Que falta faria eu?

Talvez não seja tarde para se fazer tal pergunta: Caso eu não tivesse nascido ou existido, que falta eu faria? A resposta é fundamental à razão da minha existência. Há até quem encontre razões para morrer, e assim antecipe o fim da sua vida. Mas, se assim não fazendo, conviverá com muita gente que encontra boas razões para viver e tendo, sobretudo, um convincente sentido e valorização da vida. Tais questionamentos são promissores para se iniciar o chamado “ano novo”. Nenhuma novidade, tratam de preocupações até antigas. Tão antigas como pensamentos das filosofias mais primitivas; ou velhas porque, mesmo do ano passado para trás, existiu quem já se perguntou “por que vive”. Há quem não suporte pensar sobre sua existência: onde está, aonde vai; ou por que está e para que vai. O essencial é que haja razões para existir, para viver e também para agir no sentido de que faria falta, se não existisse. Vive-se o oposto num mar de futilidades, de coisas supérfluas, produzidas apenas para si mesmo, criando uma vida sem sentido ou que nada significa em relação aos outros, ao bem do outros ou ao Bem Comum. A ideologia da ganância constrói essas torres e aprisiona seres que moram dentro de si mesmo, cujas visões não ultrapassam as janelas acortinadas do seu edifício. Se esse tempo de vacuidade aconteceu nos passados anos, certamente sem reflexão e muito esforço, ele também continuará no Ano Novo. No ano que passou, algumas pessoas de valor não suportaram conviver com o mundo medíocre que nos ronda e saltaram de torres de Babel, das suas próprias torres; achando que não foram compreendidas, tentaram fugir do vazio, escapar da corrente “massificante” e, sobretudo, acusadora de falsidades em “interrogatórios” e “julgamentos” tramados e mefistofélicos, matando idealismos, como foi no caso do Reitor da UFSC. Suicidaram-se porque sentiram que a esses demônios intelectuais não fariam falta, daí pararam de viver, falando um gritante discurso aos que restaram. Morreram por protesto, faltar-nos-ão suas presenças, mas elas “sobrexistirão”, escrevendo “tragédias gregas”. Damião Ramos Cavalcanti

Atemporalidades do tempo

A passagem de ano, neste 31 de dezembro, pode nos causar certa confusão, porque o último dia de 2017 é domingo, o festivo da semana; e, o primeiro de 2018, a segunda-feira, um dos dias úteis, de trabalho, levando Joca Taxista dizer que “tanto faz, tudo é mesma coisa”, repetindo a filosofia de que o tempo é um continuum, como se fosse um todo. O novo seria o pedaço da estrada que seu carro ainda não percorreu, mas o caminho é um só. Não o impressionam os passageiros vestidos de branco, informando-lhe o destino da festa, pagando-lhe a corrida para o Ano Novo. Há fogos de artifício nos velhos ares, de repente, apagados pelos novos ventos, mas isso não contradiz serem os anos um mesmo tempo, “uma coisa só”: o novo não recomeça o velho, mas apenas lhe dá continuidade. O andarilho budista na interminável via, na samsara, e depois no ainsa, conta nos dedos oito vias, mas o caminho é um só, o à inatingível perfeição, à felicidade. Há quem já se ache, presunçosamente, perfeito. Mesmo quase assim, foi o tempo que melhorou ou ele, que melhorou no tempo? Percebam os de vida curta, média ou longa que o tempo é longevo, sem fim. E reflete o taxista: vão-se os passageiros, e o carro fica, não parando de rodar. Mais do que do ano, os fins de semana servem para nos avisar metas que não foram ainda cumpridas; na próxima, poderão ser alcançadas. Então, festeja-se o fim ou o início? Os dois, o das metas alcançadas e o das a serem cumpridas, tudo numa só festa, num só tempo, misterioso, dando-nos a intuição da eternidade e a Mário Quintana, da poesia: “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa./ Quando se vê, já é sexta-feira!/ Quando se vê, já é natal… / Quando se vê, já terminou o ano…/ Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida./ Quando se vê, passaram 50 anos!/ Agora é tarde demais para ser reprovado…” Damião Ramos Cavalcanti

Cineclube Verbo & Imagem apresenta: Feliz Natal

A Academia Paraibana de Letras apresenta em sessão gratuita o cineclube Verbo e Imagem, que exibirá Feliz Natal com comentários de José Nunes da Costa. Direção: Christian Carion 28 de dezembro (última quinta-feira do mês) às 18 horas.

