Academia Paraibana de Letras lança novo site e amplia acesso ao seu acervo histórico e literário

Academia Paraibana de Letras lança novo site e amplia acesso ao seu acervo histórico e literário A Academia Paraibana de Letras (APL) lançou nesta terça-feira seu novo site institucional, que já está disponível ao público na versão web e mobile, como uma ampla ferramenta de consulta, pesquisa, informação e divulgação das atividades da Casa de Coriolano de Medeiros. Totalmente reformulado, o portal retorna ao ar após um longo período em manutenção, dedicado à atualização de dados, reorganização de conteúdos e implantação de uma nova estrutura de navegação. O site passa a contar com diversas abas temáticas, oferecendo acesso facilitado às informações sobre a instituição e seu patrimônio histórico e literário. Entre as principais novidades está a completa atualização do quadro acadêmico, contemplando os novos imortais que passaram a integrar a Academia nos últimos anos. O portal disponibiliza vasto material de pesquisa sobre as 40 cadeiras da instituição, reunindo informações sobre patronos, fundadores, sucessores e atuais ocupantes, além de diversas curiosidades relacionadas à história da APL. O novo ambiente digital também oferece perfis biográficos dos acadêmicos de ontem e de hoje, destacando suas trajetórias intelectuais e obras publicadas. O público encontrará ainda colunas com textos produzidos por diversos integrantes da Academia, fortalecendo o espaço como um canal permanente de difusão da literatura, da história e da cultura paraibanas. Reconhecida como uma das mais importantes instituições culturais da Paraíba, a Academia Paraibana de Letras possui uma trajetória de 83 anos dedicados à valorização do patrimônio intelectual do Estado. Fundada em 1943, a Casa de Coriolano de Medeiros consolidou-se, ao longo de sua história, como protagonista de inúmeras iniciativas voltadas ao incentivo à literatura, à preservação da memória cultural e à promoção do conhecimento. Com o lançamento do novo site, a Academia reafirma seu compromisso com a democratização do acesso à informação, disponibilizando um espaço moderno e abrangente para pesquisadores, estudantes, escritores e todos aqueles que desejam conhecer mais profundamente a história da instituição e a contribuição de seus acadêmicos para a cultura paraibana.

ELAS ESTÃO AÍ!

ELAS ESTÃO AÍ! Elas estão aí! Não, sempre estiveram, embora em plano secundário, amordaçadas pelo preconceito, pelo silêncio e pela violência perpetrados contra elas. Usadas e abusadas, eram mais objetos que sujeitos da história. Mas elas resistiram, lutaram, conquistaram o que lhes era de direito e agora atuam de igual para igual e a seu jeito próprio no planeta dos humanos. É verdade: elas estão aí! Finalmente chegaram e chegaram, parece, no tempo devido e na hora adequada. Chegaram, e como chegaram! Certamente o mundo estaria melhor se elas tivessem chegado mais cedo. Com elas certamente não teríamos chegado aonde chegamos. Com elas o que é barbárie poderia se transformar em civilização. No meu acanhamento e no meu desamparo diante de sua beleza, do seu mistério e da sua sabedoria, como que intuí suas secretas e refinadas habilidades com que sabem lidar com as coisas da vida.  Não ouso me referir aos afazeres estereotipados com que selaram seu território nas sombras da rotina privada. Como se isso, como se aquilo fosse coisa menor e menos importante diante do ato de guerrear, caçar, gerir, pensar, comandar povos, empresas, negócios e mesmo o destino dos Estados. Nem vou entrar no mérito da questão. Sou um simples cronista, um cronista de província, não muito afeito ao racionalismo cartesiano dos artigos de jornal. Cronista, tenho uma queda toda especial pela espessura lírica das coisas e dos fenômenos. Portanto, desculpe-me , caro leitor, se não vou desenvolver silogismos factuais e persuasivos em torno de acontecimento tão candente e tão extraordinário. O que sei, e sei que não estou errado, é que elas chegaram. Chegaram e se apresentam, se mostram e se revelam em todos os espaços das vivências sociais, sempre com um toque singular, delicado e estético, estético e firme, firme e competente, competente e ousado, em tudo que fazem. Seja na casa ou no lar, na escola, na Igreja; seja na praça, na rua, no bar ou no cabeleireiro; seja na edilidade, nas assembleias, nos tribunais, nas academias, nos transportes, na praia, no campo, no dia e na noite, até mesmo no ar sonado que embebe a volúpia de nossos sonhos e de nossos desejos, elas comparecem e se comprazem realizando tudo com a saborosa garantia da feminilidade. Ou, ainda, da humanidade, porque elas são humanas, somente humanas, portanto, com perfeições e imperfeições, grandezas e fracassos, virtudes e defeitos, carências e esperanças, razão e emoção, corpo e alma, yn e Yang. Para mim (e aqui me penitencio pelo tom lúdico e brincalhão da fantasia), elas são lindas e quase mágicas quando fazem as unhas e raspam as pernas, dirigem caminhonete e comentam futebol. Para mim, são mais cuidadosas e éticas nas relações com o outro. Para mim, sabem tocar o poder sem crueldade, com eficácia, eficiência, efetividade e poesia. Sim, para mim, elas são as melhores imagens para a composição dos melhores poemas, os versos perfeitos.  Até nos esportes ditos masculinos elas brilham com outras luzes e se vestem com outras cores, trazendo, não raro, um rasgo de ternura, um charme e uma sutileza que perfumam as tardes no gramado, a suavidade do tatame e o imponderável do octógono. Aqui, em particular, parece que trazem a poesia nos punhos e nos ensinam que há qualquer coisa de belo na violência dos combates.   Elas estão aí! Ninguém duvide! Fazem de tudo, e muitas coisas fazem melhor. Atletas, senadoras, deputadas, presidentes, motoristas, manicures, professoras, enfermeiras,cientistas, camponesas, operárias, executivas, proprietárias, prostitutas, estrelas, santas, elas estão aí. Todas nuas, todas sábias, todas seminais, na candidez e na ternura v’ivida e maternal da linguagem. De corpo e de alma, inteiramente. Repito: Elas estão aí! Elas chegaram. Chegaram para ficar, definitivamente. Do nosso lado, conosco, por dentro de nós, na deliciosa orgia da fraternidade. Já não sabemos viver sem elas (soubemos em algum tempo?). Vamos aprender com elas que só somos diferentes, que só somos iguais.  (Do livro Gabi voltou. João Pessoa: Ideia, 2021)   Hildeberto Barbosa Filho

