz parte do seu corpo; no Jardim de Academos, entre patronos e confrades, estão os considerados da família: Os líderes paraibanos Assis Chateaubriand e Virginius, imortalizados pelo bronze. O primeiro, enquanto empreendedor do jornalismo, espalhou letras pelos Brasil afora; e o segundo juntou letras, fez palavras, tecendo, para enfeite de jornais, revistas e vidas livrescas, tapetes literários de perfeita tecedura. Dois líderes imortais, lideranças que são mais virtude do que dom, originado de uma força intrínseca e virtual que se caracteriza nos seus efeitos e consequências. Longe da errônea conceituação, hoje comumente nos roteadores e gateways da internet, o virtual não deve se opor àquilo que é real, mas apenas ao imediatamente atual. Tal assunto vem, desde IV a.C., de Aristóteles: Uma pequena semente contém uma frondosa e frutífera árvore, e isso é virtual e real… Deseja-se dizer que se Virginius não foi biologicamente pai, mas com certeza, ao conter virtualmente paternidades em liderança, gerou-nos no gozo literário, prazer passado virtualmente a cada um de nós, que poderá experimentar as consequências da causa que sempre se prolonga no efeito. A APL desperta tal virtualidade às futuras ações e gerações através dos seus discursos: Numa noite esplendorosa, o acadêmico Sérgio de Castro Pinto, o historiador José Octávio de Arruda Mello, a Professora Raquel Nicodemos, o excepcional cronista Gonzaga Rodrigues, o escritor poeta e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho e o intelectual amigo do homenageado Wills Leal explicaram Virginius. E, finalmente, ao descermos do auditório, a voz poética de Carlos Jales, seguida pelo confrade Carlos Aranha, recitou virginianas, diante de uma mesa com copos usados, garrafas semivazias, livros entreabertos, jornais riscados, máquina de escrever com uma crônica inacabada e uma carteira de Lucky Strike ao lado um cigarro aceso, soltando fumaça. Em tudo se via Virginius. Damião Ramos Cavalcanti
Existir mais do que viver ?
Amigos e amigas andam indo embora sem se despedirem da gente, como é o caso , dias atrás, da amada Goretti Zenaide, apressada para escrever a festa de Ronaldo Mendonça na mais alta das coberturas. Por isto, sabemos aonde foram, onde estão: Pessoas tão boas como essas não conseguem, mesmo se quisessem, encobrir a grandeza das suas almas. Há quem viva, mas quase não tem alma; alguns a têm em abundância, morrem e, sem vida, continuam existindo, sendo “persona” além de indivíduos viventes, como se fossem imortais. Também porque, em vida, não tiveram alma pequena, como reflexos do verso de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Quando se compreendem tais quase mistérios, vive-se bem, transformando a vida em “existência que precede a essência”, num pensar sartriano, esplendor da liberdade que é mais valioso e duradouro do que a vida. Isto nos propicia felicidade: Existir em plenitude significa mais do que simplesmente viver, o que ensina outro contraponto: Ser mais do que ter… Mas em se falar de quantidade de vida, alvitra-se o tempo que, como a vida, parece passar rápido, tornando o dia em poucas horas, a semana em poucos dias e o ano em rápidos meses. Assim, o tempo nos causa desgosto ou cansaço quando corremos para alcançá-lo. Tempus fugit? Não, o tempo não foge, nem se altera. Somos nós que fugimos, por analogia, num trem em velocidade, postados na janela, vendo camponeses arando o campo, crianças brincando nos quintais, mulheres varrendo os terraços e animais pastando, indiferentes ao trem, como o tempo nem existisse. Nessa contínua viagem sem estações, às vezes, o tempo se diminui, causando-nos insatisfação, contudo, ele também nos agrada, mas passa, modestamente independente, intangível, invisível, sem ouvir reclamações ou elogios. É o tempo que se nega ou somos nós que nos negamos ao tempo? Damião Ramos Cavalcanti
Academia Paraibana de Letras homenageia Virgínius da Gama e Melo
Com o tema geral “Tributo ao Menestral”, a Academia Paraibana de Letras realizará uma sessão solene de homenagem ao escritor paraibano Virgínius da Gama e Melo, na próxima quinta-feira (10/8), às 18h, na sede da APL – Rua Duque de Caxias, 25/37, Centro, João Pessoa/PB. Na ocasião, ele será lembrado pela sua consagrada crítica, exposição de suas obras e documentário fotográfico. As palestras e palestrantes são os seguintes: Virgínius e seu universo crítico (Hildeberto Barbosa Filho), O cronista Virgínius da Gama e Melo(Gonzaga Rodrigues), Virgínius, um lorde professor (Raquel Nicodemos), O romance histórico em Virgínius (José Otávio de Arruda Melo), Réquiem para Virgínius: o guru “cultogênico” (Wills Leal). O escritor Virgínius da Gama e Melo nasceu em João Pessoa, no dia 19 de outubro de 1922, na Rua Nova, 171, atual Avenida General Osório. Foi único filho de Pedro Celso da Gama e Melo e Severina Figueiredo da Gama e Melo. O evento lembra quarenta e dois anos sem Virgínius, cronista, escritor, militante cultural e referência como homem das letras em todo o Brasil. Sua formação de crítico literário se iniciou em Pernambuco, onde fez suas primeiras vivências intelectuais, dinamizadas posteriormente ao vir morar, definitivamente, em João Pessoa. Fátima Farias – Assessora de Imprensa
