As cinzas da quarta-feira

                Há quem, na quarta-feira de cinza, cantando que ela “chega tão depressa, só prá contrariar “, chore o fim do carnaval porque, com ele, acabam-se a folia, o disfarce, a liberação maior do sexo, os descomedimentos, as simulações, as dissimulações e parte das irresponsabilidades. Terça-feira passada, três vezes escutei: “Vai voltar tudo de novo”, o que quer dizer também enfrentar novamente preocupações e trabalho, mesmo que alguns continuem indiferentes a essas duas duras realidades…          Há também quem, supervalorizando a produção, não chore porque só conta os dias úteis e os seus ganhos, motivação que se hipertrofiou ao lucro e que enfada qualquer “dia santo” ou feriado. Discordo de tais excessos: Assim como esses hiperativos têm suas festas, batizados, casamentos e aniversários, a coletividade carece de suas comemorações para enaltecer pessoas e fatos que representaram e representam exemplo de vida cristã, cívica ou cidadã, datas que se consagram até por martírio ou heroísmo. Esses dias também são, sociologicamente, lazer: Mérito de quem goza as consequências do trabalho; repouso necessário à  suficiência do trabalho para viver e não viver exclusivamente para trabalhar.             Mas, as cinzas materializam o fim daquilo queimado pelo fogo, daquilo de que ele tirou o último resquício de vida. Não é por menos que, nos sepultamentos, recorda-se a crucial admoestação: “Lembra-te, homem, que tu és pó e ao pó tu haverás de tornar” (Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris, Gn 3, 19); o que também é dito na liturgia da quarta-feira, quando o Bispo desenha com  cinza uma cruz na sua testa. Essa cinza não simboliza a quarta-feira, mas a cinza de todas as quartas-feiras, de todos os dias, do que restou e do que restará da vida. Damião Ramos Cavalcanti        

Adeus, Colombina; adeus, Pierrô

         Aqueles seis fantasiados ou os “seis bandidos mascarados de papangu que  invadiram uma festa (…), estupraram seis mulheres e mataram duas delas”, sem serem “eleitos”, sem “foro privilegiado”, logo foram presos, e detalhou-se a notícia em fotos, plano e execução do crime, explicações jurídicas e psiquiátricas. De pronto, o Ministério Público  proibiu, em Queimadas, o uso de máscara durante o Carnaval, evitando medo de papangu andando na rua. As crianças de hoje não se amedrontam tanto como as de antes. Talvez, confiem na sinceridade das máscaras e fantasias, compreendendo melhor essas assombrações.          Já em Pilar, espiava na Rua José Lins do Rego, pela fechadura e frestas da porta como se fossem monóculos, o papangu no outro lado da rua, na calçada da casa de Zezita Mattos. Preferia o “alaursa” ao papangu de caráter indefinido, ora como bruxa, ora com cara de lobo, de lobisomem ou de homem mau. Consolava-me tia Dulce: “O “alaursa” só gosta de mel e fica contente com qualquer dinheiro”; e lá se ia ele à caça de outra moeda. Assim, os carnavais da infância se caracterizaram como meus primeiros medos.       Parecia esperarmos o Carnaval mais de doze meses; também poucas festas havia como aqueles carnavais que se destacavam entre as festas juninas e as da Padroeira. Hoje, dentro ou “fora de época”, acontecem festinhas, festas e festões, shows com  bebidas e, lamentavelmente, drogas; o Carnaval se tornou apenas uma ocasião a mais, logo chega e logo se vai. Meu amigo Chico Buarque, do tempo dos saudosos carnavais que inspiravam poesia, cantou: “Quem me vê sempre parado, / Distante garante que não sei sambar (…) / Eu vejo as pernas de louça/ Da moça que passa e não posso pegar… / Tô me guardando pra quando o carnaval chegar (…) ” Chegou liso e efêmero o Carnaval; com ele, debaixo da fantasia, o bicho que nos pode pegar, roubando-nos o samba, o frevo e a alegria de brincar. Assim esperamos o Carnaval passar, diferente dos passados carnavais que talvez não voltem mais. Até então, adeus, Colombina; adeus, Pierrô.   Damião Ramos Cavalcanti    