O POETA JOSÉ AMÉRICO

O POETA JOSÉ AMÉRICO Depois de se destacar como romancista e memorialista, e vencidas todas as etapas todas da vida pública, José Américo voltou seu olhar para a Poesia. No livro Quarto minguante, único que publicou, ele olhou para a infância, o mar e a natureza, ao que chamou de “tesouro de recordações”. Em Antes que me esqueça, livro de memórias, ele deu pista para entender seu modo de pensar como poeta, depois do sucesso como romanista. “Notava-se meu ar distante. Se não houvesse noite, seria preciso inventá-la e, mesmo de olhos abertos, eu sonhava. Inventava meu mundo e convocava meus mitos. Fugindo do meu ambiente para montar outros quadros. Nesses momentos de fuga ia ao ponto de plantar minha paisagem e gerar outras vidas, por obra da imaginação. Cultivava essa linda mentira e sentia-me realizado. A fantasia que transfigurava as coisas construía meu universo. Demorava-me nessa atmosfera fictícia e meus sonhos tomavam corpo. A imagem estava sempre presente e eu brincava com essa ilusão. Só me concediam criar, como um direito meu. E assim me fiz romancista”. No início do livro Quarto minguante, que veio a público quando José Américo estava com 86 anos, ele considerou que os poemas tinham chegado ao “apagar das luzes”. Observando o conteúdo do livro, percebe-se que nos versos a lua cheia espalha seu esplendor enquanto o velho poeta contempla a nesga da nuvem sobre o mar de Tambaú. O poeta José Américo optou pelos versos líricos, com a junção de ritmos e musicalidade, que se percebe na leitura compassada. Como define Emil Straiger (1908-1987) em Conceitos Fundamentais da Poesia, os caminhos dos versos líricos estão com assento na calma de uma vida de recolhimento ao silêncio. “A poesia lírica manifesta-se como arte da solidão, que em estado puro é receptada apenas por pessoas que interiorizam essa solidão”, afirma o escritor suíço. No poema “A única voz” é possível perceber, com pouco esforço, o clima de isolamento do poeta sobre “o eu lírico e representa os últimos anos de vida do escritor”, como revelou a professora Neide Medeiros, nossa confreira: Eu só aqui, mais ninguém, Nas noites de solidão. E, se chamar, ninguém vem E, se falar, falo em vão. Penso. E a voz intrometida Vem cortar meu pensamento Não é ninguém, não é vida, É um vagabundo – o vento Ele tem medo da hora, Da noite e sua feiura. Pede socorro de fora, Sopra pela fechadura. José Américo estava solitário com a passagem da mulher que considerou, durante muitos anos, “o anjo da guarda”, como escreveu. Nesse estado de espírito, então, sentiu profunda necessidade de escrever, de revelar os momentos de recolhimento para produzir poesia.Restava-lhe, a partir da ausência física de sua esposa, a paisagem acolhedora de seu jardim por ela cultivado com esmero. O mar à sua frente, a lua, o vento revelador, as lembranças do passado, sobretudo do tempo de criança quando viveu no engenho, tudo compondo suas lembranças. Essas paisagens levaram José Américo compor versos, mesmo que não tenham a dimensão de alta poesia.Menino de engenho criado com regalias e cuidados materno, e sob o rigor do tio padre que o educou durante a infância, mesmo assim curtiu o verde dos canaviais, o frescor das manhãs e inesquecíveis pôr-do-sol do Brejo de Areia. Somente na velhice se dispôs compor versos para falar de sua saudade.   José Nunes.

