Lançamentos dos livros
Convidamos V.Sa. para o lançamento dos livros <OS LIVROS (a única viagem)> e <As palavras, minha vida!>, de Hidelberto Barbosa Filho. Data: 5 de maio de 2017 (sexta-feira) Hora: 17:00 horas Local: Academia Paraibana de Letras – APL (Av Duque de Caxias, 37, Centro)
Julgar sem perseguir ou proteger
Porque perseguir ou proteger não é próprio de quem julga… Juiz não pode ser amigo do réu, nem tampouco inimigo. Se com parcialidade, torna-se o juiz também réu. Como se praticasse um jogo de “cartas marcadas” entre o julgador e o acusado, tendo sempre o primeiro tendencioso poder para vencer e condenar o acusado. Quando caberia ao juiz buscar tão somente a evidência demonstrada e comprovada nos autos; e ele, tomado de imparcialidade, sem interesse para que seu “amigo” ou “inimigo” ganhe ou perca o jogo. Há quem condene mesmo com a acusação desprovida de fundamento. Pode o juiz ter amigo ou indesejadamente inimigo? Pode, isso é uma obviedade, mas não se ignore que seus amigos ou inimigos não devem ser julgados por ele, o Juiz. Um dos momentos mais felizes do Código de Processo Civil trata da imparcialidade da Justiça nas mãos de quem julga. Sobre tais casos, o princípio ético é radical: Que o juiz entregue o Processo a outro julgador. Lembro-me dos termos em latim, aprendidos no Curso de Direito: Quando o juiz tem, com o réu ou requerente, relação de parentesco, de amizade, de simpatia ou de antipatia, deve eticamente, de sã consciência, declarar-se incompetente “ratione personae” a evitar desconfiança de que ele tenha tido interesse em atender às pretensões de alguém ou, quem sabe, dele próprio… O juiz , quando demonstra essa tendenciosidade por motivação religiosa, ideológica, política, partidária ou por outras razões, obriga-se a pedir nova distribuição, sentindo-se impedido à função de julgar; não deve contudo alegar impedimento para apenas mascarar omissão. Verificam-se, na midia, determinados magistrados declarando-se simpatizantes, antecipando-se à conclusão do Processo ou até manifestando-se antes da confirmação das provas. Se a Justiça veda os olhos para não sentir tais motivações, imagine como peca o julgador sentenciando segundo o seu gosto, mastigando, salivando, já ab initio, com a decisão pronta do que vai engolir… Enfim, julgar é proferir juízo, jamais, subjetivamente, opinião. Damião Ramos Cavalcanti
Flávio Colaço
Quando ele chegou de Roma, mesmo depois de ter comido tanta massa na Itália, pesava como qualquer franzino, alto, delgado, ectomorfo: Característica corporal de intelectualidade. Modesto, escondia-se por trás das lentes de vidro transparentes que nos deixavam enxergar seu raro sorriso, suas poucas palavras, e sua fisionomia plácida e sincera. Manso, dessas poucas palavras nenhuma pronunciada fora do polido tom, sempre reconfirmando um homem cortês e civilizado. Contudo uma pessoa simples, demonstrando simplicidade ser fundamental à amizade e ao confortável relacionamento humano. O Reitor do Seminário logo o designou à docência; aos maiores para explicar as regras do Direito Canônico; aos menores, as regras da gramática. Ensinou-nos, com paciência, redigir, inventar imagens, mas sobretudo não desvirtuar o idioma pátrio. Tinha obsessão em colocar ponto no seu devido lugar, sobretudo a vírgula que se dividia , uma vez ou outra, com o ponto e vírgula. Tenho na memória que orientava, nas nossas redações, evitarmos a repetição da interrogação. Pois, usava uma linguagem afirmativa, de certeza, quando não, de fé. Agora, trasladou-se para outra cidadania, cuja cidade se vislumbra diante das suas tantas exclamações. Meticuloso em tudo que fazia, naquilo que escrevia. Uma escritura que buscava a verdade, oferecida a todos, porque lhe