Ronaldo Nunes Mendonça
O amigo Ronaldo, que se dizia meu primo por causa dos Nunes de “seu” Nen, casado com minha tia Zefinha, e assíduo leitor das minhas crônicas, depois de fazer o check-in , inesperadamente, numa súbita decisão que nem ele sabia, caiu no chão do aeroporto, em São Paulo, para partir num voo de infinitas alturas, alarmando os que não puderam acompanhá-lo. Morreu com saúde, não sofreu para morrer, saiu para a morte que tanto evitou nos outros, cuidando do nosso bem estar, sempre com voz mansa, com ininterrupto e largo sorriso. Alegria que se alargava, ao desfrutar, à mesa com os amigos, um bom vinho ou agregando-os numa mesma estrada. Após tantos congraçamentos, não se desligava das amizades, numa convivência agradável e disputada. Segundo os que o cercavam, como Manuel Jaime e Ricardo Maia, era Ronaldo uma pessoa de muita coerência com a vida ou numa vida de muita coerência, a serviço de quem dele necessitasse; exaltava a beleza da vida, tudo fazendo para que todos vivessem. Mas, enfim, a viagem e o caminho têm um sentido… De repente, ele, que tratava nossos pés indispostos ao caminho, teve seu coração em arritmia, porém, não parando de amar, apenas acelerando-se para voar. Penso que as almas bondosas são leves, desprovidas de matéria, voam como a energia etérea, atravessam galáxias, sendo mais rápidas do que naves alienígenas, velozes como o pensamento. Ronaldo, hoje, é alma e pensamento. Recorro aos versos da Ópera Nabuco, de Verdi, o desejo dos escravos aprisionados, rogando ao pensamento que se liberte voando alto, além dos montes. E assim falo a Ronaldo que, agora pensamento, vá além dos mares e dos céus: “Vá, pensamento, sobre as asas douradas,/ Vá e pousa sobre as encostas e as colinas,/ Onde os ares são tépidos e macios,/ Com a doce fragrância do solo natal (…)/ Oh! Minha pátria tão bela e perdida,/ Oh! Lembrança tão cara e fatal,/ Harpa dourada de desígnios fatídicos,/ Por que, você, a ausência da terra querida?/ Reacende a memória no nosso peito,/ Fale-nos do tempo que passou!(…) / Para suportar o nosso sofrimento.” Damião Ramos Cavalcanti
Cineclube Verbo & Imagem apresenta: Lanternas Vermelhas
A Academia Paraibana de Letras apresenta em sessão gratuita o cineclube Verbo e Imagem, que exibirá Lanternas Vermelhas com comentários da Mestra em Direitos Humanos Thamara Duarte. Direção: Zhang Yimou 27 de julho (última quinta-feira do mês) às 18 horas.
Sonhar um sonho
Ensinaram-me, desde criança, a história de José do Egito interpretando o sonho do Faraó, avisando-lhe tempos de vacas gordas, tempos de vacas magras. E assim aprendi que sonhos acontecem e fazem acontecer como anúncio do bem ou como alerta do mal; desses, alguns são sugestivos ou tão assombrosos que nos fazem pensar o dia inteiro. Muito mais considerado do que o horóscopo, o sonho vem de dentro da gente, mesmo assim dizendo-nos coisas estranhas, todavia ditas pelo nosso inconsciente, o que para Freud seria a manifestação de um intenso e reprimido desejo. Temos vivido nacionalmente circunstâncias indesejáveis, as mesmas repetidas ou criativas formas de corrução, de modo descarado; tanto é assim que recentemente se comentam, como nada acontecesse, e divulgam as imagens, os números e os corrutos indo e vindo, em fila, para compra de votos ou de políticos para uma votação no Congresso; tudo isso quase sob o indiferente silêncio dos que deveriam criticar e provocar a opinião pública. Mas isso não nos desestimula a sonhar. Martin Luther King, esplendorosamente, só nos revelou um: “I have a dream” ou “Eu tenho um sonho”; e com essas palavras deu o recado de um sonho coletivo contra a discriminação racial. Mataram-no porque confessou a força desse desejo. Há quem empregue o sonho em coisas menores, como apenas na de acertar no jogo do bicho, porém, eu e tanta gente sonhamos que haverá um Brasil melhor: Sonho que só se tem acordado e não pertence à abordagem psicanalítica, tampouco simbólica, mas substancialmente política. E o que falta? Saber votar, agir, antes que esse sonho se acabe. A esperança de que esse premonitório desejo se cumpra nos livra de pesadelos, promete um país mais justo, de maiores igualdades e seriamente democrático. Somos capazes de sonhar um sonho… Damião Ramos Cavalcanti