A CARTA NA GARRAFA

A CARTA NA GARRAFA As crianças faziam barulho correndo descalças atrás de um cachorro, que cabriolava como se soubesse que aquela era a sua parte no jogo. Uma delas trazia presa no short o que parecia ser a carcaça de um celular. E depois o jogo ficava mais pesado, elas jogavam pedras no cachorro, que procurava escapar do bombardeio, mas logo retornava, porque talvez não tivesse mesmo pra onde ir. A mulher segurava nos braços duas crianças, aparentemente da mesma idade. Mas, não pareciam gêmeos. Eram muito diferentes. “Por exemplo, o senhor sabe, a dor não foi inventada para os ricos. Foi inventada para os pobres, que nem a gente. Mas, não é uma dorzinha assim, como uma dorzinha de unha, uma dorzinha de cabeça.  É uma dor de vivente, de toda a vida, desde que a gente nasce, e vai pela vida afora acompanhando a gente. O senhor é uma pessoa distinta, não sente essas coisas. O senhor ri…” “O senhor vigie aí. Eu um dia vinha ali pelo cais e deu com ele, Jasão. Ele me olhou com aquela boca grande sempre aberta, como quem está sempre rindo, um peixe pegado no anzol, e me parou e disse assim, o senhor repare, disse que eu tinha um pedaço do mar dentro dos olhos. O que mais eu podia fazer? Minha mãe disse que aquele peixeiro era um raparigueiro fino, que eu ia sofrer muito. Mas, veja só o senhor, sofrer? Se a gente já sofria a dor de vivente desde nascer, eu disse pra mãe, a gente já sofre, mãe, desde que nasce, uma dorzinha a mais nem ia sentir…” “Macélia, porque minha mãe disse que era pra lembrar das terras do estrangeiro de onde veio meu pai. Ele era um estrangeiro, que passou uns três dias e terminou me fazendo em minha mãe. Foi embora pra nunca mais. Mas, minha mãe dizia que eu devia apreender a amar e respeitar ele. Um dia ele podia voltar. Eu perguntava como ele era e ela dizia que bastava eu me olhar no espelho pra ver ele bem ali, com os olhos da cor de mar. Eu tinha orgulho quando minha mãe dizia que essa era Macélia, a filha do estrangeiro que um dia ia voltar.” “Eu nunca me incomodei muito quando sabia que Jasão andava pelos lados do porto, arreliando umas mulheres. Mas, aquela mulher me incomodou, o senhor entende? Aquela sirigaita tinha jeito de mulher que rouba marido, foi minha comadre aqui vizinha que avisou. Por exemplo, o senhor sabe, ela era mais nova que eu, andava toda se requebrando e os homens todos olhavam pra ela com toda cobiça. Me incomodou, mas eu imaginei que era que nem as outras. Eu deixei pra lá, até descobrir que a bichota estava grávida, e só podia ser de Jasão.” “Eu me desesperei. Fui ver se era verdade, e era mesmo. Lá vinha a sirigaita se sacudindo toda e mostrando a barrigona, do tamanho quase da minha por aqueles dias. Era uma dor nova pra mim, o senhor entende? Não entende. O senhor nem é mulher e nem é pobre que nem a gente. Mas, passei toda a minha gravidez com aquela coisa atravessada dentro de mim, quase tomando o espaço do filho que carregava dentro também. O senhor não queira sentir uma dor assim…” “Minha comadre foi quem teve a ideia, depois que eu encontrei o retrato da bichota dentro da carteira de Jasão. Então, minha comadre me ajudou a escrever uma carta pra Nossa Senhora. E eu escrevi assim, meu Deus, eu não aceito essa mulher grávida, pois eu sei que é o diabo do mal, pra destruir a minha família, eu não estou aceitando essa situação. E pedi pra Deus levar aquela infeliz, era um problema que eu colocava nas mãos Dele. E pedi, eu pedi, que Ele levasse ela com menino e tudo para o sal e o sangue do mar…” “Eu fiz mesmo. E depois a gente colou a foto daquela bicha na cartinha, colocou tudo dentro de um frasco da avon, que era o que a gente tinha. Então, fui com minha comadre até o mar e jogamos nas ondas. E fizemos umas orações. E no outro dia, o senhor repare bem, a gente voltou e o mar estava cheio de frutas, umas maças verdinhas e vermelhinhas, novinhas ainda, eu só não peguei porque minha comadre disse que era pecado. Mesmo se fosse pra matar a fome. E tinha um monte de velas, e flores por toda a parte, essas coisas que o senhor disse ter encontrado, quando andava naquela dia pela praia.” “A santa andava enfastiada naquele dia, eu comentei com minha comadre, estava devolvendo tudo de volta. Mas, a gente ficou feliz porque a gente não encontrou o frasco da avon com a carta. Que foi o que o senhor encontrou, não foi? Mostra ai… Era essa carta mesmo. Tá meio rasgada. Sim, foi porque entrou água no frasco. Eu disse pra minha comadre que a gente tinha de usar uma garrafa com uma rolha firme. Ela disse que não, a gente não podia dar trabalho pra santa. Ela tinha de abrir pra ler o que tinha dentro.” “Mas, ela não abriu, nem leu. Tanto que a sirigaita nem morreu, nem perdeu o filho. O senhor assunte bem. Foi o senhor que abriu e leu, então não podia dar resultado. Só se o senhor foi enviado pela santa. Foi? Pois então. Aí, a bichota teve o filho bem pertinho do tempo que eu tive o meu, esse aqui no braço. Meio doentinho. Mama sem muita força, e eu tenho tanto leite… Esse outro não, mama com força, até dói meus peitos. É sabido, o danado. Vai crescer mais forte…” “Mas, eu não tinha paz, o senhor imagina aí. Até que um dia, eu não me aguentei. Peguei uma faca de peixe, escondi assim dentro dos panos e fui na casa dela. E quando bati, ela abriu a porta, e o senhor vigie ai, ela deu uma risada na minha cara. O senhor pode