importavam a substância e a universalidade das coisas, numa arte que propiciasse comunhão. Meu professor, meu companheiro de ensino na Universidade, meu vizinho e meu amigo. Recentemente, eu e Gonzaga Rodrigues o visitamos no Hospital, mesmo sofrendo, ele nos ofereceu um franco e largo sorriso que preservou até os derradeiros momentos da visita. Agora morreu, voltou à serenidade e à indisfarçável circunspecção trazida de Roma. Sobre suas potencialidades, concluo que, sendo a vida tão curta, o homem não é apenas aquele que foi, mas sobretudo o que poderia ter sido; morreu, agora, ele é perfeitamente completo… Damião Ramos Cavalcanti
Cristovam Tadeu no Dia da Criação
O poeta Vinicius de Moraes, mestre da boemia como Tadeu, diz e rediz, desde 1946, em versos, como se fossem uma jaculatória de ladainha, que tudo que aconteceu ontem foi porque era sábado. Até “(…) Os bares repletos de homens vazios, / Todos os namorados de mãos entrelaçadas, / Todos os maridos funcionando regularmente, / Todas as mulheres atentas”; e continua: “(…) Há um casamento / Há um divórcio e um violamento / Porque hoje é sábado “. “Impossível fugir a essa realidade”, num sábado morreu Cristovam Tadeu porque era sábado. Luana, sua jovem filha, estranhou não ter ele se acordado cedo como em todas as manhãs, e continuado pesado sono, dormindo e transformando domingo, segunda, terça, quarta, quinta e sexta num só dia; tudo tinha virado sábado, só sábados sem necessidade de contar o tempo em horas, sem denominar os outros dias. Mas contradizendo o poema: As mulheres, que tanto lhe prestavam atenções, não estavam atentas ao que, na sua cama, ocorria; com certeza, tentariam acordá-lo e não deixá-lo dormindo para amá-lo. Encontrariam pretextos, haveria compromissos na Rádio Tabajara, algum show ou teatro infantil no Santa Roza. Na certeza que ele se acordaria, desatentas, deixaram que ele descansasse… Seguiu-se o poema, tinha ele iniciado “um espetáculo de gala” porque era sábado; sem intermezzo, mais longo do que óperas; dramático, trágico: O protagonista Tadeu, que sempre nos fazia sorrir, deixou-nos chorando. Enfim, diante de seduzidos e seduzidas, Cristovam assumiu o papel de “um sedutor que tomba morto (…)/ Há uma tensão inusitada”, exatamente após a sexta-feira. No velório, “(…) damas de todas as classes, / Umas difíceis, outras fáceis”, entre homens com e sem qualidades, viram, sem perspectiva de domingo, um fim da criação, Cristovam partindo e imitando o Criador ressurgente. Morreu porque era sábado, se fosse Domingo de Páscoa, como hoje, teria apenas ressuscitado… Damião Ramos Cavalcanti
Cineclube Verbo & Imagem com apresentação de NERUDA
O Cineclube Verbo & Imagem apresenta em sessão gratuita com comentário da professora Elizabeth Maia Nóbrega NERUDA Com direção de Pablo Larraín 27 DE ABRIL (ÚLTIMA QUINTA-FEIRA DO MÊS ÀS 18 HORAS) Informações: (83) 3221-8741
Ressurreição aos que não viram
Ninguém pensa mais sobre a morte do que o vivo. Dever-se-ia meditar sobre a ressurreição; ora, os mortos não precisam disso, mas os que vivem, pelo menos, poderiam combinar pensamentos sobre o que fariam, se tivessem pouco tempo de vida, já que todos acham a vida muito curta… Especialmente sobre a ressurreição como retorno à vida infinitamente melhor do que a que se tem. Porém, com dias contados, relevam-se prazeres, últimos desejos: Viajar por maravilhas ainda não vistas ou pelas vistas para se reviverem recordações; escutar músicas dos velhos tempos ou as clássicas parecidas com as celestiais; pescar e soltar o peixe; usufruir o carpe diem antes que o dia se acabe; e amar mais. Talvez finais exigências: Féretro sem cortejo ou preferir enterro à cremação . Contudo, na Semana Santa, aos sãos ou enfermos, é tempo