A cultura da fila

        Sem fila, a humanidade não anda, não sai do lugar e padece de competitivo empurra-empurra; é muita gente para passar, de uma só vez, pelo gargalho da garrafa; mesmo que se inverta: Troque-se a boca pelo fundo da garrafa; não, não precisa quebrar vidro, tampouco fila.  Os índios, na floresta,  caminhavam em fila para um apagar o rastro do outro,  evitando os inimigos descobrirem seu caminho; daí, “fila indiana”.  Pelo nome “indiana” parece ser a Índia criadora desse costume, populosa quase como a China, então carente de filas. Por sua vez, os chineses  não cultivavam o uso da fila. Antes das Olimpíadas de Pequim (2008), treinaram para mostrar ao mundo que chino sabe esperar a sua vez; via-se muita gente entrando num ônibus sem fila; formavam multidão, mas, não, fila. A confusão vem ensinando-lhes tal necessidade.       A França usa com seriedade esse costume, praticando o respeito à fila. Em Paris, ao chegar numa peixaria , não pergunte se tem truta; o peixeiro calado ficaria, e logo seu severo olhar e os em fileira repreenderiam: “Vá pra fila”. Já o Brasil bate recorde de “furadores de fila”, o que provém da mania obsessiva do “brasileiro querer ter vantagem em tudo”, do prazer em passar na frente dos outros, justificando-se: “É rápido, é só isso…” Em várias ocasiões, pratica-se tal má educação; no banco , na padaria , na entrada do campo de futebol, também na Igreja e , sobretudo no trânsito interrompido, quando o “cara de pau” corta pelo acostamento, definindo o “furador de fila” como corrupto potencialmente  pronto a maiores corrupções. Tais desregrados só não cortam a fila daqueles que vão morrer…          Mas, “prá tudo há exceção”, há quem gentilmente ceda seu lugar, porém sem ir para trás da fila, ao lugar do beneficiado… Cito Waldiza, contemporânea de adolescência, que encontrei sozinha no caixa especial do supermercado, e,  gentilmente, depois de um rápido “como vai”, cedeu-me o lugar:”Pode passar”. Recusei: “É sua vez”. Então ela se explicou: “Só uso esse Caixa, quando não há idoso”…  Damião Ramos Cavalcanti

“Minha Amada Imortal” é O filme desta quinta, no “CineclubeVerbo & Imagem”

Um dos mais importantes filmes já realizados sobre Ludwig Van Beethoven, “Minha Amada Imortal”, será exibido, nesta quinta-feira, última do mês, dia 26 de janeiro, às 18 horas, no Cineclube”Verbo & Imagem”, da Academia Paraibana de Letras, Rua Duque De Caxias, 25/37- Centro. “Minha Amada Imortal” conta a história de Beethoven numa forma romântica e aventureira. Tudo se baseiana novela/roteiro de Bernard Rose, sobre um testamento que o genial compositordeixou,dedicado a uma “amada imortal”, sem especificar o nome da . Narra uma palpitante jornada, tentando encontrá-la,e, ao mesmo tempo, revelando facetas desconhecidas do imortal músico. Após sua exibição, será a película comentada por Ilza Nogueira e Leopoldo Nogueira, ambos cinéfilos e doutores em música. Entrada franca. Produção Anglo Americana, de 2003, dirigida por Bernard Rose. Elenco: Gary Oldman, Isabella Rossellini, JeroenKrabbe.  