GONZAGA RODRIGUES SEMPRE

GONZAGA RODRIGUES SEMPRE Vamos ficando outros, tendo saudades do que fomos ( Gonzaga Rodrigues. As paredes do homem)    Os textos de José Nunes Gonzaga Rodrigues: uma vida bem escrita ( A União, 21 de junho de 2026) e o de Vitória Lima  Gonzaga Rodrigues, 93  ( A União, 1º. de julho de 2026) me incentivaram a escrever sobre mais um cronista de escol da Paraíba. Para usar um lugar comum, um cronista que dispensa apresentações.   Com mais de setenta  anos na labuta dos jornais, é um assíduo colaborador do jornal A União. Sua terra natal, Alagoa Nova, Campina Grande e João Pessoa estão sempre presentes em seus escritos. O que escreveu vai se eternizar como se eternizaram as crônicas de Machado de Assis e Lima Barreto.  Já é rotina, todo domingo quando recebo o jornal A União vou para a página 2 e lá está o nosso cronista, digo nosso porque ele pertence à Paraíba, a paraibanidade está presente em tudo que escreve – às vezes é a descrição da mata brejeira, outras vezes é a aridez das terras sertanejas e do cariri, tudo é Paraíba, não faltando referências aos personagens que habitam essas plagas.  Gonzaga Rodrigues completou 93 anos e continua ativo, lendo e escrevendo sempre. Sua ânsia de saber é inesgotável, em seus textos revela preferências literárias, entre outros, por Lima Barreto e Graciliano Ramos, nisso tenho afinidades com o cronista, sou leitora recorrente de (crônicas, contos e romances) dos dois escritores.  No livro Com os olhos no chão (Ed. MVC Forma, 2023), duas crônicas me chamaram a atenção – a primeira foi A morte perdeu o seu tempo e a outra é A Qunu de Mandela. Justifico a escolha. A primeira transcreve trecho de uma carta que Graciliano enviou à irmã, uma resposta à consulta sobre um conto que escrevera, era    uma avaliação crítica. Exigente como era, e pouco afeito a elogios, Mestre Graça foi sincero com Marili e deu essa resposta:  As caboclas da nossa terra são meio selvagens, irmã Marili. Como você pode adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupa. Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne (…) Só podemos expor o que somos (…) fique na sua classe, apresente-se como você é, nua, sem ocultar nada. Arte é isso”.  Conselho mais claro, impossível. A sinceridade era a tônica do escritor alagoano, não contemporizava com ninguém nem mesmo com as pessoas de sua estimação.  Qunu é a aldeia onde Nelson Mandela, o líder sul-africano, passou parte da infância e Gonzaga discorre sobre as aldeias de outros países, como Portugal, Brasil, África, elas guardam afinidades. Mas o que me despertou o interesse foram os versos do poema de Castro Alves: “A cruz da Estrada”. Este poema constava nas seletas ou crestomatias do início do século XX e era lido, declamado e exaltado pelos alunos das antigas escolas primárias, principalmente aqueles que estavam se preparando para voos mais altos. Segue o fragmento destacado pelo cronista:  Caminheiro que passas pela estrada,  Seguindo pelo rumo do sertão,  Quando vires a cruz abandonada,  Deixa-a dormir em paz na solidão (…)  Vai espantar o bando buliçoso  Das borboletas que lá vão passar.  O excerto desse poema me fez retornar ao tempo em que estava descobrindo a poesia e meus irmãos mais velhos tinham uma antologia escolar com esse belo poema de Castro Alves. Folheava aquela antologia e me deliciava com os poemas românticos de poetas brasileiros e portugueses.   A leitura de Com os olhos no chão foi um mergulho no passado. É um  livro muito bem editado, contou com a colaboração do eficiente editor Juca Pontes e com ilustrações sugestivas de Flávio Tavares. É para ser lido e relido como os romances de Graciliano Ramos e as crônicas de Lima Barreto.    Neide Medeiros Santos Acadêmica da APL neidemed@gmail.com