Mais cínicos do que demagogos
A demagogia, dentre seus significados, sofreu uma grande variação de sentidos como a democracia; aliás ambas têm a mesma raiz do grego: Demos ou o povo. Demagogia, ab origine, refere-se à “arte ou o poder de conduzir o povo”. Teve sentido ético e construtivo, mas os condutores do povo se tornaram condutores de si mesmos à busca dos seus interesses, transformando a política em profissão, com aposentadoria e outras regalias, menos em serviço do povo à conquista dos seus direitos e à educação dos seus deveres. Assim “demagogo” passou a significar o sentido pejorativo de “enganador do povo”: Aparenta altruísmo, humildade e bondade, mas tirando-lhe a capa de ovelha, descobre-se o lobo voraz, egoísta, vaidoso e ganancioso. Há esperança que, nas próximas eleições, elimine-se parte desses corrutores e enganadores. Todos os corrutos são cínicos, mas nem todos os cínicos são corrutos; sobretudo se alguns desses praticam lampejos do Cinismo, filosofia de Antístenes: A felicidade provém da vida simples, dos valores e dos prazeres naturais, e não dos artificiais: Riquezas e poder sem limite, apegos, pudores, convenções sociais contrárias à maneira da vida canina; daí kynismós vir de cão (kynos). Também adulteram a genuína prática e significado do Cinismo como lhes convém: Falta de caráter, indiferença aos valores e à ética, imprudência, desfaçatez e descaramento. Os protagonistas da corrução, nos poderes, têm assumido publicamente a postura, no sentido pejorativo, de serem mais “cínicos” do que “demagogos”: Publicamente banqueteiam-se com recursos do erário para negociar maquinações, votos, favores e propinas; se são réus, designam seus julgadores; reúnem -se, às caladas da noite, para combinar vantagens e ilícitos; viajam num mesmo avião particular para um mesmo destino, e, cinicamente, “para não parar o país”, proclamam-se inocentes e perseguidos… Damião Ramos Cavalcanti
Mi Buenos Aires querido
Antes de um plano, de um livro, de um poema ou de um tango, nasceu a cidade, num longo parto, conturbado por atropelos e lutas dos nativos contra os espanhóis que invadiram aquelas terras, pelas águas do Rio de la Plata. Cresceu a vila atravessando duas fundações e, já cidade, também o período colonial, o vice-reinado, a independência, a guerra civil, a proclamação e a histórica implantação da República. Durante a República, los queridos porteños não sofreram tantas dificuldades socioeconômicas como, depois, os cruéis, sucessivos e violentos golpes políticos com suas prisões, torturas e falta de liberdade, o que, nos dias de hoje, parece ter se tornado vigilante antídoto, nas escolas, nas universidades e na cidadania, contra novas tentativas golpistas, características de fatais enfermidades da democracia na América Latina. Buenos Aires ostenta expressiva cultura. Tive o prazer de perceber isso, quando frequentei a belíssima Universidad de Buenos Aires (UBA), ladeada pela Floraris Generica, do arquiteto argentino Eduardo Catalana; a UBA é reconhecida como uma escola de professores, filósofos e jurisconsultos de renome; também compreendi isso nas vozes da rua, nas mesas dos restaurantes e bares, circundadas por exaltadas opiniões sobre política, futebol, arte e assuntos literários; ou até, de surpresa, num táxi onde o motorista me esperava ouvindo uma ópera… Comparando a Argentina com países vizinhos, por lá, a educação muito se esforçou para dizimar o analfabetismo; e isso se indicava pela abundância de sortidas livrarias nas suas portentosas calles. O operoso Governo do Estado da Paraíba, de modo planejado, inaugura, com a empresa Gol, um voo internacional, que promete regularidade e conforto de viagem, entre essas lindas cidades: João Pessoa e Buenos Aires; e, conforme esperançosos bons resultados, duplicar ou triplicar esses voos. Hoje, primeiro de julho de 2017, sou um dos passageiros, a um seminário onde se cultivam ricas sementes, bosques de altivas árvores e prazerosos frutos. Assim João Pessoa deseja Buenos Aires: Mais perto do que distante, mais querido do que querido. Damião Ramos Cavalcanti
Cineclube Verbo & Imagem apresenta: A última estação

A Academia Paraibana de Letras apresenta em sessão gratuita o cineclube Verbo e Imagem, que exibirá A Última Estação com comentários da Professora Ana Adelaide Peixoto. Direção: Michael Hoffman 29 de junho (última quinta-feira do mês) às 18 horas.