No Natal, o nosso paganismo

Estava comprando pão, quando uma menina moça, no competitivo frisson da fila da padaria, cobrou da mulher ao lado: “Mãe, quando é que a senhora vai comprar as coisas pro Natal?” A mulher, de cabelo assanhado, mas, na moda, bem vestida com roupas vendidas em lojas populares, imitando confecções de luxuosas boutiques, respondeu por cima do ombro: “Quando o dinheiro sair”… A filha insistiu: “Quando vai sair?”, ao que ficou sem resposta. Essa história de “compra-compra”, preparando essa festa, vem acontecendo muito antes de Jesus Cristo nascer; desde as comemorações natalinas, mas pagãs, em homenagem ao “Deus Sol”, com o nome de “Brumália”, inclusive com troca de presentes. Mas, naquele tempo, sem o arrumado “amigo oculto”. Os amigos, todos sabiam… Aqui e agora, vai se sabendo da amizade, aos poucos, até se caracterizar, com suspense, o perfil do sorteado. No nascimento de Cristo, nada se escondeu, só a criança, da fria espada de Herodes. Há muito tempo, no presépio da Igreja que absorveu tal natal, a partir do século IV, vêem-se os “reis magos”, montando camelos, e, sem surpresa, mostrando os presentes nas mãos que dariam ao recém nascido Messias. Os nomes desses magos sempre foram estrambóticos; difíceis de decorar, inclusive servindo como pergunta de maratona. Ninguém acertava em dizer os três; sabiam-se apenas os três presentes. Também sobre isso, não encontrei relato nos evangelistas, aprendi com a catequista Vicença, em Pilar, que se chamavam Melchior, Baltasar e Gaspar e que não seriam reis , mas simplesmente “sacerdotes zoroástricos” (outra palavra difícil), das longínquas terras da Arábia, que, guiados por uma estrela, presentearam ouro que, segundo o catecismo dos Padres da Igreja, simbolizaria a realeza; o incenso, a divindade; e a mirra, a paixão. Até o apóstolo Mateus (2, 1-12) não pronuncia esses nomes tão complicados, atribuídos aos três magos. Damião Ramos Cavalcanti

Existencialismo na solidão

Viver sozinho, num planeta desabitado, não é experimentar a pior das solidões: a maior solidão é a de quem não se conhece e não se encontra consigo mesmo. Alguns eremitas, ao procurarem o autoconhecimento, alcançam essa consciência existencial. Vivem a ataraxia, no ermo das montanhas, das matas, levando uma vida isolada. Morar sozinho também pode ser fuga: escapar de ofender os outros ou de ser ofendido por eles. A solidão excêntrica, quando sã e prometendo epifanias, caracteriza-se como coisa de santo. O pecado é não enfrentar o desafio de conviver com os outros. Só num planeta desabitado? Não. Há quem, quase saindo da Terra pelo topo da montanha, como um solitário tibetano, sentado numa dura pedra de alguma caverna, adquire extraordinária força mental, levita o corpo do chão e, sem falar, comunica-se com o universo como se dominasse a física da natureza. Mas, fugindo do convívio com os outros, não ultrapassa a estratosfera que separa os terrestres dos planetas isolados, como os astronautas, sofrendo o perigo e o calor da nave externamente em chamas, a rasgarem cortinas de fogo para regressar à Terra. O solitário, em equilíbrio, desfruta plena existência, na descoberta de si mesmo, à busca da verdade, harmonizando corpo e espírito, desvendando mistérios só compreensíveis na silenciosa ambiência meditativa, ausente do frêmito das ruas e liberto da apregoada “concorrência para ter”. Parece loucura nesse mundo de ganâncias. Mas, sabiamente, conversa consigo mesmo ou com pessoas a distância, noutras montanhas, sentindo crescente intensidade existencial. Porém, não no convívio com os outros, evitando passar pelo corredor de fogo que separa os terrestres dos planetas isolados. Trancafiado, sem a simples liberdade e a existencial, num andar do arranha-céu, num cômodo e enfeitado apartamento, há quem tente tudo isso. Mas, assim, como vivenciar a montanha e penetrar mais dentro de si mesmo? Relembro os momentos de solidão na minha infância, onde ou quando se escondiam “brinquedos proibidos” (Jeux Interdits). E fora desses espaços solitários, havia bem maior liberdade existencial com os outros, jogando bola ou soltando pipa… Damião Ramos Cavalcanti

A CRÔNICA DE DAMIÃO RAMOS CAVALCANTI

A crônica é um gênero anfíbio da literatura; transida entre o factualismo jornalístico e a transcendência estética, ela é o hibridismo do hibridismo, o entrelugar da linguagem, a indomável arte que se recusa a caber dentro desta, daquela, ou de qualquer que seja a grade classificatória que a queira aprisionar. Malandra, enamora-se dos vários modos de transfiguração do real, mas não assina pactos de convivência duradoura com nenhum deles, a não ser consigo mesma e com o seu libertário e errático modo de ser e de estar na república das letras. Do poema em prosa, ao roçar nas fímbrias da ficção; da meditação filosófica ao delicado incursionamento ensaístico, plural é a travessia da crônica, gênero cultivado pelo professor e acadêmico Damião Ramos Cavalcanti, em várias impressões textuais que ele tem, domingo após domingo, destilado nas páginas deste periódico. Ora o lirismo se evola de uma memorialística remembrança do mar em seus fascínios e mistérios, notadamente o que é, em sua aparição original, recuperado pela percepção da criança que ainda habita o homem em sua maturidade. Ora, a tonalidade da crítica social se acentua, e a crônica, diria mestre Eduardo Portella, tanto celebra quanto denuncia a cidade moderna, palco de grandezas e misérias. Ora aciona as teclas do código afetivo, na cartografia exata de uma personalidade marcante com quem o cronista escreveu um bonito enredo chamado amizade. E tudo, acentue-se, por meio de uma estruturação retórica que, aparentemente, simula dispersão e desfocamento temático, mas, no final das contas, como diria José Nêumanne Pinto, vai direto ao assunto, ao indesviável cerne da matéria cotidiana de que se instrumentaliza em seu peculiar ato/processo de recriação da realidade. José Mário da Silva Branco