A PARAÍBA COMO GRANDEZA DO BRASIL: A PRESENÇA DO CRISTÃO-NOVO AMBRÓSIO FERNANDES BRANDÃO

A PARAÍBA COMO GRANDEZA DO BRASIL: A PRESENÇA DO CRISTÃO-NOVO AMBRÓSIO FERNANDES BRANDÃO Diálogo das Grandezas do Brasil é uma obra escrita em 1618 por Ambrósio Fernandes Brandão (1555-1618), cristão-novo, que se estabeleceu na Paraíba, após enfrentar perseguições da Inquisição em Portugal. Ele se tornou senhor de engenho. A sua autoria dos Diálogos foi confirmada pelo historiador Capistrano de Abreu, no início do século XX. A obra está estruturada como uma conversação entre dois portugueses: um, recém-chegado ao Brasil; outro, residente de longa data. Através dessa conversa, Brandão oferece uma descrição detalhada da colônia portuguesa na América, abordando aspectos como geografia, fauna, flora, economia açucareira, comércio com a Coroa, sistema de governo, órgãos judiciários, além dos costumes e condições de vida dos indígenas e escravos africanos. Além de destacar a riqueza e o potencial econômico do Brasil colonial, especialmente das capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, Brandão também manifesta preocupação com a situação precária dos povos indígenas e dos escravos, evidenciando uma sensibilidade incomum para um senhor de engenho da época.  Em Os judeus na história do Brasil, diz Afrânio Peixoto: “Uma figura singular naquela sociedade foi Ambrósio Fernandes Brandão, sem cousa que duvida faça o Brandônio dos magníficos Diálogos das Grandezas do Brasil, que é um dos mais substanciosos escritos sobre o Brasil no primeiro século. Custa a crer que um simples colono dispusesse daquela formidável cornucópia de admiráveis conhecimentos, que prodigamente derramou nas páginas de seu livro, de informação tão segura, de observação tão justa. Brandônio não era médico, como Garcia da Orta; dele nenhum depoimento existe de que tenha passado, como o outro, por Coimbra ou Salamanca; por isso mesmo é que maravilha como possuísse tamanho cabedal científico, de tão extensa erudição em matérias que por seu ofício ou profissão não estava obrigado a versar, quanto mais a ensinar.” (PEIXOTO, 1936: 19-20) Ambrósio descreve a Paraíba como “tão fértil e aparelhada de cousas necessárias à vida humana, que, se se tivera em muita estima, pudesse porventura competir com qualquer das outras capitanias” (BRANDÃO, 1618, cap. IX). A Capitania da Paraíba, criada oficialmente em 1574, teve sua colonização consolidada apenas no final da década de 1580, com a fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), em 1585. Esse processo foi marcado por conflitos com os franceses, que buscavam alianças com os povos indígenas da região, e com os próprios indígenas potiguaras, que resistiram à colonização portuguesa. Quando Ambrósio Fernandes Brandão chega à Paraíba, por volta do início do século XVII, a região vivia um momento de estabilização política e crescimento econômico, graças à implantação do sistema de engenhos e ao cultivo da cana-de-açúcar. Nesse cenário, ele se estabelece como senhor de engenho, participando ativamente da elite local e sendo testemunha privilegiada da consolidação da economia colonial na região. Na Paraíba, aquele cristão-novo encontrou condições propícias para reconstruir sua vida, tanto social quanto economicamente. Embora aborde em Diálogo todo o território colonial, é evidente sua predileção pela região Nordeste, pelas referências elogiosas aos engenhos, à qualidade das terras e à produtividade. Sua vivência direta na capitania lhe confere um olhar minucioso e realista sobre a vida local, incluindo os aspectos positivos e as contradições da sociedade escravocrata. No que diz respeito à Paraíba, observamos seu entusiasmo pelas riquezas naturais, fertilidade do solo e possibilidades comerciais. Ele descreve com admiração a paisagem, o rio que dá nome à capitania e a abundância de recursos — todos aspectos que justificavam, na visão de um colonizador, o investimento e a permanência na região. A importância da obra Diálogo das Grandezas do Brasil para a história da Paraíba está no fato de ser uma das primeiras descrições literárias e quase etnográficas da região nordestina, feita por alguém que viveu e participou diretamente da formação da colônia. Para os estudiosos da história paraibana, o texto de Ambrósio Fernandes Brandão constitui uma fonte fundamental para compreender o papel da capitania no sistema colonial, a dinâmica dos engenhos e da produção açucareira, a convivência — muitas vezes conflituosa — entre indígenas, colonos e africanos escravizados, bem como a formação de uma elite local estruturada a partir da posse da terra e do controle da economia açucareira. Como reconhecimento por seus esforços, Brandão recebeu diversas sesmarias, incluindo terras ao longo do rio Gargaú, onde estabeleceu o Engenho Gargaú. Este engenho tornou-se um centro de resistência contra as invasões holandesas no século XVII. Durante as tentativas de invasão em 1631, o engenho serviu de refúgio para forças luso-brasileiras e, após a ocupação holandesa em 1634, foi confiscado e vendido a Isaac de La Rasière, um dos homens mais ricos a serviço da Companhia das Índias Ocidentais na Paraíba. Além do Engenho Gargaú, Ambrósio possuía outros empreendimentos, como o Engenho Santos Cosme e Damião, fundado em 1605, que também contribuíram para a consolidação econômica da capitania, então voltada à monocultura da cana-de-açúcar e à estruturação do sistema escravocrata. Nesse contexto, Ambrósio não se destacou apenas como figura política e econômica, mas também como intelectual que deixou importante testemunho sobre a realidade do Brasil colonial. Essa valorização da terra paraibana, bem como a crítica sutil ao abandono administrativo da capitania por parte da Coroa Portuguesa, revelam a preocupação de Brandão com o fortalecimento da região. A obra Diálogo das Grandezas do Brasil ocupa posição de destaque entre os textos fundacionais da historiografia brasileira, a ponto de José Honório Rodrigues, notável historiador, tê-la incluído entre os doze livros mais importantes já escritos sobre o Brasil durante o período colonial. Desde suas primeiras aparições, a autoria da obra foi objeto de intensos debates críticos, mas hoje ela é, de forma quase consensual, atribuída a Ambrósio Fernandes Brandão — salvo eventual prova em contrário. Evidências de crítica interna indicam que o texto começou a ser redigido no final da segunda década do século XVI, informação que já se encontra devidamente demonstrada e que será retomada adiante. Atualmente, conhecem-se dois códices manuscritos da obra, ambos datados do século XVII (portanto, apógrafos): um está sob custódia da Biblioteca da Universidade