Morre João Bosco, da casa dos Fernandes

          Cada um que falasse melhor do que o outro. Na terra deles, Uiraúna, há muitas escolas de música e consequentemente músicos. Contudo, entre os Fernandes, o dom não era o musical, mas o da fluidez das palavras, talento de berço e aperfeiçoado em família. Talvez  por essa razão, José Fernandes da Silveira, conhecido por Dedé, não se ufanava de saber tantas palavras, tendo tal dote como uma  coisa natural. Quando as falava, nunca as repetia. Suas frases, tais quais vaidosas mulheres, vestiam-se de roupa nova ou só saíam à rua provocantes, quase nuas… Todos os irmãos  nada esqueciam, mas a memória de Dedé, o cego, era excepcional, um rico dicionário, com sinônimos e antônimos, e até com crônicas, versos e prosas. Repetidor impecável , à boquinha da noite, sentado na calçada,  dos sermões do irmão, o bispo. E, tratando-se de discursos,  ninguém superava o Padre Luís Fernandes que mereceu o bispado, mais pelos seus sermões do que pelas suas tidas virtudes; mais pela sua intelectualidade , do que pela fé em possíveis inspirações  pentecostais.          João Bosco Fernandes era uma mistura desses prodígios. Deliciava-se em saborear a palavra no beiço, sorrindo, e botando-a pra fora. Por isto, sem esforço, seus lábios loquazes não se fadigavam, diziam-na, numa dicção invejável, num tom de barítono, ponderando a gravidade sonora com o peso do significado. Jamais alguma palavra fora do lugar, fora de sentido, nisso, um professor. Guardo o livro Introdução à Literatura Brasileira, de Alceu Amoroso Lima, que ele adotou para suas aulas no Seminário Menor. Era uma aula divertida, misturava humor sertanejo com o português castiço de Camões ou do Os Sertões, de Euclides da Cunha; e de repente, estava ele a declamar O Grande Teatro do Mundo, de Calderón de la Barca, fazendo da sala, teatro, e dele, o protagonista.        Versatilidade com as palavras mostrava-se coisa da família.  Entristecia-se,  escutando-os, quem pouco soubesse… A mureta do Patamar da Igreja, onde se reuniam ao dia, era substituída, à noite, pela calçada da casa do pai Didi, onde, após o jantar, admiradores ouviam sarcásticas ironias, histórias e Dedé no seu palco. João veio estudar e ensinar em João Pessoa; ambém o irmão bispo, filósofo, aqui, alhures, em Roma, imitando o que admirava: A erudição do então cardeal Eugenio Pacelli e, depois, os saberes, do Papa Pio XII. Choram seus inteligentes parentes como Aécio Pola, José Neumanne e o genial amigo Padre Gervásio Fernandes, que também aprenderam, na terra seca de Uiraúna, versos de Anchieta escritos nas areias molhadas da Praia de Iperoig, em Ubatuba… Já Dedé nem via, nem lia, certamente aprendeu com o vento. Sem mapa,  distinguia pelo cheiro ou pelo tato as casas conterrâneas, as ruas e os becos ou, de cor, as metrópoles, até as estrangeiras, aonde pôde viajar o bispo, dileto irmão de João. As palavras se calaram, esses irmãos esvaziaram a pacata Uiraúna num silencioso intervalo; foram levados pelos ventos do Aracati à cidade lá de cima, para muito além das nuvens, onde a brisa, suave e permanente, não enjoa. Palavras sumiram? Não. Muito nos falam esses vivos, esses mortos.   Damião Ramos Cavalcanti    