de Páscoa. Jesus Cristo, na certeza que morreria e ressuscitaria, falou-nos ricas revelações. Paulo de Tarso adverte: Não é cristão quem nega que Jesus ressuscitou. O que aconteceu àqueles que O seguiam, taxando de “visionárias” as mulheres que, ao visitarem o túmulo, teriam escutado de um anjo: “Não temais! Sei que estais procurando a Jesus, o crucificado. Ele não está aqui, ressuscitou, conforme havia dito… Ide contar aos discípulos que Ele ressuscitou dos mortos. Elas partindo depressa, com temor e alegria, correram a anunciá-lo aos seus discípulos” (Mt 28, 5 – 8). É compreensível que o recado passado aos discípulos lhes tenha provocado pouca fé, assim acontece conosco, ao se considerar tal mensagem fantasiosa. Mas Jesus surpreende: Perdoou a rudeza daqueles pescadores, passou pela porta fechada e se apresentou a eles; ausente estava Tomé que exigiu tocar nas feridas do crucificado para crer. Dias após, reaparece Jesus e desfaz o ceticismo de Tomé: “Põe teu dedo aqui nas minhas chagas e vê minhas mãos! (…) Não sejas incrédulo, mas crê! (…) Creste porque viste. Felizes os que não viram e creram!” (Jo 20, 19 – 29). Nós não vimos, mas podemos crer… Damião Ramos Cavalcanti
Dom Marcelo, um dom carvalheiro
“Dom” não como abreviação de dominus, mas seguindo o poeta Manuel Bandeira: “Prova, olha, toca, cheira, escuta. / Cada sentido é um dom divino.” Sou grato a Deus pelas magnânimas pessoas que tenho encontrado pela estrada da vida, e por suas próprias bondades. Uma dessas foi o Padre Marcelo Pinto Carvalheira, Reitor do Seminário Regional do Nordeste, em Camaragibe da Grande Recife, por onde vivi quase um ano, antes de ir, em 1966, estudar Filosofia em Roma. Desembarquei em Napoli no dia 27 de setembro, por coincidência, dia dos irmãos São Cosme e Damião; naquele porto, quatro amigos testemunharam essa alegria: Guilherme Carvalheira, Antonio de Souza Sobrinho, Marcelo Augusto Veloso e Gervásio Queiroga Fernandes. E quanto mais conhecia o estranho Continente, mais amizades com magnitude encontrava, desculpem-me os que agem ao contrário do bem, mas há muita gente boa nesse mundo. Distante, Padre Marcelo me acompanhava através do já considerado antigo costume, a carta. Dom Marcelo Carvalheira é pérola que se acha e tudo se faz para não perdê-la, não deixar que ela volte ao mar; assim, foi enviado para ser Bispo de Guarabira (1981), cidade que entrou inevitavelmente também na história da minha vida; veja-se que depois de procurar nas principais cidades do Nordeste, somente em Guarabira achei transporte, o velho omnibus da Expresso Paraíbano, de Gustavo Amorim, para viajar ao Rio de Janeiro, de onde parti no navio Giulio Cesare que, durante treze dias, levou este então jovem de 19 anos à Europa. Retornando, em 1970, logo o amigo Padre José Paulino me convidou para criarmos a primeira escola superior, depois da de Campina Grande, no interior da Paraíba. Onde? Em Guarabira: A Faculdade de Filosofia , Ciências e Letras de Guarabira – FAFIG, hoje UEPB, onde fui professor fundador e seu segundo diretor. Casei-me com a guarabirense Maria Luiza e, quando procurei casa para alugar na Praia de Manaíra, em João Pessoa, só encontrei a de Otinaldo Lourenço, na Avenida Guarabira. Até hoje, que o digam Ana e Ademar, essa rainha do brejo me é benfazeja. Em 1995, Dom Marcelo é nomeado Arcebispo da Paraíba; instruído por livros e “animado” pelo Espírito, pregou entre nós a natureza teândrica e mística da Igreja, zelando o ânimo da sua ação apostólica, da sua maturidade na fé. Agora, a Arquidiocese o abriga na Basílica de Nossa Senhora das Neves, restando-nos seu exemplo, seu lema Evangelizare ou o mandado de Jesus (Mt. 28, 16 – 20): “Ide e ensinai”. Damião Ramos Cavalcanti
A carne é fraca ?