Academia Paraibana de Letras homenageia José Américo no Seminário de Estudos Literários

A Academia Paraibana de Letras (APL) realiza o “II Seminário de Estudos Literários (SEL)”, nesta quinta-feira (7/12), pela manhã e tarde. O evento tem como tema “Força do Regionalismo Literário em José Américo de Almeida”. A programação constará de conferências, mesas-redondas, programação cultural e lançamento de livros e revistas. O evento tem o objetivo de promover uma programação que privilegie a discussão de temas relacionados à vida e obra de José Américo de Almeida e sua influência no mundo literário, além de propiciar aos estudiosos de sua vida e obra a oportunidade de divulgarem e discutirem seus estudos e pesquisas. A programação inicia às 8h30, com pronunciamento do presidente da APL, professor Damião Ramos Cavalcanti, seguido da conferência da acadêmica Ângela Bezerra de Castro sobre “A Consciência do Feminino em José Américo de Almeida”. Às 9h30, o jornalista Gonzaga Rodrigues falará sobre “José Américo em A Paraíba e seus problemas”; às 10h10, o acadêmico Hildeberto Barbosa Filho falará sobre “José Américo de Almeida: Um Olhar Ensaístico”; às 10h40 o professor Giuseppe Roncalli Ponce de Oliveira (UFCG) abordará “Diálogos Epistolares: José Américo com Joaquim Inojosa e Câmara Cascudo”, seguido de debate. Às 14h, a programação reinicia com a mesa-redonda “José Américo: Memórias e Amizades Literárias”, com participação de Wills Leal (APL), Neide Medeiros Santos (Alane) e Ana Izabel de Souza Leão Andrade (Alane), seguida de debate. Após o intervalo, às 15h30 a mesa-redonda “José Américo: Política e Cultura”, com José Mário da Silva branco (APL), Luiz Mário Dantas Burity (Unirio) e Milton Marques Júnior (UFPB), seguido de debates. Às 16h inicia a programação cultural, com o Grupo Poética Evocare – Poemas de José Américo e Augusto dos Anjos; Amarílis de Rebuá apresentará composições de José Siqueira e José Américo de Almeida. Às 17h, filme Soledade – A Bagaceira de Paulo Thiago. O II Seminário de Estudos Literários (SEL)” acontecerá na sede da Academia Paraibana de Letras, rua Duque de Caxias, 25/37 – Centro – João Pessoa. Fátima Farias – Assessora de Imprensa

Maxixe lembra quiabo

Maxixe não é, aqui, a dança, desde 1870, inventada pelos cariocas, parecida com a habanera e com a polca que se misturaram com o tempero do ritmo africano, então admirado no dançarino popular chamado de Maxixe, requebrando os quadris, mais do que a mulata no morro, em passos rápidos pra frente e pra trás, como alegorias ora improvisadas , ora ensaiadas. A partir da metade do século XX, tal maxixe foi engolido pelo samba. A continuar, maxixe é o que, numa feijoada ou num cozido, separado ou não do quiabo, barato, substitui caríssimos comprimidos de zinco. O maxixe também lembra o gostoso quiabo, frito ou cozinhado no feijão verde cuja baba alguns repugnam; com baba, sinto prazer de comê-lo, medicando-me com as vitaminas A, B, C, E e K, contendo os minerais zinco, ferro, cálcio, magnésio e potássio; e ainda como preventivo contra as doenças do joelho, assim se explicam pessoas que coxeavam e não mancam mais. Também o quiabo traz terapêuticas lembranças, o que finalmente confesso. Em 1966, no fim da longa safra de quiabo, quando me despedia de familiares para ir estudar na Itália, procurei visitar o meu amado avô Ramos que tinha se mudado de Pilar para Carpina, no caminho das romarias ao Santuário de São Severino dos Ramos , aonde, durante minha infância, peregrinavam meus pais para “pagar promessas alcançadas ou agradecer graças recebidas”. Ao chegar a Carpina, meu avô, o velho Ramos, esperava-me: “Mês passado, seu pai Inácio me avisou que você iria pra longe, então preparei uma lembrança para você”. Levou-me ao quintal, mostrou-me um único e bem cuidado fruto do verde quiabeiro: “Guardei para você…” Ele já morreu e levou consigo sua liderança, seu largo sorriso contando estórias debaixo da árvore, arrodeada por sempre ocupados tamboretes. Mas sua simplicidade ainda me ensina: um pequeno presente cresce e valoriza-se, quando há sinceridade na doação. Damião Ramos Cavalcanti