A PEÇA DO PAPA

A PEÇA DO PAPA Está lá, no fascículo 125 da coleção Cadernos de Teatro, editado em abril de 1991, a publicação de uma peça teatral sobre conflitos conjugais… O autor, um certo polonês chamado Karol Wojtila – que não era outro senão um dos ocupantes do Trono de São Pedro no Vaticano, o saudoso Papa João Paulo II.   Em algumas passagens de sua biografia, várias vezes foi dito que João Paulo II tivera, em sua juventude, uma experiência com o teatro. Chegara a ser ator e, também, uma espécie de “Mobilizador”, ou “Agente Cultural”, já que organizava encontros de teatro em sua terra natal. Poucas vezes, no entanto, tem sido revelada uma outra faceta de Karol Wojtila: a de dramaturgo! Publicada originalmente sob o título de “La Boutique de L’Orfevre”, a peça “A Loja do Ourives”, traduzida no Brasil por Dom Marcos Barbosa, não é nenhuma peça “religiosa”, como se poderia esperar. Mais curioso ainda é o fato de não ser um texto de cunho moralizante, na medida em que se aprofunda em angústias e conflitos de casais atrelados aos mais diversos destinos. Neste sentido, chega a ser uma peça “mundana”, sem nenhuma acepção pejorativa, pois é “mundana” por se colocar em pé de igualdade a tantos outros dramas que refletem, e analisam, os altos e baixos de um casamento. A diferença está na linguagem – que é terna, lírica e… romântica, o que acaba confirmando o dedo de um autor que está contextualizado na peculiaridade do sacerdócio. “A Loja do Ourives” foi publicada pela primeira vez em 1960, numa revista polonesa. Karol Wojtila tinha menos de 40 anos e assinou-a sob o pseudônimo de Andrzej Jawien. Naquela ocasião, era bispo auxiliar de Cracóvia e, à sombra de um pseudônimo, definiu sua peça como “uma meditação, passando em certos momentos para o drama”. Essa “meditação”, de fato, confirma-se nos inúmeros monólogos de seis personagens que, à frente da loja onde foram compradas as suas alianças de casamento, refletem sobre passado, presente e futuro de relacionamentos amorosos que tiveram destinos diferentes. Karol Wojtila conta três histórias de amor para, no final, de maneira surpreendente, redundá-las numa só história, apresentando o encontro desses casais para dar-lhes uma unidade que seria a unidade do amor, ou o núcleo de uma trama que se recheou de tragédias humanas como a separação, a guerra, a angústia e a incerteza dos sentimentos. Como vemos, são temas bem recorrentes, normalmente visitados pelos autores mais modernos. O casal André/Tereza simboliza o amor perfeito, que se ama e se entrega sob o compromisso de tornar-se um único ser, e está diante da loja do ourives para adquirir o seu par de alianças. Na segunda parte, vamos conhecer outra história, a de Ana e Estêvan, já numa fase bem avançada de um casamento desgastado. Ana também se encontra na frente da mesma loja onde, anos antes, fora adquirido o seu par de alianças. Ali, reflete sobre o desgaste de seu relacionamento, e deseja ardentemente encontrar um novo parceiro enquanto Estêvan passeia entre as “moças da noite”. Temos então, numa terceira parte, o casal Cristóvão/Mônica, que será o resumo dos anteriores. Estão também diante da loja do ourives e vivem um impasse para o casamento previsto. Quando acompanhamos o seu drama, em nenhum momento suspeitamos que cada um dos dois jovens é filho daqueles casais que já passaram. Mônica não está segura quanto à felicidade do seu futuro, pois vive traumatizada pelo péssimo exemplo dos pais. Já Cristóvão projeta sua segurança com base na felicidade dos seus, revelando que seus pais se amaram intensamente, embora esse amor tenha sido interrompido pela tragédia da guerra, onde ele perdera seu genitor. A surpresa se revela no momento em que o autor, através de seus personagens, informa que o jovem casal é filho dos anteriores. É quando temos o ponto mais alto da trama, pois novamente localizamos aquelas duas histórias que vêm se juntar ao drama do momento para o clímax final. Fica a mensagem de que o mais jovem casal é a continuação dos outros dois, e que haverá enfim a felicidade que faltara nos outros. Com essa peça, João Paulo II, anos antes de seu pontificado, escreveu uma espécie de “evangelho do amor” – e o amor com suas tristezas e alegrias, sonhos, esperanças, desejos. “A Loja do Ourives” pode ser lida como obra literária totalmente isenta da condição religiosa de quem a escreveu, pois não possui um princípio de dogma e sim uma expressão de problemas humanos tão presentes. A linguagem, da mais fina literatura, alterna-se entre o diálogo dramático e narrativas intimistas que lembram bem um romance moderno. Não conhecemos as razões do autor em ter adotado um pseudônimo – mas, em que pese o mérito artístico da obra, e não vendo nela qualquer imprudência sacerdotal, a Igreja Católica só teria a ganhar com a divulgação desse texto para a humanidade. Tarcísio Pereira.