Naquele tempo, disse Jesus: “O espírito é forte, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41), falando da “fraqueza” de todos nós, dos policiais, dos juízes, dos nossos políticos, sobretudo dos que costumeiramente corruptos certamente justificam suas corrupções: “Furtei porque a carne é fraca”. A Polícia e alguns Magistrados de Curitiba se referem à carne de boi, de vaca, de porco, et caterva, trazendo também à lente frangos e perus … Já os vegetarianos a consideram muito forte, preferindo algumas amenas folhas à carne. Os judeus não comem a suína, mas adoram outras carnes , desde que delas se retire a última gota de sangue, o que significa nem pensar em “galinha ao molho de cabidela”, tampouco no sertanejo chouriço, feito de sangue de porco, especiarias e açúcar. Os budistas sublimam: Não comem carne porque não abatem seres vivos. E pobre não come carne, mesmo “fraca”, porque não tem dinheiro… O dinheiro provoca essa confusão: Alguns tentando corromper a qualidade e a quantidade da carne, quem a compra e quem a revende; e também os que botam a boca no trombone midiático para difamar o Brasil no comércio lá de fora; até os chinos educados por Mao Tsé-Tung a criarem em casa e comerem codorna. A China, sendo a maior população do mundo, é a maior compradora, assim aproveita dos boatos para suspender os negócios e renegociar o preço. Mas em abstinência não ficarão… Quando estourou a Usina de Chernobyl, os concorrentes se valeram desse acidente nuclear para espalhar que fortes ventos atômicos teriam contaminado a carne na França, sobretudo sua especialidade : Carne de vitela ou viande de veau. Essa confusão causa vários imbróglios: Uns dizem que tudo teria sido planejado para atenuar a Lava Jato porque a vez a se delatar é a dos ministros, ministeriáveis e aliados seletivamente dos partidos no poder; também que tal difamação é motivada por interesses de certo país que perdeu a hegemonia da carne para o Brasil; ainda, ocasião em que países suspendem a compra para renegociar o preço; e agravando a economia, o Presidente dá aos embaixadores churrascos corridos, discursando e mordendo picanha para provar que a carne é boa. As notícias televisivas são freiadas e advertidas a baixarem o tom; também a Polícia recua e confessa não ter sido o que se pensou; o prejuízo motivou escrúpulo.”Carne fraca”, neste país, nunca deixou de existir, ostensivamente, ao lado da sujeira e dos esgotos nos matadouros e mercados públicos; durante concentrações urbanas, nos espetinhos temperados com poeira do asfalto e rica diversidade de bactéria ou à beira das estradas vendendo-se o boi que morreu. Enfim, o objetivo quase foi atingido, nanja totalmente. O preço da carne vai baixar, desde que haja nos açougues a “carne fraca” para os pobres e, a “forte” para os ricos, tal qual exigida pelos compradores estrangeiros. O prejuízo ameaça ser imenso, a trama não compensou… Damião Ramos Cavalcanti
O São Francisco nos socorre
O Rio Paraíba, o maior curso d’água que se origina e termina neste Estado, descia às carreiras a Serra de Jabitacá, estendendo-se, de mais de mil metros de altitude, em direção ao quintal da minha casa; suas águas passavam por lá para completar, em Cabedelo, seus 380 km de extensão. Quintal por assim dizer, mas era um sítio, que separava a casa e a margem esquerda do rio. Naqueles tempos de infância, em Pilar, vez ou outra, o rio visitava esse quintal, provocando traquinices de menino, tornando minha infância parte das suas enchentes. O rio caudaloso passava, carregando árvores, canoas, bodes, bois e cavalos que, distraídos, eram arrebatados do pasto. E meu pai Inácio, cauteloso, mostrava a mim, Marilene, Ivan e Mariluce, o que era a cheia. Se a enchente me atemorizava, mais medo fazia ao escutar, no velho rádio ABC, ela cobrindo a ponte e invadindo casas em Itabaiana. Sivuca sofreu muito esse aperreio, ao morar logo à vista das águas, no outro lado do rio, no distrito de Campo Grande. O Rio Paraíba, no inverno, formava de