Amália, 108 anos de lucidez

          Como de costume, às vésperas do dia 25 de dezembro, iniciei telefonemas a amigas e amigos, desejando-lhes Feliz Natal. Ao chegar a vez de Rui Gomes Dantas e sua querida Tânia, ambos em Recife e respectivamente primogênito e nora de Dona Amália, ele me informou sobre a saúde da sua genitora; em certa idade, o assunto vem à tona, logo se fala disso: “Levantou-se do leito e, lépida, vestiu a roupa para as festas de fim de ano; aqui está para assistir à Missa de Natal com a família”. Somente o filho Marconi tardou a chegar, mas a dileta mãe, passando a vista na ninhada, sentiu uma vaga debaixo das suas asas: “Onde está Marconi?”; exigindo a Ronaldo e a Paulo Antonio que se completasse, na sua presença, a família. De pronto, como  sempre, foi obedecida, já que Murilo, in memoriam, convive quotidianamente com ela. Ora, se ela segue diligentemente afazeres de casa e depósitos bancários da aposentadoria, tenha-se em conta como também ainda cuida das distâncias e das aproximações dos seus amados, mesmo crescidos, mas maiores tesouros no seu coração. Sobre eles assim escreveu: “Em recompensa desta união de amor, Deus nos presenteou com cinco filhos maravilhosos”.          Depois dos festejos natalinos, essa patoense sertaneja euclidiana recuperou forças e graças para o novo ano.  E na manhã de 2017, voltei a falar com Rui que me deu o feliz presente: “Ah! Ela está aqui na sala, sentada na cadeira de balanço; veja-a pelo telefone”. Dona Amália, com um belo e suave sorriso, vivamente fitou a câmara e, senhora das suas palavras, saudou-me: “Olá, Damião, como passou as festas de Natal e Ano Novo?” . Impressionante: Longeva, incansável, quase quarenta mil dias de luta, mas não abandona o “bom combate”.          Testemunhos levam-nos a imaginar que, em outras circunstâncias, Ataulfo Alves, respeitando a ordem alfabética, cantaria: “Amália é que era mulher de verdade”… Antecipou-se a essa fantasiosa seresta o então jovem Antonio Dantas de Almeida, tornando-se seu esposo; promotor, depois juiz emérito, de respeitada cidadania nas terras paraibanas de Patos. Partiu à “Cidade de Deus” sem a companheira: Mulher bela, sábia, alegre, forte, corajosa e carinhosa, “perfeita senhora de casa”, como diz a Bíblia: “Nela confia seu marido, e a ele não faltam riquezas. Traz-lhe a felicidade (…). Na praça o seu marido é respeitado, quando está entre os anciãos da cidade (…). Abre a boca com sabedoria , e sua língua ensina bondade (…). Seus filhos levantam-se para saudá-la, seu marido canta-lhe louvores (…). A mulher que teme a Iahweh merece louvor! (Provérbios, 31, 10 a 31)”. Assim é Amália, quanta diáfana lucidez! Damião Ramos Cavalcanti  

Tempus fugit?

        Não! O tempo não foge, somos nós que fugimos, num trem em alta velocidade, vendo pela janela fatos, coisas e pessoas passando rapidamente; tudo parado, mas, em veloz movimento, fugindo da nossa vista, igualmente a todos nós, também parados, mas, ao camponês que está arando a terra, em veloz movimento do comboio que não pára. É uma viagem no e através do tempo que só termina quando o viajante sai da janela; o trem continua, dividido em vagões, como se fosse o próprio tempo que, mesmo repartido em pedaços, contínuo, não tem sua infinitude diminuída. A nossa limitação precisa dividir o tempo para poder contá-lo e, sobretudo, isolar partes relativas ao espaço, às circunstâncias e à nossa existência, em que agimos e comemoramos nascimentos, aniversários de vida, de morte ou de feitos extraordinários.         Anne Karine Kiepe, perambulando pelas ruas de Marrocos, enviou-me, numa mensagem, crucial questão sobre o Ano Novo: “E se você pudesse planejar sua vida de trás para frente, o que estaria acontecendo agora?” Fiquei confuso; como replanejar o passado ou o que passou na janela do trem, o que ficou distante, muito para trás? Recordei um passado irreversível, tendo liberdade apenas sobre o presente e eventualmente sobre o futuro. Enquanto existo, nada consigo realizar no passado, só agir ou modificar coisas no presente, talvez projetando-as para o futuro, jamais ao passado. O tempo de planejar, agir e melhorar é agora, a experiência avisa: Tempo perdido não se recupera…             Carlos Drummond admira, em poesia, quem pensou em dividir esse misterioso “quando” do Organon, de Aristóteles:”Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, / a que se deu o nome de ano, / foi um indivíduo genial. / Industrializou a esperança / fazendo-a funcionar no limite da exaustão. / Doze meses dão para qualquer ser humano / se cansar e entregar os pontos. / Aí entra o milagre da renovação / e tudo começa outra vez / com outro número e outra vontade / de acreditar / que daqui pra adiante vai ser diferente.”  Damião Ramos Cavalcanti    