A CAÇA À BALEIA NA PARAÍBA

A CAÇA À BALEIA NA PARAÍBA Nunca consegui compreender como o abate de baleias pôde se transformar em um espetáculo de atração turística. Na Paraíba, essa prática chegou a ser incentivada pelo governo do Estado, que a divulgava em âmbito nacional por meio de folhetos coloridos, nos quais era equivocadamente chamada de “pesca da baleia”. Como a baleia não é um peixe, mas um mamífero marinho, a denominação correta é “caça à baleia”. A exploração de cetáceos no litoral paraibano teve início em 1911, introduzida pelo cônsul holandês Julius von Söhsten. A base instalada em Costinha, no município de Lucena, aproveitava a passagem das baleias-jubarte e das baleias-sei durante sua migração pelo litoral nordestino. A partir de 1958, a atividade adquiriu dimensão internacional com a instalação da Companhia de Pesca Norte do Brasil (COPESBRA), uma empresa nipo-brasileira que empregava centenas de trabalhadores na região e exportava carne e óleo de baleia. Os navios baleeiros, entre eles o famoso Cabo Branco, deixavam o Porto de Cabedelo por volta das quatro horas da manhã e retornavam ao fim da tarde. Em 10 de julho de 1972, o Governo da Paraíba, por intermédio do secretário de Divulgação e Turismo, Noaldo Dantas, promoveu solenemente a abertura da temporada de caça na praia de Costinha, em Lucena. O evento reuniu cerca de duas mil pessoas, entre autoridades e convidados, incluindo o governador da Bahia e sua comitiva. A temporada estendia-se de julho a dezembro, justamente o período em que os cetáceos migravam da Antártida em busca das águas mais quentes do litoral nordestino brasileiro. O apoio oficial justificava-se pela importância econômica da atividade para Lucena, que dependia da geração de empregos e renda proporcionada pela COPESBRA. Essa forte dependência econômica e social levou a caça às baleias a integrar, durante algum tempo, o calendário turístico da Paraíba. Em 1974 a Copesbra havia pescado um total de 793 baleias, das quais 761 foram da espécie minke, 3 espadarte e 29 cachalote, das quais foram retirados o óleo, a carne (que também servia para fazer charque e toucinho), a farinha de osso e as barbatanas Impulsionados pela propaganda oficial, os visitantes deslocavam-se de Cabedelo para Lucena por via marítima. No local, uma arquibancada permitia que acompanhassem a chegada da baleia capturada e, em seguida, assistissem ao seu retalhamento, um espetáculo que hoje parece cruel e inconcebível. Ao lado da área de desembarque funcionava o restaurante “Minke”, cuja especialidade era a carne de baleia. Na abertura da temporada de 1972, foi abatida uma baleia-minke com aproximadamente sete toneladas. Após intensa mobilização de ambientalistas em diversas partes do mundo, o presidente José Sarney sancionou, em 18 de dezembro de 1987, a Lei nº 7.643, que proibiu definitivamente a pesca de cetáceos em águas jurisdicionais brasileiras. A medida encerrou um ciclo que, embora tivesse contribuído para a economia de Lucena, representava uma grave ameaça à sobrevivência de espécies como a baleia-minke e o cachalote, entre as mais perseguidas no litoral paraibano. A proibição permitiu, nas décadas seguintes, a expressiva recuperação das populações de baleias-jubarte na costa da Paraíba. Hoje, o litoral paraibano tornou-se um importante santuário de conservação e observação de baleias. Entre os meses de junho e novembro, esses gigantes do mar retornam às águas da Paraíba para reproduzir-se e cuidar dos filhotes, oferecendo um espetáculo que celebra a vida, e não mais a morte. Rui Leitão.

OUTRA VIRGEM DOS “LÁBIOS DE MEL”