Itabaiana, Pilar, Espírito Santo e Santa Rita uma só comunidade sofredora sob ameaças de inundação. As conversas da minha mãe Lia com Dona Lita e Dona Vicenza apavoravam as crianças, contando história de “dilúvio”, de Noé, da Bíblia como “castigo para lavar o sujo no mundo do pecado”. No entanto, a inocente meninada usava tal medo para não se afogar… Hoje, o medo virou o contrário do da enchente, teme-se que o rio seque. A cada dia, seu leito quase totalmente nu, despido d’água, mostra suas areias aos que lucram em vendê-las. Mas, sexta-feira, 10 de março de 2017, vi o bendito São Francisco socorrer o “irmão rio” com abundantes águas, trazendo ao Paraíba uma enchente, nunca vista, permanente e independente de chuva. Dessa milagrosa transposição, donas de casa de Monteiro encheram garrafas como se estivessem colhendo “água benta” para curar outros males. O Governador Ricardo Coutinho, com sua peculiar coragem, agradeceu, com justiça, a todos que colaboraram para que o milagre descesse dos céus às terras do Cariri e do Sertão: Ao Ministro Helder Barbalho, incansávelmente presente às necessidades da Transposição na Paraíba; ao atual Presidente Temer que assumiu interesse de apoiar e acompanhar a conclusão da obra; a então Presidente Dilma, tendo ao lado Temer como Vice, feitora de 71% daquele histórico momento, e ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, iniciador, obreiro das primeiras e firmes pedras da sapata e que erigiu altas paredes das represas ou os túneis nas montanhas. Enfim, suas palavras maravilharam mais ainda aquelas águas e a assistência, quando disse a pérola de todos os discursos: “Essas águas não só acabam nossa sede e a seca que atormenta a natureza, mas, sobretudo e definitivamente, afogam o coronelismo político, antigo e atual, que chantageava essa necessidade do povo em troca de enganosas soluções: Latas d’água, carroças e carros-pipas. Contra essa má política e para o bem do povo, a Transposição do Rio São Francisco traz libertação ou águas que significam liberdade”. Damião Ramos Cavalcanti
Ciúme, fatos, coisas e crime
Por trás da Floriano Peixoto do Alto dos Currais, em Itabaiana, morava Biu do Cavalo; o bicho, desde seus tempos de potro, servia ao dono em tudo: Puxava a carroça de mudanças; carregava caixas de sapato da fábrica de Seu Osório à Estação Ferroviária, vendidas a Timbaúba e Campina Grande; tinha um admirado trote que levava Biu às festas, à Igreja e ao mercado; e em nada dava trabalho, abastava-se do capim em torno da casa, cujo muro, à noite, Biu gostava de pular, a destino, até hoje, ignorado. Sua mulher, por coincidência, Severina, nutrindo doentio ciúme e os fuxicos das “amigas” da vizinhança, dizia que tudo sabia: “Ele não me engana…” Assim, escolheu uma da sua rua, a quem Biu sempre sorria, para ser sua rival. E, nos fins das tardes, quando via o escolhido pivô do ciúme sentado na calçada, reforçava sua raiva, em voz baixa: “Por que ela? Sou melhor em tudo”. Lembro-me, por outro lado, que os homens, batendo papo no Bar de Adonias, antes do último gole, lambiam os beiços e defendiam-se: “Mulher com muito ciúme não presta, dá nisso”… Severina conhecia como ninguém os gostos de Biu. Então lhe preparou seu almoço preferido: Feijão verde; num copo americano, caldo com coentro; farofa d’água com cebola e galinha torrada com muita graxa, alho, cebola, pimentão e cheiro verde. Em cima dessa comida, Biu se derretia de prazer e na mania de comer fazendo com a mão bolinho de feijão, receita de mãe a menino enfastiado, entretendo-o, chamando a comida de “pintinho” ou de “cavalinho”. Quando estava Biu levando um desses bolinhos à boca, Severina quebrou-lhe o pescoço com um pino de engatar trem que ela arrumara na Estação do Triângulo, onde se revezavam os trens para fazer baldeação de vagões e mercadorias. Restou-nos forte lembrança de Biu morto, trancando na mão um bolinho de feijão e das vizinhas defendendo Severina: “Coitado de Biu, mas quem aqui apronta aqui paga…” Damião Ramos Cavalcanti