Natal sem vinho

Onde Ele nasceu havia vinho, mas Ele ainda não bebia, tampouco, José, o companheiro de Maria, levava consigo alguma dracma ou denário suficiente para comprá-lo, nem ganhar tal dinheiro por algum serviço, pois, distante de casa, não dispunha da marcenaria para o trabalho; também, caso necessitasse, não existia casa de maternidade, por isso, também não, “parto cesariano”… O carpinteiro mal pôde arranjar Maria na manjedoura e, com capim seco, improvisou um berço, como se fosse liturgia do primeiro “advento” do nascimento de Cristo, a criança. Precocemente, o menino crescia “em idade e em sabedoria”. Fez-se carne, habitou entre nós, observou a cultura e os costumes das mulheres e dos homens, até o de gostar de festa, como nas “Bodas de Caná”, na Galiléia.          Nessa festa de casamento, Jesus estava com a mãe que percebeu o aperreio dos anfitriões: Os convidados tinham bebido todo o vinho e a festa ainda gozava seu maior momento. Maria,  sentindo tal alheia aflição, foi a Jesus comentar o que acontecia. Ele, encolhendo os ombros, mostrou-se indiferente: “Mulher, que queres de mim? Não é chegada a minha hora”. Mas, quem é humilde confia; Maria, em silêncio, afastou-se e, com confiança, dirigiu-se aos criados da casa: “Façam tudo o que Ele mandar”. Os criados se aproximaram de Jesus e Ele entendeu o pedido da mãe: “Tragam as talhas vazias. Encham-nas de água”. Jesus olhou para a água, para os céus e, em seguida, para os criados, dizendo: “Sirvam!”           De repente, tinha-se, naquelas enormes jarras, o bom vinho em abundância. João (2, 1-11), que acompanhava Maria, conta que os convivas e o Mestre Sala se surpreenderam ao se contrariar o costume: Saboreavam o melhor vinho no final da festa. Maria, que serviu de intermediação entre Jesus e os anfitriões, fitou os olhos da dona da casa e sorriu…  Desde aquele tempo, muitas famílias, como a do carpinteiro José, passam o Natal sem vinho; a não ser, por milagre, que se dê, em cesta básica natalina, esse néctar das videiras ou, quem sabe, talvez a cor de vinho tinto numa rubra flor de papel crepom.    Damião Ramos Cavalcanti  

 Corrução na corrupção

          A corrupção é coisa antiga, antes da linguagem escrita, já havia pinturas rupestres nas paredes das cavernas, registrando atos de corrupção, como consequência da inveja, da ganância. Os dicionários preservam a palavra vinda do latim, de “corruptio”, termo muito falado entre os césares e os senadores romanos, na prática do verbo “corrumpere” que sempre significou: Arrebentar ou fazer arrebentar, estragar, quebrar, romper ou destruir; sentido extensivo a corromper, deteriorar, adulterar, falsificar, alterar para pior;  verbo muito próximo a “corruere” com significado de derrubar, golpear, fazer cair e acumular…          O povo sente e compreende essa doença da qual é vítima, sofrendo dores pelo corpo, o que as bactérias e os vírus não entendem enquanto provocadores da moléstia. Por isso, nossa gente pressente na pele o mal que a doença lhe impõe, efeito dessa causa. A lógica é clara: Só se acaba o efeito, tirando-lhe a causa ou susta-se a febre, combatendo-se a inflamação…  Assim, milhões de cidadãos, não mais suportando tal enfermidade, apresentaram receita para inibir tal moléstia, ora tomando conta do país. Enviaram proposta aos seus “representantes” para legislarem derradeiro remédio contra esse mal.                   Todavia, tais “representantes”, a título de “rediscutirem a matéria”, retiraram da receita “a substância capaz de inibir o crescimento das bactérias, dos vírus ou de matá-los”, alteraram a terapia. Alguém do STF enxergou corrução na corrupção, o que  fez o Jornal Correio da Paraíba noticiar : “Fux anula pacote anticorrupção”;  o Chefe dos deputados “viu nisso intromissão”; e o do Senado, nova oportunidade para recurso. Entenda-se que o Poder Judiciário não anulou o combate à corrução, mas a aprovação do texto alterado para proteger os legisladores. Valendo a  Constituição, a “proposta popular” deve ser votada e não modificada; quem for contra mostre sua cara, mas não fure, no “pacote anticorrupção”, buracos de escape…  Damião Ramos Cavalcanti