OUTRA VIRGEM DOS “LÁBIOS DE MEL” Após largar a Toga a contragosto, por imposição da idade, Marcos Cavalcanti ganhou mais tempo para mergulhar nas pesquisas, com o mesmo ímpeto e alegria com que, na infância, mergulhava nas águas do Rio Mamanguape, desprovido de quaisquer vestes talares. A exemplo dos potiguaras, donos dos vales verdes que beiravam o Mamanguape e o Camaratuba, tomou o destino da Serra da Copaóba onde encontrou Iratembé, a potiguara virgem dos lábios de mel, a exemplo da tabajara Iracema, criação literária de José Alencar e que virou a origem lendária do povo cearense.É na chapada da Serra da Copaóba, um dos contrafortes da Borborema, que se estabelecem os potiguaras advindos da Baía da Traição e, na época em que viveu Iratembé, a aldeia chefiada pelo Cacique Iniguaçú, seu pai. O cacique tinha muitos filhos homens, mas apenas uma linda filha “meiga, simpática, lábios largos, olhos repuxados, nariz afilado e rosto alegre”. Essa era Iratembé, cujo nome em tupi-guarani significa ira-mel/tembé-beiço, lábio. Iratembé- lábios de mel. Há quem diga que essa potiguara inspirou a filha dos tabajaras – Iracema, criação de Alencar,  que em tupi-guarani tem o mesmo significado:  lábios de mel. É nesse cenário brejeiro que um dia aporta um mameluco conhecido por Justino e batizado pelos índios de Tibal. Vivia a negociar com os indígenas e a trocar suas mercadorias de branco pelo artesanato dos povos originários. Era oriundo das paragens de Pernambuco, muito conhecido desde Tracunhaém, Goiana e Olinda, populações já assentadas daquela Capitania  e de Itamaracá, a que pertencia Copaóba. E lá estava ela! Onde se banhavam as jovens indígenas Justino avistou Iratembé que “não era apenas uma mulher, parecia a própria síntese da mata. Tinha a pele da cor do urucum maduro e olhos que guardavam o silencio das lagoas profundas” descreve o autor. Tal qual Iracema, quando “banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica mais fresca que o orvalho da noite…saiu do banho…como a doce mangaba que corou em manhã de chuva.. Diante dela e todo a contempla-la surgiu um guerreiro estranho…Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas profundas” descreve Alencar o encantamento do português Martim pela virgem dos tabajara. A potiguara Iratembé, na nossa história, ao encontrar o seu guerreiro, é tomada “pelo feitiço do momento” e leva o mameluco à cabana do seu pai. Era preciso o consentimento do chefe para que florescesse esse amor à primeira vista.“O amor de vocês é como a semente da Sumaúma: quer voar, mas precisa de terra firme para crescer. Você pode ter Iratembé, mas não a levará para o mundo onde os homens cercam o chão e vendem o tempo. Se seu coração é dela, o seu corpo pertencerá a esta terra”, sentenciou o cacique Iniguaçú. O pretendente à mão da virgem, de pronto aceita a imposição e dá adeus à civilização dos brancos. Foi difícil para quem vivera na fronteira de dois mundos: “calçava botas de couro e lidava com gado, mas sabia ouvir o segredo dos pássaros e respeitava o silencio da mata e o conselho dos anciãos. O mameluco e a índia deram-se as mãos”. Morreu o mameluco, nasceu o marido. Mas a vida pregressa do mameluco o deixava inquieto ao conviver com novos costumes. Bastou uma ausência prolongada, para a caça, do Cacique Iniguaçú, para o casal se despedir da Copaóba e partir em direção aos pagos já palmilhados pelo marido. Deixaram a taba, desafiaram a lei da selva e traíram a palavra empenhada com a tribo. A decisão foi do mameluco mas a índia obedeceu. Partiram em direção a Olinda. Quando mais longe do cacique, mais seguro deveria se sentir o traidor. Para Iratembé restaria a saudade da mata. O progresso que a encantara na Vila de Goiana agora era sentido como uma prisão em Olinda. O coro dos pássaros fora substituído pelo som dos sinos das igrejas. “As igrejas de Olinda eram belas, mas para Iratembé, elas eram montanhas de pedra morta. Seu espirito, capturado mas não domado, começava a trilhar o caminho de volta em seus sonhos, buscando a trilha invisível que a levaria de volta ao abraço verde de sua aldeia”. Descoberta a traição e a fuga, o Cacique encarrega dois de seus filhos para partirem em busca de Iratembé e não regressarem sem trazê-la para o convívio dos seus irmãos. “Onde está Iratembé? Onde está a luz dos meus olhos?” Indagava o Iniguaçú. O longo trajeto da Serra da Copaóba até Olinda, passando pela Vila de Goiana, é narrada com detalhes. Os irmãos de Itarambé buscavam o mameluco menos por vingança e mais pelo resgate de um amor filial ferido. O cacique instruiu seus filhos: “as águas levam, mas as aguas também trazem! O mameluco conhece a mata, mas nós somos a mata!”. A Justiça tinha que ser feita e seus filhos não seguiriam pelas estradas, mas “seguiriam o faro da traição”.Os irmãos Timbira e Japiaçú percorreram engenhos e senzalas, vilas e arruados perguntando pelo conhecido mameluco e sua companheira de viagem. Encontraram rastos de sua passagem na Vila de Goiana e partiram em direção a Olinda. Era o mesmo percurso dos mercadores do açúcar refinado que se produzia nos engenhos da região. “O destino agora tinha o nome de colina e cheiro de mar aberto”. Em Olinda, os irmãos conseguiram sensibilizar a autoridade do Capitão-mor e este deu ordem a Justino/Tibal que devolvesse a índia potiguara a seus familiares. Sem alternativa digna, o mameluco preferiu partir e, depois de atravessar o Velho Chico, perdeu-se para as bandas do sul. Com a autoridade a seu favor, os irmãos tabajaras conseguiram reaver Itarambé. Mas as dificuldades deles não acabaram em Olinda. Desgraça maior foi procurarem refugio no Engenho Tracunhaém, do coronel Diogo Dias. Este, impressionado com a beleza da índia, resolveu apropriar-se dela, o que comunicou a seus irmãos que reagiram com palavras mas evitaram usar suas armas, uma vez que estavam em visível desvantagem perante a capangagem do engenho. Os irmãos voltaram de mãos vazias. Itarambé ficara prisioneira